Mercado de IPOs nos EUA perde fôlego após recuo em estreias e adiamentos

Incertezas em relação à IA reduziram o otimismo de investidores com novas aberturas de capital, depois que empresas como o Agibank, que estreiou na NYSE nesta semana, tiveram que diminuir suas ofertas

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Bloomberg — O mercado de IPOs nos Estados Unidos sofreu um abalo desde última semana depois que empresas recém-listadas passaram a gerar perdas para investidores que apostaram em novatas de tecnologia, ameaçando o clima positivo antes de grandes ofertas esperadas para este ano.

A corretora Clear Street cortou sua faixa de preço para a abertura de capital em quase dois terços, poucos dias depois de o Agibank ter sido forçado a reduzir suas próprias ambições.

Os ajustes ocorreram dentro de um intervalo de uma semana após a decisão da Liftoff Mobile, apoiada pela Blackstone, de adiar sua estreia na bolsa, em meio a uma forte queda das ações de tecnologia.

O potencial IPO da SpaceX, de Elon Musk — e possivelmente até ofertas de rivais em inteligência artificial ligados à xAI — continua sendo o evento mais esperado do ano para o mercado.

Ainda assim, como as três empresas que enfrentaram dificuldades neste mês com seus IPOs se apresentavam como “disruptoras tecnológicas”, a incerteza em torno dos efeitos da IA até mesmo sobre tecnologias de ponta tem sido suficiente para afetar investidores e assessores.

“Se houver qualquer questionamento ou dúvida, os investidores simplesmente deixam passar o negócio. E, no momento, não há medo de ficar de fora — então eles se sentem confortáveis em esperar”, disse Matthew Kennedy, estrategista sênior da Renaissance Capital, provedora de pesquisas pré-IPO e de ETFs focados em ofertas iniciais.

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Os investidores têm se mostrado dispostos a ficar de fora das ofertas e aguardar que as empresas comprovem seu valor — ou, ao menos, que os papéis se estabilizem após a estreia.

Mais da metade das 15 companhias que levantaram mais de US$ 100 milhões cada em IPOs nas bolsas americanas estão sendo negociadas abaixo do preço de oferta, segundo dados compilados pela Bloomberg.

Cinco dessas ações acumulam quedas de pelo menos 15% em relação ao valor pago pelos investidores no IPO.

Incerteza com a IA

Investidores que compraram ações de empresas de tecnologia em IPOs recentes agora tentam absorver as perdas, à medida que companhias listadas dos setores de software e serviços financeiros sofrem pressão diante das incertezas relacionadas à inteligência artificial.

No caso da Liftoff, empresas comparáveis como a AppLovin, que também atua no marketing para aplicativos móveis, e a Unity Software despencaram nas semanas que antecederam a oferta planejada, com perdas superiores a 40%.

O mesmo vale para o Agibank, após outra fintech brasileira, o Pic Pay afundar depois de seu IPO no fim de janeiro.

Investidores começaram a questionar o valuation pretendido pela Clear Street nos dias que antecederam a decisão da empresa de reduzir o tamanho potencial de sua oferta para US$ 364 milhões, ante até US$ 1,05 bilhão, segundo a Bloomberg News.

O valor de mercado esperado agora é de pouco mais de US$ 7 bilhões, em comparação com a rodada privada concluída no mês passado, que avaliou a companhia em US$ 12 bilhões.

“Algumas comparáveis muito claras e diretas simplesmente desmoronaram em certos casos”, disse Kennedy. “Estamos caminhando para o ano do IPO resistente à IA, e continuaremos vendo empresas que não podem ser facilmente afetadas pela inteligência artificial acessarem o mercado.”

Esse tem sido o caso das poucas ofertas bem-sucedidas no início de 2026. A Forgent Power Solutions, que projeta e fabrica equipamentos elétricos usados em data centers, acumula alta de 20% após um IPO de US$ 1,74 bilhão.

Já as ações da empresa de locação EquipmentShare.com avançaram mais de 30% desde o IPO de 22 de janeiro, que levantou cerca de US$ 859 milhões.

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