Menos bits, mais átomos: ameaça da IA muda foco para ativos físicos, diz CIO do UBS WM

Em entrevista à Bloomberg News, Ulrike Hoffmann-Burchardi, diretora global de ações e CIO para as Américas, diz que o risco da IA deve levar investidores a deslocar o foco para mineradoras, geradoras de energia e grupos industriais

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Bloomberg — A ameaça que a inteligência artificial representa para negócios baseados em software deve levar investidores a deslocar o foco de empresas de tecnologia para companhias da economia física, como mineradoras, geradoras de energia e grupos industriais, segundo Ulrike Hoffmann-Burchardi, chefe global de ações e Chief Investment Officer (CIO) para as Américas do UBS Wealth Management.

A gestora está promovendo uma mudança nos portfólios, passando o foco de “bits para átomos”, afirmou a executiva à margem de uma conferência do setor financeiro em Miami Beach, na terça-feira (25).

Isso significa comprar ações de fabricantes de equipamentos, produtoras de energia e mineradoras — empresas que constroem a infraestrutura física necessária para impulsionar a economia moderna.

O movimento ocorre em detrimento de empresas de tecnologia, queridinhas da tese de investimento em IA que sustentou o rali das bolsas nos últimos três anos.

Há segmentos do setor mais vulneráveis à disrupção, especialmente empresas de software, mas também prestadores de serviços como escritórios de advocacia e companhias financeiras que dependem fortemente de software, disse Hoffmann-Burchardi.

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Embora a CIO espere que a IA cause turbulência em uma ampla gama de indústrias, ela avalia que um pano de fundo econômico robusto, combinado a afrouxamento monetário, ainda pode sustentar a alta das ações.

“O macro está muito, muito favorável — porém, acredito que a parcela ligada à IA ficará mais complexa”, afirmou.

“Nos últimos anos, parecia uma maré que levantava todos os barcos, mas neste ano a IA será cada vez mais um fator de diferenciação entre vencedores e perdedores. Toda a economia digital pode ser reimaginada pela IA, e isso é um risco para setores amplos do mercado acionário.”

O balanço da Nvidia, que será divulgado após o fechamento do mercado na quarta-feira, deve oferecer aos investidores um termômetro importante sobre o avanço da IA, em um momento em que preocupações com gastos elevados e com a disrupção de modelos de negócios dominam o noticiário. Os índices S&P 500 e Nasdaq 100 avançaram antes da divulgação dos resultados.

O UBS recentemente rebaixou os setores de tecnologia da informação e de serviços de comunicação no S&P 500.

A decisão ocorre em meio à perda de fôlego do rali liderado por tecnologia desde o fim de outubro. As empresas de tecnologia no S&P acumulam queda de 8,6% desde o recorde atingido em 28 de outubro.

Já produtoras de energia e de materiais avançaram ao menos 20% no mesmo período, à medida que investidores migraram de setores vencedores para segmentos que vinham ficando para trás.

Essa rotação ganhou urgência nas últimas semanas, à medida que diversas ferramentas de IA passaram a ameaçar transformar indústrias inteiras, do desenvolvimento de software à gestão de patrimônio.

Propriedades intelectuais que antes justificavam múltiplos elevados passaram a parecer menos valiosas. Em contrapartida, ativos físicos — menos replicáveis por IA — ganharam atratividade.

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Segundo Hoffmann-Burchardi, negócios baseados em ativos intangíveis e investimentos de longa duração, como private equity, tendem a exigir prêmios de risco maiores em um mundo movido por IA, enquanto empresas com ativos tangíveis podem se mostrar mais resilientes.

Na busca por oportunidades após a recente derrocada do software, o UBS prefere companhias que adotem uma estratégia “AI first”, em vez de exposição ampla ao setor.

A razão, afirmou, é que, diferentemente de mudanças tecnológicas anteriores, a IA é autoaprendente, o que acelera e torna menos previsível o ritmo das transformações.

Avanços rápidos na programação — da geração de trechos de código à construção de arquiteturas completas — determinam a velocidade com que modelos de negócios podem ser desafiados.

Essa dinâmica eleva os prêmios de incerteza nos mercados e força investidores a rever premissas tradicionais sobre vulnerabilidade à disrupção.

Apesar da rotação em curso, o UBS Global Wealth mantém visão construtiva para o mercado acionário como um todo, prevendo uma “grande ampliação” da liderança após anos de concentração extrema.

Estímulos fiscais em grandes economias — dos Estados Unidos à China, Alemanha e Japão — combinados ao afrouxamento monetário pelo Federal Reserve criam um pano de fundo macroeconômico incomumente favorável às ações, com potencial para impulsionar crescimento e lucros corporativos, avalia a instituição.

“Nos EUA, em particular, há estímulo fiscal e monetário atuando juntos — isso é bastante singular”, disse Hoffmann-Burchardi.

“Historicamente, isso costuma ocorrer apenas em crises, mas agora acontece em um ambiente de crescimento. Para nós, isso significa que devemos ver um PIB maior neste ano em comparação ao anterior.”

Geograficamente, o banco recomenda maior diversificação, incluindo mercados emergentes, após um período prolongado de domínio dos EUA.

Ainda assim, a executiva ressalta que os Estados Unidos mantêm vantagem estrutural no longo prazo, dada a concentração de inovação, entrada de capital e liderança em setores como IA, eletrificação e longevidade na área de saúde.

Uma das maiores preocupações da CIO é se o salto nos investimentos em IA gerará lucros suficientes para justificar os níveis atuais de valuation.

Por ora, as expectativas de crescimento resiliente, inflação em desaceleração e novos cortes de juros pelo Fed neste ano tendem a sustentar as bolsas — especialmente se os resultados corporativos surpreenderem positivamente e o avanço dos lucros se estender além das gigantes de tecnologia.

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