Bloomberg Línea — As ações brasileiras atravessam uma fase de impulso, apoiada por fatores simultâneos que, segundo o Bradesco BBI, configuram um ambiente atípico em relação a episódios anteriores de volatilidade.
O banco posiciona o país como sua principal aposta na América Latina, em um contexto de rotação global de capitais, ajustes macroeconômicos e catalisadores locais em desenvolvimento.
“As ações brasileiras têm ‘nove vidas’ e se beneficiam de forma quase única de uma confluência de fatores geopolíticos, macroeconômicos globais, locais e de mercados emergentes que acreditamos ainda terem potencial”, afirmaram os analistas Pedro Grimaldi e Ben Laidler.
A interpretação, que brinca com a noção das sete vidas atribuídas a um gato no imaginário popular, justifica o bom desempenho da bolsa em 2026.
Essa abordagem contrasta com os ciclos recentes marcados por correções — desde deteriorações fiscais até choques externos — nos quais o Brasil não conseguiu tirar proveito do cenário.
Agora, o banco sustenta que a dinâmica atual responde a um conjunto de fatores simultâneos que estão impulsionando os fluxos internacionais e reconfigurando as avaliações do mercado.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Rotação global e avaliação: as três primeiras vertentes
O primeiro bloco identificado pelo Bradesco BBI foca no posicionamento global dos mercados emergentes, nos quais o Brasil figura como um dos principais beneficiários da realocação de capital.
Os analistas apontam que “o Brasil parece ser o maior vencedor global com um perfil de valor, cíclico e não tecnológico, juntamente com um elevado carry trade”, em linha com a rotação de ativos norte-americanos para os mercados internacionais.
A segunda vertente gira em torno da subponderação estrutural dos mercados emergentes nas carteiras globais. Segundo o relatório, “a subponderação global dos investidores em ações de mercados emergentes acumulou-se ao longo de quinze anos de baixo desempenho relativo”, uma lacuna que abre espaço para uma realocação progressiva para economias com maior liquidez e diversificação setorial, como o Brasil.
O terceiro eixo diz respeito ao valuation. Apesar das recentes altas, o mercado brasileiro mantém múltiplos moderados e, segundo os analistas, “o Brasil continua sendo um dos mercados de ações mais baratos do mundo, com um PER futuro de 10,2 vezes”.
Há também um rendimento por dividendo estimado em 5,3%, ao passo que as expectativas de lucros começam a ser revisadas para cima.
Leia mais: Dólar como refúgio? BBVA revisa previsão de moedas da América Latina em meio à guerra
Petróleo e geopolítica: a proteção externa
O segundo bloco agrupa fatores ligados ao ambiente geopolítico e às commodities, onde o Brasil se posiciona como beneficiário líquido. A quarta vertente se apoia no mercado energético.
O relatório destaca que “o Brasil é um duplo beneficiário macroeconômico e bolsista dos preços mais altos do petróleo”, após se consolidar como exportador líquido e aumentar sua produção em cerca de 60% na última década.
Além desse impulso, há também uma menor exposição a tensões internacionais, sendo que o quinto pilar está ligado ao posicionamento geopolítico relativo do país. Os analistas destacam que “o Brasil está longe das principais tensões geopolíticas atuais, com uma baixa proporção de exportações em relação ao PIB”, o que reduz sua vulnerabilidade diante de conflitos em outras regiões e reforça seu perfil defensivo dentro dos mercados emergentes.
Essa posição coincidiu com revisões para cima nas expectativas de lucros, impulsionadas em parte pelo setor energético, em um contexto em que o país combina exposição às commodities com uma estrutura econômica relativamente protegida contra choques externos.
Leia mais: Da Venezuela ao Brasil: inflação na América Latina sobe com guerra no Irã
Moeda, taxas e política: catalisadores internos
O terceiro bloco reúne os impulsionadores macroeconômicos e locais. Neles, o sexto pilar gira em torno da moeda, onde o banco destaca que “o real tem sido uma das grandes modas vencedoras globais de um dólar mais fraco”, apoiado por diferenciais de taxas de juros elevados que reforçam o apelo do carry trade.
A sétima vertente está ligada à frente fiscal. Nesse plano, o relatório indica que “os déficits fiscais globais se ampliaram, tornando a comparação do Brasil menos desfavorável”, em um contexto em que a nova regra fiscal contribui para conter preocupações históricas.
A oitava vertente está ligada ao ciclo monetário. “O Brasil começou a reduzir as taxas a partir de 15% no mês passado, em um ciclo único, abrangente e com duplo impacto”, afirmam os analistas, com efeitos tanto nas valorizações quanto nos fluxos de investimento domésticos.
O nono elemento situa-se no plano político. De cara às eleições presidenciais de outubro, o relatório aponta para uma margem ainda não totalmente refletida nos preços.
Grimaldi e Laidler afirmam que veem “opcionalidade nas eleições de outubro, desde o peso desproporcional das empresas estatais até aos elevados rendimentos reais dos títulos”.
Com esse conjunto de fatores, o Bradesco BBI mantém o Brasil como sua principal aposta na América Latina, com foco em setores sensíveis às taxas, mercados de capitais, empresas estatais e crescimento estrutural.
Entre os riscos, o banco identifica uma eventual reversão estrutural do dólar ou o retorno dos temores de dominância fiscal, variáveis que condicionarão a sustentabilidade do atual ciclo de mercado.
Leia também
Estoques de petróleo no limite acendem alerta, apesar do preço do barril, diz Goldman
Rússia limita exportações de fertilizantes até dezembro em meio a crise global