Fraudes digitais atingem 34% dos usuários de remessas no mundo, diz Chubb

A digitalização agilizou as remessas na América Latina, mas também aumentou o risco de fraudes e ciberataques. A Chubb alerta que a região precisa integrar seguros e proteção financeira às plataformas de remessa

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Bloomberg Línea — O ecossistema de remessas na América Latina caminha para uma digitalização acelerada, mas essa mudança vem acompanhada de uma exposição crescente à fraude, aos ataques cibernéticos e a falhas na proteção dos usuários.

Um relatório recente da seguradora global Chubb revelou que 34% dos remetentes de dinheiro em todo o mundo já foram vítimas de fraude cibernética e que 86% já utilizam canais digitais para enviar dinheiro.

Em países como a Argentina, 17% dos usuários consultados pela Chubb reduziram significativamente o uso de plataformas de pagamento digital devido a preocupações com golpes digitais, enquanto no México esse percentual chega a 15% e no Brasil e na Colômbia a 13%.

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“Essa combinação de alta digitalização e alta exposição à fraude define o momento que vivemos”, disse Mónica Triviño, vice-presidente sênior de Seguros de Acidentes e Saúde da Chubb América Latina, à Bloomberg Línea. “Para as plataformas de remessas, a resposta não pode se limitar a melhorias técnicas: deve incluir proteção financeira real para o usuário quando algo dá errado.”

Na opinião dele, isso significa integrar proteções contra fraudes, roubos em transferências e ataques cibernéticos diretamente no fluxo da transação.

Em seu recente relatório, intitulado “A armadilha da confiança nas remessas: revelando vulnerabilidades ocultas”, a seguradora identifica três riscos críticos para os usuários desses mercados.

Os principais riscos incluem fraudes na própria transação (suplantação de identidade, plataformas falsas e phishing); interrupção do fluxo devido à incapacidade do emissor; e falta de mecanismos de recuperação quando uma transferência falha ou é interceptada.

As conclusões do relatório baseiam-se em uma pesquisa on-line realizada com 3.502 adultos pela Opinium Research, uma agência global de análise estratégica.

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Nesse contexto, o relatório da Chubb revelou que 89% dos emissores em todo o mundo manifestaram interesse em seguros de proteção de renda.

Além disso, 80% dos entrevistados reconheceram que provavelmente usariam uma plataforma que oferecesse proteção contra roubo ou perda.

No Brasil, a maior economia do continente, a Chubb constatou que 89% dos destinatários usariam uma plataforma que oferecesse seguro contra roubo ou perda de remessas.

“A infraestrutura digital já existe. O que é preciso é integração: os seguros devem estar incorporados ao fluxo da transação, e não como um produto separado”, segundo a executiva Mónica Triviño.

Triviño afirmou que existe uma “oportunidade significativa” justamente porque a infraestrutura de remessas já alcança populações que outros canais financeiros não conseguem atingir, incluindo redes bancárias que hoje estão presentes nas comunidades beneficiárias e podem ser aliadas fundamentais nessa distribuição.

“A questão não é se a região está pronta. A demanda confirma isso. A questão é com que rapidez o setor responde”, afirmou ela. “As remessas podem ser a alavanca mais poderosa para a inclusão financeira na América Latina”.

Dupla fragilidade

De acordo com os números revelados no estudo, apenas 3% dos trabalhadores migrantes e trabalhadores autônomos nos Estados Unidos conseguiriam arcar com suas despesas de subsistência por mais de três meses sem renda.

Isso significa que, em caso de acidente ou internação, o fluxo de remessas é interrompido quase imediatamente.

A propósito, o relatório mostra que mais de 90% dos trabalhadores migrantes e trabalhadores da economia compartilhada nos EUA e na Ásia-Pacífico consideram atraentes os seguros contra acidentes, de internação hospitalar e de segurança cibernética.

Para as famílias beneficiárias na América Latina — onde as remessas financiam o consumo básico, a saúde e a educação — essa fragilidade tem consequências imediatas.

As remessas funcionam como uma rede informal de segurança social, mas Mónica Triviño destaca que essa rede é sustentada por trabalhadores sem proteção.

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Na Chubb, considera-se que as coberturas contra acidentes e invalidez garantem a continuidade do fluxo de remessas, mesmo quando o trabalhador não pode trabalhar.

“Esse tipo de solução pode ser distribuído por meio dos canais que esses trabalhadores já conhecem — incluindo o sistema bancário tradicional — para alcançar com maior alcance aqueles que mais precisam”, observou Triviño.

Os receptores na América Latina enfrentam uma dupla vulnerabilidade.

Eles dependem de fontes de renda que podem ser interrompidas a qualquer momento — por acidente, fraude ou perda do emprego do provedor — e, ao mesmo tempo, têm acesso limitado a produtos de proteção financeira.

“Os trabalhadores migrantes e da chamada gig economy são o motor das remessas para a América Latina e são exatamente o grupo mais vulnerável”, afirmou Triviño.

O estudo identifica uma tripla vulnerabilidade entre esses trabalhadores: instabilidade econômica devido a rendimentos irregulares, isolamento social causado por barreiras linguísticas e culturais e maior exposição à fraude digital.

Na prática, explicou Triviño, isso significa que um acidente, uma internação hospitalar ou um ataque cibernético pode interromper abruptamente o fluxo de recursos para as famílias que dependem dessas remessas para cobrir despesas com alimentação, saúde e educação.

“A vulnerabilidade do emissor se traduz diretamente em vulnerabilidade do receptor. Proteger o trabalhador migrante é proteger o lar latino-americano”, afirmou ela. “Fortalecer a proteção em uma ponta fortalece toda a cadeia”, declarou a vice-presidente sênior de Seguros de Acidentes e Saúde da Chubb América Latina.

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E, nesse esforço, ele considera que o setor bancário tradicional desempenha um papel fundamental: “Ele possui a capilaridade, a confiança institucional e a infraestrutura necessárias para levar soluções de proteção a famílias que, de outra forma, ficariam à margem do sistema”.

Segundo a Chubb, as vulnerabilidades enfrentadas pelos remetentes de remessas, especialmente os trabalhadores migrantes e os que atuam em plataformas digitais, exigem uma resposta imediata e coordenada.

Nesse sentido, o relatório destaca que empresas de remessas, governos, seguradoras e usuários têm um papel fundamental na construção de um sistema financeiro “mais seguro e inclusivo”.

Em 2025, as remessas recebidas na região totalizaram cerca de US$ 174,4 bilhões, US$ 11,7 bilhões a mais do que o valor recebido em 2024, de acordo com um relatório do Banco Interamericano de Desenvolvimento (Grupo BID).

O México foi o país que mais recebeu remessas naquele ano, com um valor estimado de US$ 61,81 bilhões, embora tenha registrado uma queda de US$ 2,936 bilhões em relação ao ano anterior.

Seguem-se, em termos de valor, a Guatemala (US$ 25,857 bilhões), a Colômbia (US$ 13,379 bilhões) e Honduras (US$ 11,983 bilhões).

De qualquer forma, o fluxo de remessas na região resistiu, em 2025, aos impactos causados pelas políticas antimigração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

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