Bloomberg — A ampliação do conflito no Oriente Médio reforçou uma conclusão para os mercados financeiros: em momentos de busca por proteção, o dólar continua sendo o principal ativo de proteção dos investidores.
Enquanto bolsas caem e até ativos tradicionalmente defensivos — como ouro e títulos do Tesouro americano — recuam com a intensificação da guerra envolvendo Estados Unidos e Israel no Irã, a valorização da moeda americana se destaca.
Desde o início do conflito no fim de semana, o dólar registra a maior alta em dois dias em quase um ano.
“O dólar se comporta de forma clássica em períodos de aversão ao risco e incerteza — como o principal ativo de proteção”, afirmou Paresh Upadhyaya, estrategista da Pioneer Investments.
Segundo ele, o movimento vai além da simples fuga para ativos de qualidade e reflete dúvidas crescentes sobre crescimento global e inflação.
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A demanda pela moeda americana contrasta com questionamentos recentes sobre seu status como principal divisa de reserva global, que ganharam força durante as disputas comerciais conduzidas pelo presidente Donald Trump.
Apesar de um conflito prolongado poder ampliar incertezas sobre a política externa dos Estados Unidos, investidores ainda não enxergam alternativa comparável ao dólar.
O índice Bloomberg Dollar Spot acumula alta de 1,5% nesta semana. Nesse contexto, quase todas as 16 principais moedas acompanhadas pela Bloomberg recuaram na terça-feira (3). O euro caiu mais de 1% para o menor nível desde novembro.
O mercado de opções também passou a refletir o fortalecimento da moeda americana: investidores voltaram a pagar para se proteger contra uma valorização ampla do dólar — movimento oposto ao observado poucos dias antes, quando predominava incerteza sobre a direção da divisa.
Indicadores de posicionamento mostram o maior otimismo de curto prazo com o dólar desde junho de 2024.
Segundo Skylar Montgomery Koning, estrategista da Bloomberg MLIV, o dólar segue como o maior beneficiário do conflito no Oriente Médio, apoiado tanto pelo status de porto seguro quanto pela posição dos Estados Unidos como exportador líquido de energia — ao contrário de outras grandes economias, que dependem de importações.
O movimento ocorre enquanto ações globais e títulos do Tesouro americano recuam. A queda dos Treasuries elevou os rendimentos, à medida que o avanço dos preços de energia reacende temores de inflação e pode dificultar novos cortes de juros pelo Federal Reserve nos próximos meses.
Em choques ligados ao petróleo, esses títulos já perderam temporariamente o papel de proteção no passado.
“Os investidores precisam repensar como buscar proteção daqui para frente, porque os títulos podem não oferecer o mesmo nível de defesa observado historicamente”, disse David Wagner, gestor da Aptus Capital Advisors.
Segundo Leah Traub, gestora da Lord Abbett, interrupções no fornecimento de petróleo e gás do Oriente Médio tendem a afetar mais Ásia e Europa do que os Estados Unidos, que ampliaram significativamente sua produção doméstica de energia. “O dólar retomou seu lugar natural como moeda de refúgio”, afirmou.
Diferentemente de crises energéticas anteriores, os Estados Unidos tornaram-se menos vulneráveis a choques externos após expandirem a produção de petróleo de xisto nos últimos anos.
O país passou de grande importador líquido para maior produtor mundial e exportador relevante — dinâmica que tende a sustentar a moeda americana em períodos de alta do petróleo.
Antes dos ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, o mercado estava amplamente posicionado para uma queda do dólar.
Investidores mantinham cerca de US$ 19 bilhões em apostas derivativas contra a moeda americana, próximo aos níveis máximos observados no ano passado, segundo dados da Commodity Futures Trading Commission compilados pela Bloomberg até 24 de fevereiro.
“A valorização do dólar mostra como entender o posicionamento do mercado é crucial”, disse Bipan Rai, diretor-gerente da BMO Asset Management. Segundo ele, após meses de posições vendidas na moeda americana, esse movimento provavelmente perdeu força no curto prazo.
-- Com a colaboração de Miles J. Herszenhorn, George Lei e Alex Nicholson.
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