Dólar como refúgio? BBVA revisa previsão de moedas da América Latina em meio à guerra

Banco vê moeda americana como porto seguro diante do impacto da guerra no Oriente Médio, mas aponta limite para a alta com possível alívio no petróleo

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Bloomberg Línea — O dólar voltou ao centro das atenções no mercado global após o choque geopolítico no Oriente Médio, que reconfigurou fluxos de capital, prêmios de risco e avaliações em um ambiente de elevada volatilidade.

Diante desse novo cenário, o BBVA revisou suas projeções para a América Latina, em um contexto de maior dispersão entre as moedas e de renovada relevância sobre o nível de valorização da moeda americana.

Desde o início do conflito, o banco passou a incorporar o impacto macrofinanceiro imediato e destacou que “a guerra no Irã representa mais um obstáculo”, diante do risco de estagflação, em um ambiente no qual “as perturbações nos fluxos de energia impulsionaram a procura pelo dólar como moeda de refúgio”, alterando a postura dos investidores.

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Embora o cessar-fogo tenha trazido algum alívio, o balanço de riscos segue incerto, como ficou evidente no fim de semana, quando fracassou a primeira rodada de negociações entre Estados Unidos e Irã.

“Um conflito prolongado poderia elevar os preços da energia (e dos alimentos), aumentando as tensões financeiras e a inflação, ao mesmo tempo em que prejudicaria o crescimento”, alertaram os analistas do banco espanhol.

Em meio a esse quadro de volatilidade, a revisão das expectativas para o segundo trimestre não ocorreu de forma homogênea.

O BBVA reconhece que o dólar recuperou força em momentos de aversão ao risco, embora veja fatores estruturais que limitam seu potencial de alta, em um cenário no qual a incerteza influencia tanto os fluxos globais quanto a alocação de recursos nos mercados emergentes.

Dólar global

O comportamento do dólar tem sido diretamente influenciado pela evolução do conflito, pelos preços da energia e pela resposta da política monetária.

Para os analistas do BBVA, há diferentes cenários capazes de afetar a moeda americana, incluindo um quadro em que uma distensão no Oriente Médio permitiria que “a demanda por moeda de refúgio (USD) diminuísse, embora se mantenha algum valor para os exportadores de energia”.

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Essa leitura reflete uma mudança no comportamento do mercado. Segundo o banco, “o dólar americano confirmou uma tendência mais estável”, o que sugere um padrão de movimentos em duas direções, com episódios de valorização em meio a choques e recuos à medida que o apetite por risco se recompõe.

O posicionamento prévio dos investidores também ajudou a amplificar os movimentos recentes. O banco ressalta que “a reação do mercado cambial está longe de ser linear”, em um ambiente no qual posições vendidas em dólar e compradas em carry trade provocaram uma recuperação inicial mais forte, seguida por moderação gradual.

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Nesse contexto, o BBVA “mantém uma posição cautelosamente pessimista em relação ao dólar americano no curto prazo”, considerando que uma eventual moderação nos preços do petróleo reduziria as pressões inflacionárias e abriria espaço para uma postura menos restritiva do Federal Reserve.

Ainda assim, o equilíbrio segue instável. Prêmios de risco, credibilidade fiscal e a evolução do ciclo econômico dos Estados Unidos continuam a ditar a trajetória do dólar, em um ambiente em que os choques geopolíticos seguem dominando o cenário.

Brasil e México

Na América Latina, o BBVA aponta o Brasil como um dos principais pilares do carry global. O real (USDBRL) mantém desempenho relativamente sólido, “devido à sua diversificação das exportações, à produção de energia e alimentos e ao sólido carry”.

As projeções refletem uma dinâmica de curto prazo marcada por cautela. A taxa de câmbio é estimada em R$ 5,26 em junho de 2026, R$ 5,65 em setembro, R$ 5,60 em dezembro e R$ 5,61 em março de 2027, sinalizando uma desvalorização moderada no período eleitoral, antes de eventual estabilização.

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O cenário político, marcado pelas eleições presidenciais, introduz um fator central nessa avaliação. O BBVA alerta que “a eleição de outubro continua sendo um ponto central, uma vez que é vista como um evento de resultado binário”, o que pode provocar movimentos bruscos, a depender do resultado e das expectativas em relação à política fiscal.

No México, o peso (USDMXN) enfrenta um ambiente mais desafiador após seu forte desempenho anterior. “Sua sensibilidade às mudanças no apetite pelo risco continua elevada”, afirmam os analistas do banco. A isso se soma o ajuste promovido pelo Banco do México, que reduziu o diferencial de rendimento da moeda.

As projeções apontam para uma taxa de câmbio de MXN$ 17,65 em junho de 2026, MXN$ 17,70 em setembro, MXN$ 18,00 em dezembro e MXN$ 18,01 em março de 2027. O perfil indica uma desvalorização gradual, em linha com a perda de atratividade do carry trade e com a incerteza externa.

A frente comercial adiciona pressão extra, já que “a revisão do T-MEC em julho pode gerar incertezas”, uma vez que as negociações podem afetar a percepção de risco-país e os fluxos de investimento.

Moedas andinas

Nas economias andinas, o cenário é de maior divergência, condicionado pela dependência de matérias-primas e pelas dinâmicas políticas domésticas.

No Chile, o peso chileno (USDCLP) sofre os efeitos do choque energético, apesar de um ambiente interno mais favorável. O BBVA reconhece que “o conflito no Oriente Médio domina o cenário no curto prazo e prejudica o CLP, por ser o país um grande importador de petróleo”, revertendo parcialmente o impulso anterior vindo dos preços do cobre.

As projeções indicam uma valorização gradual da moeda chilena, de CLP$ 902 em junho de 2026 para CLP$ 890 em setembro, CLP$ 887 em dezembro e CLP$ 883 em março de 2027, em um cenário no qual a normalização externa permitiria recuperar parte do terreno perdido.

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Na Colômbia, o comportamento do peso colombiano (USDCOP) combina fatores positivos e riscos estruturais. Embora o país seja beneficiado pelos preços mais altos do petróleo, o banco alerta que “os riscos fiscais continuam elevados”, em um contexto no qual a incerteza política e a sustentabilidade da dívida permanecem como variáveis-chave.

A taxa de câmbio é projetada em COP$ 3.740 em junho e setembro de 2026, com alta para COP$ 3.790 em dezembro e março de 2027, refletindo pressões de médio prazo, apesar do suporte oferecido pelo carry trade.

No Peru, o sol (USDPEN) mantém perfil mais estável entre os emergentes. O BBVA destaca que “o PEN superou seus pares nos últimos dois anos”, sustentado por fundamentos macroeconômicos sólidos e menor volatilidade relativa.

As projeções apontam para uma trajetória de valorização moderada, de PEN$ 3,40 em junho de 2026 para PEN$ 3,37 em setembro, PEN$ 3,35 em dezembro e PEN$ 3,33 em março de 2027, em um contexto no qual a política doméstica gera alguma instabilidade, mas sem alterar de forma estrutural a dinâmica cambial.

Argentina

O caso argentino segue uma lógica distinta, marcada por um regime cambial administrado e por uma política monetária voltada à estabilidade nominal. O BBVA destaca que “os ajustes na banda cambial e as menores pressões após as eleições de meio de mandato permitiram uma negociação mais estável do USDARS”.

As projeções apontam para uma desvalorização gradual do peso argentino (USDARS), de ARS$ 1.485 em junho de 2026 para ARS$ 1.616 em setembro, ARS$ 1.760 em dezembro e ARS$ 1.817 em março de 2027, dentro de um esquema que prioriza a acumulação de reservas e o controle da inflação.

O comportamento dos juros também adiciona um elemento importante à análise. Segundo o banco, “espera-se que as taxas se estabilizem acima da inflação prevista, o que implica uma taxa real positiva”, criando um ambiente favorável ao carry trade em moeda local.

Apesar disso, permanecem pressões no front externo, ligadas à demanda por divisas, à evolução das reservas e às necessidades de financiamento, em um contexto em que o acesso aos mercados continua sendo uma variável decisiva.