Bloomberg Línea — O Morgan Stanley (MS) prevê um cenário mais desafiador para as moedas da América Latina no segundo semestre, em um contexto marcado por inflação persistente, maiores tensões geopolíticas e processos eleitorais que continuam aumentando a incerteza em vários países da região.
O banco afirmou que mantém uma visão “moderadamente otimista” em relação a algumas moedas latino-americanas, tendo em vista os níveis implícitos nos contratos a termo, embora tenha alertado que os riscos continuam apontando para um enfraquecimento dessas moedas.
Ioana Zamfir e Sofía Palacios, analistas do Morgan Stanley, escreveram que o banco acredita que “os riscos continuam a favorecer as moedas mais fracas devido aos altos preços do petróleo, possíveis preocupações com o crescimento global e as eleições no Brasil, na Colômbia e no Peru”.
As projeções cambiais do banco mostram uma divergência significativa entre os principais mercados latino-americanos.
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Brasil e Chile preferidos
O Morgan Stanley identificou o real (USDBRL) e o peso chileno (USDCLP) como suas moedas preferidas na América Latina, embora tenha esclarecido que o cenário continua condicionado por fatores fiscais e políticos.
Em relação ao Brasil, as analistas destacaram que a perspectiva “incorpora parte do prêmio de risco pré-eleitoral no terceiro trimestre de 2026, seguido por uma recuperação modesta no quarto trimestre”.
O relatório indicou que a evolução do real dependerá das pesquisas presidenciais e das expectativas do mercado quanto à trajetória fiscal do próximo governo.
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A instituição acrescentou que “num cenário que aponte para a consolidação fiscal, o real poderia atingir R$ 4,50 antes das eleições, superando significativamente suas moedas regionais”.
Essa possibilidade explica por que o Morgan Stanley mantém uma visão mais favorável para o Brasil, mesmo num contexto regional mais frágil.
Para essa economia, o Morgan Stanley prevê que o dólar chegue a R$ 5,00 em 2026, em comparação com o câmbio à vista atual de R$ 4,98 e o câmbio a termo de R$ 5,25. Até 2027, a instituição espera uma valorização adicional do real, chegando a R$ 4,80 por dólar.
No Chile, o banco acredita que o peso poderá voltar a refletir um cenário interno mais positivo, associado a reformas consideradas favoráveis ao mercado e a uma eventual consolidação fiscal.
As analistas escreveram que o “cenário para o peso chileno pressupõe que a moeda volte a refletir uma agenda de reformas potencialmente positiva sob o novo governo”. Mesmo assim, o Morgan Stanley esclareceu que a valorização esperada para o peso chileno continua sendo moderada devido à pressão que os preços do petróleo continuam exercendo sobre a inflação.
O banco prevê que o dólar estará cotado a CLP$ 870 em 2026 e a CLP$ 840 em 2027.
Riscos para México, Colômbia e Peru
O Morgan Stanley alertou que o peso mexicano (USDMXN) enfrenta um dos perfis de risco mais complexos da região, apesar da relativa estabilidade de suas projeções cambiais.
O banco explicou que o atrativo do carry trade do peso diminuiu após os cortes nas taxas de juros pelo Banco do México e que persistem riscos associados à revisão do tratado comercial entre o México, os Estados Unidos e o Canadá.
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As analistas apontaram que as “projeções para o peso mexicano provavelmente apresentam os riscos de queda mais acentuados entre os ativos que cobrimos”, enquanto a moeda “funciona como uma cobertura atraente diante de uma desaceleração do crescimento global”.
A instituição também considera que um aumento da incerteza em relação ao T-MEC poderia aumentar a volatilidade cambial e deteriorar ainda mais o desempenho do peso mexicano.
A empresa projeta uma taxa de câmbio de MXN$ 17,15 por dólar em 2026 e de MXN$ 17,40 em 2027, ambas abaixo dos contratos a termo atuais de MXN$ 17,55 e MXN$ 18,24.
Em relação à Colômbia, o Morgan Stanley mantém uma visão cautelosa devido à incerteza política e fiscal associada ao processo eleitoral. O banco projetou uma desvalorização gradual do peso colombiano e alertou que as avaliações atuais continuam pouco atraentes em comparação com os parâmetros históricos.
As analistas escreveram que “os riscos cambiais a partir dos níveis atuais poderiam estar predominantemente inclinados para uma desvalorização”. Em um cenário adverso, o Morgan Stanley estimou que o dólar poderia ultrapassar os COP$ 4.000, enquanto que, em um cenário mais favorável, poderia se aproximar dos COP$ 3.400.
Em sua previsão principal, o banco projeta que o peso colombiano (USDCOP) continuará se desvalorizando e estima que o dólar estará cotado a COP$ 3.825 em 2026 e a COP$ 3.925 em 2027, em meio a riscos políticos e fiscais crescentes ligados ao processo eleitoral.
No Peru, a instituição previu que as pressões de desvalorização do sol peruano (USDPEN) continuarão durante o terceiro trimestre, à medida que a incerteza eleitoral aumentar.
O Morgan Stanley afirmou que a intervenção do Banco Central de Reserva do Peru poderia conter parte da volatilidade cambial, embora não eliminasse as pressões estruturais sobre a moeda.
“Esperamos que as pressões de desvalorização persistam durante o terceiro trimestre, à medida que a incerteza política se intensifica”, escreveram as analistas. Além do processo eleitoral, o banco alertou para os riscos de deterioração fiscal e para a capacidade limitada de realizar reformas em um Congresso fragmentado.
O Morgan Stanley também observou que uma combinação de preços mais altos do petróleo, pressão sobre os títulos soberanos e uma eventual redução da participação estrangeira na dívida peruana poderia continuar enfraquecendo o sol no médio prazo. O banco estima uma taxa de câmbio de S/3,60 por dólar tanto para 2026 quanto para 2027.
Desempenho regional
O banco também alertou que os mercados ainda podem estar subestimando a persistência da inflação na América Latina, especialmente em economias importadoras de petróleo, como o Chile e o Peru.
O Morgan Stanley destacou que as expectativas inflacionárias continuam aumentando após a alta do preço do petróleo associada ao conflito no Oriente Médio e que há riscos relacionados a um possível aperto monetário.
O México surge como a principal exceção na região. A entidade considera que as expectativas de inflação permanecem relativamente estáveis devido à menor repercussão dos preços do petróleo e aos mecanismos de mitigação por meio do IEPS.
No mercado de renda fixa, o Morgan Stanley recomendou posições compradas nos MBonos mexicanos com vencimento em 2028, devido ao seu atraente perfil de carry e roll-down. No Brasil, o banco defendeu estratégias de inclinação da curva de juros devido à incerteza eleitoral e às dúvidas sobre a trajetória futura da inflação.
A instituição preferiu manter uma postura neutra em relação aos títulos de dívida colombiana e peruana enquanto persistir a incerteza política e fiscal. O desempenho das moedas latino-americanas durante o segundo semestre do ano dependerá agora da evolução do preço do petróleo, das decisões dos bancos centrais e dos sinais que as eleições começarem a enviar nos principais mercados da região.