Bloomberg Línea — O economista-chefe do Itaú para a América Latina, Andrés Pérez, considera que o continente enfrenta o cenário externo com maior resiliência do que nas décadas anteriores, apoiada em marcos macroeconômicos mais sólidos.
“Olhando para o futuro, a região deve se beneficiar de condições financeiras globais mais flexíveis, termos de troca favoráveis, uma renovada valorização do crescimento econômico e medidas que fortalecem o investimento”, disse Andrés Pérez à Bloomberg Línea.
De modo geral, Pérez percebe estruturas macroeconômicas mais robustas, que têm ajudado as economias a enfrentar choques externos, “evitando recessões profundas e persistentes”.
Segundo o Itaú, essa combinação poderia amortecer os choques externos, desde que a região mantenha o equilíbrio entre crescimento, controle da inflação e sustentabilidade fiscal.
Nesse contexto, Pérez considera que o dólar caminha para um “enfraquecimento progressivo” em nível global, em um contexto de cortes nas taxas pelo Federal Reserve, de acordo com projeções do Itaú.
A equipe de Pesquisas Econômicas antecipou, em sua mais recente análise sobre o panorama econômico global, dois cortes de 25 pontos-base por parte do banco central dos Estados Unidos para 2026.
Em dezembro, o Federal Reserve reduziu novamente as taxas de juros, marcando sua terceira queda consecutiva, situando a taxa de referência entre 3,5% e 3,75%.
A economia dos Estados Unidos encerrou 2025 com uma inflação anual de 2,7%, ligeiramente acima da meta de 2% estabelecida pelo Federal Reserve.
O Itaú indica que a inflação mostra uma tendência de moderação após os altos níveis dos últimos anos.
No último ano, o índice DXY, que reflete a força ou fraqueza do dólar em relação a uma cesta de moedas globais, caiu 9,60%.
No início desta semana, o dólar enfraqueceu novamente em relação à maioria das principais moedas.
Os investidores analisavam o impacto da possível participação dos EUA em uma intervenção cambial no Japão, enquanto aguardavam a decisão de política monetária do Federal Reserve nesta semana.
De acordo com a Bloomberg, os sinais de apoio dos Estados Unidos para impulsionar o iene reabrem o debate sobre uma possível intervenção monetária coordenada para orientar o dólar para baixo em relação aos seus principais parceiros comerciais.
A ideia é que um acordo desse tipo ajudaria os exportadores americanos a competir com rivais como a China e o Japão.
Moedas mais fortes
Diante dos eventos recentes, a principal cesta de moedas da América Latina avançou em relação ao dólar, com algumas exceções.
As moedas mais valorizadas no acumulado do ano na região até 26 de janeiro são o peso chileno (4,14%), o peso mexicano (3,78%), o real brasileiro (3,61%), o peso uruguaio ( 3,06%) e o peso colombiano (2,60%).
Mais abaixo estão o peso argentino (0,97%), o sol peruano (0,36%) e o peso dominicano (0,31%).
Por outro lado, o lempira hondurenho (-0,04%), o quetzal guatemalteco (-0,04%), o colón costarriquenho (-0,11%) e o guaraní paraguaio (-1,60%) desvalorizaram-se mais em relação ao dólar.
O Itaú afirma que a economia global inicia o ano em meio a tensões geopolíticas e um processo gradual de normalização financeira, com o dólar continuando fraco em nível global.
“Em relação ao dólar, é provável que se observe uma diversificação gradual para outras moedas, o que sustentaria uma valorização das moedas emergentes”, segundo Pérez.
Paula Chaves, analista de mercados da corretora global HFM, disse à Bloomberg Línea que a combinação de um dólar mais fraco, diferenciais de taxas atraentes e expectativas de relativa estabilidade “impulsionou estratégias de carry trade, fortalecendo moedas locais e valorizações bolsistas”.
“Essa rotação de capital para mercados emergentes e commodities responde a um ciclo mais amplo que, de uma perspectiva estrutural, poderia se estender por vários anos, potencialmente até um horizonte próximo a três anos, embora com correções e recuos normais dentro do movimento”, disse a analista da HFM.
Panorama econômico
De acordo com as projeções mais recentes do Banco Mundial, o crescimento da América Latina e do Caribe “aumentará gradualmente” nos próximos dois anos e atingirá 2,3% em 2026 e 2,6% em 2027.
A estimativa do Banco Mundial é que a economia da América Latina e do Caribe cresceu 2,2% em 2025, abaixo dos 2,4% registrados em 2024.
Em 2026, o crescimento será limitado por uma demanda interna que permanece em níveis baixos em alguns países, “o que irá neutralizar em parte o efeito positivo da flexibilização das condições financeiras”.
Além disso, o Banco Mundial indicou que as tensões comerciais e a incerteza que elas acarretam “continuam elevadas”.
A economia com melhor desempenho este ano seria a da Guiana, que cresceria 19,6%, seguida pela República Dominicana (4,5%), Panamá (4,1%) e Argentina (4%).