Bloomberg Línea — O otimismo em relação às ações norte-americanas e a preferência pelos prazos de curto e médio prazo da curva de rendimentos dos títulos do Tesouro são duas das ideias que permeiam a visão atual da BlackRock sobre o mercado de ações, conforme descrito em entrevista à Bloomberg Línea por Francisco Rosemberg, diretor-gerente e responsável pelo negócio de wealth & family office para a América Latina dessa gigante mundial da gestão de ativos.
Rosemberg explicou que essa visão positiva faz parte da análise que a BlackRock faz sobre o impacto potencial da inteligência artificial (IA) na economia.
A empresa acredita que o enorme investimento necessário para desenvolver centros de dados, infraestrutura e capacidade de geração de energia elétrica pode se traduzir, com o tempo, em maiores níveis de produtividade, o que faria a economia crescer e reduziria o peso da dívida sobre o total.
Segundo ele explicou, o cenário atual combina uma fase de “escassez” de recursos e infraestrutura com a possibilidade de uma futura “abundância” decorrente dos ganhos de produtividade gerados pela tecnologia.
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Na América Latina, a BlackRock mantém uma visão positiva em relação ao Brasil, principalmente do ponto de vista macroeconômico e das avaliações, mais do que pela expectativa de reformas estruturais.
“Se considerarmos exclusivamente a valorização dos ativos, o Brasil, o México e o Chile são os mercados de ações que atualmente se mostram mais atraentes”, afirmou ele.
No setor de renda fixa, ele citou o Brasil (novamente) e a Colômbia entre os mercados que apresentam as melhores oportunidades.
Na Argentina, país de origem de Rosemberg, a BlackRock observa um histórico de reformas que, em termos gerais, “avançam na direção certa”.
O executivo destacou a redução do déficit fiscal e o processo de reconstituição das reservas internacionais, além dos recentes anúncios relacionados a uma maior independência do banco central.
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No entanto, ele destacou a necessidade de consistência. “Dois anos e meio — e digo isso para qualquer país — é muito tempo para mim, como indivíduo, mas é muito pouco tempo para um investidor que vai investir em um data center ou em uma empresa de energia elétrica com vida útil de 20 anos”, explicou.
Rosemberg destacou que o país já faz parte de negociações de investimento que antes não estavam em pauta.
Incerteza em relação ao crescimento
Uma das principais questões para Rosemberg é se a inteligência artificial permitirá que a economia norte-americana supere sua tendência histórica de crescimento.
Conforme ele explicou, os Estados Unidos vêm crescendo há aproximadamente um século a uma taxa próxima a 1,9%, e nem mesmo o boom da internet conseguiu romper esse ritmo de forma sustentável.
“Ainda não se sabe”, afirmou ele sobre a possibilidade de a IA permitir superar essa tendência. Para o executivo, a resposta terá consequências sobre o crescimento, as taxas de juros e a relação entre a dívida e o Produto Interno Bruto.
Nesse cenário, Rosemberg falou de uma “polifurcação”, com resultados potenciais muito diferentes para os mercados. “Pode acontecer isso ou exatamente o contrário; é como a noite e o dia.”
Como exemplo, ele citou um cenário com taxas próximas a 5% em comparação com outro, associado a um forte crescimento, no qual as taxas poderiam ficar em torno de 3%. Uma diferença de 200 pontos-base que, segundo ele, muda completamente o cenário para os investidores.
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A isso se soma o aumento do endividamento corporativo. As empresas de hiperescala utilizaram uma parte significativa de seu fluxo de caixa para financiar investimentos em data centers e estão recorrendo aos mercados de capitais para obter financiamento. Esse processo aumenta a dívida do setor corporativo e eleva a remuneração exigida pelos investidores, explicou ele.
Títulos de prazos curto e médio
No mercado de renda fixa, a BlackRock mantém uma sobreponderação nos trechos de curto e médio prazo da curva, pois considera que, atualmente, é nessas faixas que se encontra o melhor retorno ajustado pelo risco.
A mudança no comportamento dos títulos também leva a BlackRock a repensar a forma de montar as carteiras. Rosemberg destacou que, antes da pandemia, a correlação entre ações e títulos era negativa, enquanto nos últimos cinco anos chegou a ser positiva em cerca de 7% para ações e títulos globais.
Nesse contexto, ele afirmou que os títulos de renda fixa de longo prazo podem continuar a gerar rendimentos, mas não necessariamente funcionam como a mesma proteção diante de um choque no mercado.
A empresa propõe, portanto, refletir sobre o conceito de “portfólio total”. Em vez de partir de uma distribuição pré-definida entre renda fixa e renda variável, a ideia é identificar primeiro os temas aos quais se deseja estar exposto e, em seguida, definir como implementá-los por meio de ativos públicos, privados, gestão ativa ou índices.
Essa abordagem também altera a forma de definir um investidor conservador. Rosemberg observou que, há 15 anos, era comum associar esse perfil à compra de títulos do Tesouro de longo prazo, mas que hoje essa equivalência já não é tão evidente.
“O que era conservador há 15 anos, hoje talvez não seja mais”, afirmou ele. Segundo explicou, a diferença entre um investidor agressivo e um conservador pode estar cada vez mais ligada à capacidade de suportar a iliquidez e manter posições em ativos privados por períodos prolongados.
Sem bolha de IA
Questionado sobre a possibilidade de existir uma bolha no setor de inteligência artificial, Rosemberg foi bem claro: a BlackRock não considera que haja atualmente uma bolha de IA, e esse também não é seu cenário base, embora seja um risco que a empresa monitora.
Para avaliar as cotações, explicou ele, não basta observar o price-earnings (índice preço/lucro) atual. Também é preciso levar em conta os lucros esperados no futuro, que podem alterar substancialmente a interpretação do preço de uma ação.
A questão, nesse caso, é se essas expectativas de lucros são viáveis. Rosemberg destacou que as empresas americanas estão registrando um crescimento dos lucros comparável aos níveis observados quando uma economia sai de uma recessão, embora, neste caso, não tenha havido anteriormente uma queda de magnitude semelhante.
Por sua vez, o mercado começou a incorporar novas variáveis. Uma empresa pode superar as expectativas de lucros e margens e, mesmo assim, sofrer uma queda na bolsa de valores se anunciar maiores investimentos em data centers e aumentar a preocupação com seu endividamento.
“O endividamento das empresas de hiperescala não era uma variável há 12 meses e é algo que agora está sendo analisado”, disse ele.
Exposição à inteligência artificial
Para Rosemberg, investir na revolução da inteligência artificial não significa necessariamente apostar em uma determinada empresa de tecnologia. O foco da BlackRock também se volta para os setores que considera essenciais para o desenvolvimento dessa tecnologia.
Entre eles, ele mencionou a construção de data centers e a eletrificação necessária para abastecê-los. Ele também destacou a importância das mudanças que a fragmentação geopolítica está causando nas cadeias de suprimentos.
Segundo ele explicou, as empresas estão duplicando algumas cadeias por motivos de segurança, em contraste com o modelo “just in time” e a busca por eficiência que predominavam antes da pandemia.
Nesse contexto, Rosemberg destacou que a empresa também busca uma exposição mais detalhada a diversos temas e setores, em vez de se limitar às categorias tradicionais de ativos.
Crédito privado
O mercado de crédito privado é outro dos segmentos que a BlackRock está monitorando. Rosemberg reconheceu que houve um aumento do estresse durante o primeiro trimestre, mas afirmou que a empresa não considera isso um fenômeno sistêmico.
Parte da volatilidade esteve relacionada a veículos de mercados privados que permitem resgates periódicos, conhecidos como Non-Traded Business Development Companies. Esses instrumentos podem permitir resgates de até 5% do patrimônio total do fundo por trimestre.
Rosemberg citou casos em que as solicitações chegaram a 8%, embora os veículos tenham atingido os 5% previstos em seus prospectos. Segundo ele, parte da reação do mercado esteve relacionada à falta de compreensão sobre o funcionamento dessas estruturas.
O executivo acrescentou que as taxas de inadimplência não aumentaram significativamente e que a turbulência se acalmou posteriormente. A BlackRock continua acompanhando o segmento e estima que os fluxos possam levar de seis a 18 meses para se normalizarem, dependendo do tipo de ativo.