As 10 ações preferidas do Citi caso Lula ou Flávio Bolsonaro vençam as eleições

Empresas de construção civil, bancos, energia, mineração e consumo figuram entre as apostas do Citi para as eleições no Brasil, embora a composição da carteira varie de acordo com quem assumir o poder

Bloomberg Línea — As eleições presidenciais no Brasil abrem dois caminhos distintos para o mercado de ações. O Citi (C) identifica as ações com maior exposição relativa a uma continuidade do governo de Luiz Inácio Lula da Silva e aquelas que poderiam responder melhor às políticas propostas por Flávio Bolsonaro.

As diferenças dizem respeito ao ajuste fiscal, às taxas de juros e ao papel do Estado. Lula manteria o atual quadro fiscal, com parâmetros possivelmente mais rigorosos, programas sociais e apoios setoriais, enquanto Bolsonaro buscaria um ajuste pelo lado das despesas, reformas e desregulamentação.

O resultado, no entanto, não é suficiente para avaliar o desempenho das empresas. A capacidade de implementar a agenda fiscal e obter apoio no Congresso será determinante, enquanto os fundamentos específicos de cada empresa continuarão a ter peso, independentemente de qual dos dois governos estiver no poder.

Os analistas do Citi, Andre Mazini, Piero Trotta e Kiepher Kennedy, alertam que “uma estratégia credível de consolidação fiscal será fundamental para estabilizar a trajetória da dívida, ancorar as expectativas de inflação e criar espaço para uma queda sustentada das taxas de juros”.

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As ações que o Citi seleciona sob os governos de Lula e Bolsonaro

As preferências do Citi são relativas dentro de sua cobertura e não representam, segundo a própria análise, uma divisão automática entre vencedores e perdedores. Para Lula, a seleção inclui construtoras voltadas para a renda baixa, bancos, saúde, energia e empresas industriais, entre outros setores.

As 10 ações incluídas pelo Citi para um cenário com Lula, apresentadas sem ordem específica, são:

A seleção não se baseia em um único fator. O Citi definiu suas preferências com base na exposição de cada empresa às políticas previstas, incluindo taxas de juros, política fiscal, programas governamentais, regulamentação, impostos e o papel do Estado na economia.

No setor imobiliário, a Cury permite observar essa lógica com mais detalhes. O Citi prefere a empresa sob outra administração de Lula devido à sua exposição ao programa “Minha Casa, Minha Vida”, diante da expectativa de que continuem as melhorias no programa e as condições destinadas a facilitar o acesso à moradia.

O outro lado da moeda está no mercado imobiliário para famílias de renda média e alta. O Citi alerta para uma possível tributação das LCI, instrumentos isentos de impostos que os bancos utilizam como fonte de financiamento para conceder créditos imobiliários no Brasil.

A tributação desses instrumentos poderia encarecer o financiamento dos bancos e se refletir nas taxas de financiamento imobiliário. De acordo com os cálculos do Citi, um imposto de 5% sobre os LCI reduziria a capacidade de compra de imóveis entre 1,8% e 3,8%, dependendo de sua participação no financiamento de novas hipotecas.

Para Flávio Bolsonaro, o banco apresenta uma combinação diferente, com construtoras voltadas para a renda média e alta, shopping centers, saneamento, consumo, petróleo e mineração. As 10 empresas listadas pelo Citi, mais uma vez sem estabelecer uma hierarquia entre elas, são:

Na seleção relacionada a Flávio Bolsonaro, as posições variam de acordo com o conjunto de políticas previsto pelo Citi. A análise leva em conta um ajuste baseado nos gastos, reforma administrativa, desregulamentação e menor intervenção do governo, embora seu efeito dependa da execução orçamentária e da trajetória das taxas.

No setor imobiliário, a Cyrela permite observar uma dessas diferenças. É a construtora incluída no Top 10 do Citi, enquanto a Eztec (EZTC3) aparece como uma preferência setorial adicional. Ambas têm maior exposição a compradores de renda média e alta.

Essa hipótese depende de uma trajetória mais favorável para a Selic. Uma redução nas taxas poderia baratear as hipotecas e melhorar o poder de compra dessas famílias, com efeitos sobre a demanda, as vendas de unidades concluídas e a visibilidade dos resultados.

Tarifas, infraestrutura e consumo são os fatores que fazem a diferença

A relação entre política fiscal e taxas também se estende ao comércio varejista. O Citi descreve a agenda de Bolsonaro em torno da estabilização da dívida, dos superávits primários e da disciplina de gastos, enquanto Lula combina o controle de gastos com programas sociais e investimento público.

Se as taxas permanecerem altas por mais tempo, os analistas apontam a Smart Fit (SMFT3), a Vivara (VIVA3) e a Lojas Renner (LREN3) como as empresas relativamente mais resistentes. A Assaí (ASAI3), a Azzas (AZZA3), a Natura (NATU3) e a Magazine Luiza (MGLU3) apresentam maior exposição devido a uma combinação de alavancagem, consumo discricionário e menor capacidade financeira.

No que diz respeito à infraestrutura, as diferenças são menos acentuadas. “A infraestrutura de transporte parece ser um pilar importante em ambos os planos de governo, mas não parecem diferir muito em termos de prioridades e expectativas gerais”, destaca o analista do Citi, Filipe Nielsen.

Lula propõe dar continuidade e ampliar o Novo PAC, enquanto Flávio Bolsonaro propõe R$ 900 bilhões (US$ 175 bilhões) em investimentos durante seus quatro anos de mandato. Nenhum dos programas detalha quanto seria destinado a cada modalidade de transporte.

As empresas de energia apresentam nuances mais sutis. Ambos os programas apoiam a expansão da rede de transmissão, enquanto Lula oferece, segundo o Citi, um pouco mais de clareza sobre os leilões. Flávio Bolsonaro dá maior ênfase ao investimento privado, às concessões e à estabilidade regulatória de longo prazo.

No setor de saneamento, o Citi considera que o programa de Bolsonaro é mais explícito em relação às concessões, às parcerias público-privadas e à aplicação do marco legal de 2020. Lula prioriza o investimento federal em água e esgoto por meio do Novo PAC, especialmente em regiões com menor cobertura.

O setor de alimentos e bebidas apresenta menor sensibilidade eleitoral. A Ambev (ABEV) tem a exposição direta às políticas mais evidente, mas o Citi não identifica uma operação eleitoral definida para a empresa.

O fator fiscal que se seguirá após as eleições

A avaliação também não é uniforme para os setores de petróleo, mineração e siderurgia. O panorama setorial do Citi considera o programa de Bolsonaro especialmente favorável para o petróleo e o gás, o agronegócio e a mineração, enquanto, no caso de Lula, identifica uma avaliação positiva para a produção de petróleo, embora mais mista para a Petrobras.

No setor de shopping centers, o Multiplan (MULT3) figura entre as opções associadas a ambos os contextos. O Citi considera que esses ativos têm demonstrado relativa imunidade à volatilidade política, devido à previsibilidade de seus fluxos de caixa e à estabilidade na distribuição de dividendos.

A análise aponta, assim, uma variável comum após as eleições: a credibilidade fiscal. A trajetória da Selic influenciaria desde as hipotecas até o consumo e o investimento privado, enquanto a regulamentação, a tributação e a participação estatal teriam impactos diferentes entre os setores.

O Citi ressalta que suas escolhas se baseiam em exposições relativas e que “não devem necessariamente ser interpretadas como uma dicotomia entre vencedores e perdedores, uma vez que os fundamentos específicos das empresas e a credibilidade da agenda fiscal continuarão sendo fatores-chave para o desempenho em ambos os cenários”.