Bloomberg Línea — A Vulcabras (VULC3) registrou uma receita líquida de R$ 776,4 milhões no primeiro trimestre, o que representa um avanço de 10,7% sobre o mesmo período do ano passado.
O número ficou levemente abaixo do consenso dos analistas ouvidos pela Bloomberg, que previam R$ 779 milhões.
Com o resultado, a gestora de marcas esportivas do país, dona da Olympikus e detentora da Mizuno e da Under Armour, teve seu 23º trimestre consecutivo de expansão, mantendo a trajetória de crescimento que vem sendo desenhada nos últimos seis anos.
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A fabricante de tênis teve lucro bruto de R$ 313,5 milhões, alta de 11,2% na comparação anual, com margem bruta de 40,4%, levemente superior ao registrado um ano antes, informou a companhia nesta terça-feira (5).
O Ebitda recorrente foi de R$ 156,9 milhões, aumento de 11,8%, elevando a margem em 0,2% para 20,2%.
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A última linha do balanço apresentou uma queda em relação ao primeiro trimestre de 2025. A redução de 18,9% no lucro líquido, fechando a R$ 86,1 milhões, apesar do crescimento operacional (EBITDA), é explicada por uma decisão estratégica de capital.
Para antecipar R$ 1,5 bilhão em dividendos aos acionistas no ano passado e se proteger de mudanças na tributação, a companhia optou por elevar seu endividamento temporariamente.
O lucro líquido foi, portanto, pressionado pelo aumento das despesas financeiras (pagamento de juros sobre essa dívida), que não existiam no primeiro trimestre de 2025, quando a empresa operava com caixa líquido.
Em entrevista à Bloomberg Línea, o CFO Wagner Dantas descreveu a situação como “provisória e planejada” e disse que a geração de caixa atual já está sendo usada para reduzir essa alavancagem, com a dívida líquida caindo de 0,9x para 0,7x EBITDA neste primeiro trimestre.
Os números gerais, embora positivos, demandaram “muito mais trabalho” para serem obtidos, de acordo com o CEO Pedro Bartelle, que classificou o período como mais complexo do que os quatro trimestres de 2025.
Segundo a companhia, a Olympikus manteve um ritmo ritmo forte e a Under Armour registrou o seu melhor resultado desde que chegou às mãos da Vulcabras, ao incrementar o porftólio e fortalecer a presença em áreas como a corrida.
“Fizemos um orçamento prevendo inflação e custo de folha, mas a guerra trouxe um cenário bem mais desafiador ainda porque ela começou com um ar de pandemia, com falta de matéria-prima, aumento de custos, preocupação das pessoas com o consumo”, disse o CEO, à Bloomberg Línea.
Hoje, apenas 15% da matéria-prima para os produtos da Vulcabras são importados. Boa parte dos itens nacionais, porém, são atrelados ao dólar, como os polímeros e outros materiais petroquímicos, criando um impacto direto no negócio.
“Esse foi o cenário novo que foi se intensificando no primeiro trimestre, e os efeitos dele começam no primeiro trimestre, mas vão agora se intensificar um pouquinho para frente, que é o aumento do custo das matérias-primas”, afirmou Bartelle.
Para neutralizar o aumento dos custos e preservar a rentabilidade, a Vulcabras irá aplicar reajustes de preços entre 10% e 15% em mais da metade de sua coleção.
De acordo com Bartelle, esses novos valores já estão sendo praticados nas pré-vendas e devem chegar ao varejo físico de forma mais nítida durante o segundo semestre de 2026.
No mercado interno, a companhia identificou novos desafios na disputa pela renda do consumidor. Além da inflação de itens básicos, que comprime o poder de compra, Bartelle citou o impacto das plataformas de apostas online (bets), que têm retirado recursos que antes eram destinados ao consumo de bens duráveis e vestuário.
A empresa tem apostado em carros-chefes como a linha de performance Corre, que acaba de adicionar um novo membro à família, o Corre 5, da Olympikus.
Além disso, uma das estratégias para manter o ritmo de crescimento está em apresentar uma nova linha pensada para entregar um melhor custo-benefício.
Planejada para este semestre, os produtos da família “Corrida” chegarão com preços abaixo de R$ 500,00, ocupando um lugar na prateleira de preços outrora pertenceu à linha “Corre”.
O objetivo é, ao mesmo tempo, manter o volume de vendas em um cenário de orçamentos familiares mais restritos e enfrentar também a concorrência de marcas internacionais, que têm adotado agressividade comercial no mercado brasileiro.
“Vemos essas marcas internacionais subsidiando produtos, o que, realmente sempre houve subsídio de importados, mas vemos agora estratégias, inclusive agora, de produtos baratos, mais econômicos, que eles nunca faziam”, afirma o CEO.
Crescimento conservador
Apesar do ciclo ininterrupto de crescimento, a gestão da Vulcabras optou por uma postura mais conservadora para o decorrer de 2026. A estratégia prioriza a saúde financeira sobre a expansão agressiva a qualquer custo.
Na prática, a companhia decidiu reduzir o ritmo de investimentos em projetos de longo prazo — aqueles que levam dois anos ou mais para gerar retorno — para focar naquilo que já está consolidado e traz rentabilidade imediata.
Essa seletividade reflete a incerteza trazida pela volatilidade global e pelas mudanças nas regras do jogo doméstico, como a reoneração da folha e novas normas tributárias.
“O nosso foco nesse momento é muito mais a saúde financeira da empresa do que crescimento a qualquer custo”, afirmou o CEO. “Já temos uma boa participação de mercado e vamos ocupar novos espaços, sim. Mas a agressividade de crescimento se torna muito mais uma agressividade de manter os resultados neste momento.”
Segundo Bartelle, essa é uma manobra tática, que pode ser repensada assim que o cenário macroeconômico apresentar maior estabilidade.
Mesmo com esse viés cauteloso, a Vulcabras descartou reduções na capacidade produtiva. A intenção é manter o quadro de pessoal e o ritmo das fábricas nas unidades do Ceará e da Bahia, garantindo que o atendimento à demanda atual não seja prejudicado pela postura mais precavida em relação ao futuro de longo prazo.
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