Bloomberg Línea — Giovane Gávio, um dos maiores nomes da história do vôlei brasileiro, conquistou duas medalhas de ouro olímpicas, em Barcelona (1992) e Atenas (2004). Fora das quadras, porém, também enfrentou algumas derrotas: perdeu o equivalente ao valor de um apartamento em um golpe envolvendo o agronegócio e viu outra parte do patrimônio desaparecer com a quebra de um banco.
As experiências o transformaram em um investidor mais cauteloso e, desde o ano passado, o ex-atleta se tornou sócio e embaixador da Manchester Investimentos, assessoria financeira de Joinville, de Santa Catarina, credenciada à XP, uma das maiores plataformas de investimentos do país.
“Gostei desse formato de trocar imagem por equity”, disse Giovane à Bloomberg Línea.
Nesta sexta-feira (24), o ex-jogador da seleção de vôlei sobe ao palco da Expert XP, o evento de investimentos da corretora que acontece até sábado (25) no São Paulo Expo, ao lado do levantador Bruno Rezende, o Bruninho, ainda em atividade.
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A participação dos atletas no evento ocorre no momento em que instituições financeiras, incluindo XP, Itaú, BTG Pactual, Nubank, Santander e outras, alinham suas marcas ao esporte com o objetivo de elevar sua reputação enquanto disputam clientes de alta renda.
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A Manchester Investimentos informa ter mais de 23 mil clientes, cerca de 360 colaboradores e custódia acima de R$ 27 bilhões, e se apresenta como um dos maiores escritórios da rede XP. A empresa nasceu em Joinville em 1967, hoje a maior economia de Santa Catarina e um polo industrial do Sul, e soma 59 anos de mercado.
Da quadra para o mercado, Giovane leva o que aprendeu sobre alta performance e transformou isso no próprio trabalho. Não gere carteira nem orienta cliente, ao contrário de sócios como Daiane Alves Gubert, assessora de investimentos da casa.
Ele atua na imagem institucional e no desenvolvimento dos assessores, com reuniões e mentorias. Perguntado se hoje se define como gestor, respondeu que se vê como palestrante e treinador de pessoas.
“Faço essas analogias entre o esporte de alta performance e a alta performance do mercado financeiro”, afirmou.
O que ele não trouxe das quadras foi o apetite por risco. Acostumado a decidir jogadas em frações de segundo, Giovane é um investidor conservador, concentrado em renda fixa. Diz que a carteira no vermelho lhe dá mais aflição do que um set perdido, e que prefere o ganho construído aos poucos ao lance de tudo ou nada.
A cautela veio de erros que ele conta sem rodeios. Perdeu o equivalente a um apartamento na Fazendas Reunidas Boi Gordo, golpe do agronegócio dos anos 1990, e viu quebrar o Banco BVA, onde tinha dinheiro aplicado, recuperando parte pelo FGC (Fundo Garantidor de Créditos). As duas perdas, diz, o ensinaram a desconfiar de retorno alto demais e a checar antes de aplicar.
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Ele fala com naturalidade de um problema comum a quem sai do esporte. O atleta ganha muito dinheiro em pouco tempo, se acostuma com cifras altas e, quando a carreira acaba, muda de realidade se não se planejou. Aponta a consciência crescente entre os jogadores, com o exemplo de Ronaldo, que montou uma empresa para cuidar de atletas, e diz que a preparação financeira deveria começar ainda durante a carreira.
“Não adianta você ser o melhor, você precisa fazer parte de times bons, de times melhores”, disse. É a mesma ideia que usa para explicar por que preferiu se associar a um escritório a administrar o próprio dinheiro sozinho.
A Manchester cresceu no embalo da XP. Saiu de Santa Catarina para São Paulo e Rio de Janeiro em 2021, criou a Prinz Capital, sua gestora exclusiva de family office, passou a oferecer fundos próprios e fez uma sequência de aquisições nos últimos anos.
Em 2024, a XP comprou uma fatia da Manchester, aproximando ainda mais o escritório da corretora que o credencia. Giovane entrou no mesmo período em que essa engrenagem acelerou.
Lições da maturidade
Aos 55 anos, ele diz que a maturidade mudou a forma como pensa dinheiro e escolhas. Observa na geração dos filhos menos apego a marcas e carros e mais busca por experiência, um deslocamento que enxerga até no próprio consumo.
Giovane tem quatro filhos, todos praticantes de esportes, mas só a mais velha o transformou em carreira. Giulia é jogadora profissional de vôlei de praia e mira as Olimpíadas de Los Angeles, em 2028. Gianmarco é economista, trabalha num banco e pedala como ciclista amador. Filipe estuda administração e treina musculação. Thiago é boxeador.
“Está todo mundo no esporte. Eu falo que tem quase um esporte para cada dia da semana”, disse Giovane, que joga golfe com a mulher.
Morador da cidade do Rio de Janeiro, o mineiro de Juiz de Fora passa boa parte do ano no ar, entre uma cidade e outra da agenda de palestras. Chegou a cogitar adquirir uma aeronave para ganhar conforto e agilidade e alcançar mais destinos.
“Neste ano vou fazer 50 palestras, quase 100 voos. Tenho voado bastante”, contou.
Ainda assim, ele guarda um desejo por realizar: trocar a Mercedes por um Porsche antes dos 60. Mesmo aí o investidor fala mais alto, e ele pondera que um carro de um R$ 1,5 milhão renderia bem se o dinheiro ficasse aplicado.
Longe das quadras, Giovane acompanha os jogos da seleção com um olho entre o torcedor e o crítico, e brinca que sofre mais de fora do que sofria dentro.
O que a idade lhe deu, resume, foi paciência com o tempo. Depois de uma carreira em que ganhou títulos, mas nem sempre dinheiro na mesma medida, ele lamenta não ter tido quem cuidasse das suas finanças quando começou a ganhar. Do outro lado do balcão, aplica agora ao dinheiro a mesma lógica que usava na quadra.
“A gente constrói a vitória aos poucos, ponto a ponto. Não dá para ganhar de uma vez só”, disse.
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