A evolução da corrida no Brasil: mais feminina, jovem e de classe C, aponta estudo

Levantamento da Box 1824 a pedido da Olympikus confirma o que parques e ruas das cidades brasileiras já sinalizavam: cada vez mais mulheres, pessoas de 18 a 24 anos e da classe média praticam a corrida. Já são 15 milhões de brasileiros

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Bloomberg Línea — Corredores mais atentos poderiam até dizer: “eu já sabia”.

Mas o que tinha ares de intuição acaba de ser corroborada por dados: a corrida de rua está mais democrática no Brasil. Está mais feminina, mais jovem e se expande também entre a população da classe C, a típica classe média.

Esse são alguns dos destaques da segunda edição da pesquisa “Por Dentro do Corre”, realizada pela consultoria Box 1824 a pedido da Olympikus, que também revelou que o país alcançou 15 milhões de praticantes em 2025.

Trata-se de um salto de 2 milhões de pessoas em apenas um ano, equivalente a toda a população de Manaus.

Um dado mais expressivo está, como citado, na composição demográfica dos novos corredores. Mulheres, jovens e a classe C são os grupos que mais cresceram e que estão remodelando a cultura da corrida no país.

As mulheres saíram de 42% dos corredores em 2024 para 50% em 2025, alcançando pela primeira vez a paridade com os homens.

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Os jovens entre 18 e 24 anos praticamente dobraram sua participação, passando de 12% para 20% - e contribuíram para reduzir a idade média de 37 para 34 anos. E a classe C aumentou sua presença de 36% para 43% do total.

“A transformação da corrida foi bastante demográfica. A nova cara da corrida no Brasil é a cara do Brasil”, afirmou Luísa Bettio, diretora executiva de estratégia da Box 1824, durante apresentação dos resultados no Cubo Itaú, em São Paulo.

Para Márcio Callage, CMO (Chief Marketing Officer) da Vulcabras, empresa que detém a marca Olympikus, a chegada de uma geração mais nova deve implicar em uma grande transformação nos próximos anos.

“Esse crescimento da faixa de 18 a 24 anos, tão expressivo, vai trazer consequências para a próxima onda. Porque há um outro perfil agora jovem, conectado, que está ainda mais presente nas redes sociais, ainda mais no TikTok, trazendo as suas experiências para mais e mais pessoas”, disse.

Os novos indicadores já sinalizam uma mudança de comportamento entre os corredores em relação à primeira edição do estudo: a pressão por performance, ainda que não necessariamente de tempo.

Dois em cada três corredores (cerca de 64%) disseram concordar com a frase “corrida é uma obrigação para me sentir mais saudável”.

“O que acontece é que a vida cada vez mais pede que a gente performe sempre melhor em tudo. No trabalho, com os amigos, na família, em casa”, afirmou a executiva.

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“A cultura da performance ‘bate’ ainda mais forte quando falamos justamente dos grupos de novos entrantes na corrida, que são as mulheres, a classe C e os jovens. E esses são os jovens das redes sociais, que se colocam uma pressão enorme de que tudo tem que ser perfeito.”

A segunda edição da pesquisa “Por Dentro do Corre” foi realizada em novembro de 2025, um ano após a primeira onda.

Foram 1.179 respondentes, homens e mulheres, de 20 a 60 anos, das classes A, B e C, de todas as regiões do país. O critério de inclusão foi correr pelo menos uma vez por semana

Frequência menor

Paradoxalmente, ao mesmo tempo em que o número de corredores cresce, a prática se tornou mais esporádica em termos de recorrência.

Em 2024, 15% dos corredores contaram que praticam o esporte “só” uma vez por semana. Em 2025, esse número saltou para 71%.

A mudança é consequência de uma rotatividade elevada no esporte: 48% dos 15 milhões de corredores começaram há menos de um ano - a média é de seis meses.

Ou seja, mais de 6,5 milhões de pessoas deixaram a prática esportiva no último ano e foram substituídos por um novo contingente.

“As pessoas estão com menos tempo e estão praticando menos esportes complementares, mas, quando correm, vão mais longe”, disse Bettio.

A distância média semanal aumentou de 9,2 km para 10,6 km — um crescimento de 15%. Entre os mais experientes (que correm há mais de um ano), a média chega a 12,9 km.

Esse fenômeno gerou uma dinâmica curiosa: apesar das distâncias maiores, os corredores estão menos satisfeitos.

O percentual de insatisfeitos com a própria distância mais do que dobrou, passando de 16% para 33%. Os “novatos” — aqueles que começaram a correr há menos de um ano — são os que mais demonstram essa insatisfação, mesmo correndo menos que os veteranos.

Mulheres: frequência maior e um momento só seu

As mulheres não apenas alcançaram a paridade numérica como demonstram maior engajamento.

Embora 32% delas tenham começado a correr nos últimos seis meses (ante 38% dos homens no último ano), a frequência de treino é superior: nos treinos de duas a quatro vezes semanais, elas superam o grupo masculino.

O segundo maior benefício que a corrida entrega às mulheres, superando os homens, é “ter um momento só delas”. O primeiro benefício para ambos os gêneros é desenvolver hábitos saudáveis.

A segurança, porém, representa a maior barreira para as mulheres: 32% apontaram o medo de roubo e assédio como principal dificuldade para a prática — entre os homens, a falta de tempo é a razão mais apontada.

Esse dado ajuda a explicar por que mulheres frequentam mais academias do que homens, em busca de ambientes seguros para treinar.

Da saúde ao emagrecimento rápido

A busca por saúde física e mental continua sendo a principal motivação para começar a correr.

Mas entre os novatos, o emagrecimento rápido aparece como quarto motivo (21%), antes mesmo da disciplina. Entre as mulheres, a melhora na saúde mental sobe para 37%, conectada ao desejo de ter um momento consigo mesma.

Curiosamente, a corrida entrega benefícios que os praticantes não esperavam. Com “bônus”, pouco mais da metade dos corredores (52%) afirma ter desenvolvido hábitos mais saudáveis como melhora do sono, alimentação e redução do consumo de álcool. Em média, as pessoas sentem 3,4 mudanças positivas na rotina após começarem a correr.

Grupos e assessorias em expansão

A participação em grupos e assessorias de corrida cresceu 33% em um ano. O percentual de quem não participa de nenhum grupo caiu de 47% para 35%. Os “ocasionais” — que correm uma vez por semana — dobraram sua presença nesses espaços, passando de 16% para 32%.

“Mesmo com essa baixa frequência, os espaços de convívio da corrida começam a fidelizar cada vez mais quem corre menos por semana”, afirma Luísa.

Os corredores brasileiros utilizam em média 3,8 acessórios, número que sobe para 4,3 entre as mulheres. Fone de ouvido e celular são os mais usados, seguidos por short com bolso, relógio que marca o pace (ritmo) e óculos de sol.

Um fenômeno cultural

Segundo Callage, os dados confirmam que a corrida transcendeu o esporte e se tornou parte da cultura brasileira. “Já não é mais uma bolha. A corrida hoje tomou conta do Brasil”, afirmou.

A Olympikus, que planeja organizar 50 corridas em 2025 como parte das comemorações de seus 50 anos, colhe os frutos dessa expansão.

Pelo terceiro ano consecutivo, a marca aparece como a mais usada pelos brasileiros no Strava, resultado visto como impensável há alguns anos.

Nos nove primeiros meses de 2025, a Vulcabras, que também detém os direitos da Mizuno e da Under Armour no Brasil, registrou uma receita líquida de R$ 2,5 bilhões, o que representou uma alta de 19,1% frente ao mesmo período do ano anterior.

O terceiro trimestre de 2025 marcou 21º consecutivo no qual a empresa superou os números anteriores.

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Com 15% de crescimento anual, a corrida se consolida como o quarto esporte mais praticado no Brasil, atrás apenas de caminhada (39%), musculação e futebol.

Para conectar os números e os dados da pesquisa às estratégias de negócios, a Olympikus vai lançar ainda no primeiro semestre uma nova linha de modelos de calçados de corrida, com preço abaixo de R$ 500,00.

Atualmente, a linha Corre, que ajudou a popularizar a marca, tem preços a partir de R$ 599,00, no modelo Corre 4.

“Quando nós olhamos essa classe C entrando e correndo, entendemos que não podemos, com toda a pressão de inflação, nos desconectar do propósito real da marca, que é dar acesso”, disse Callage.

“Sabemos que a marca evoluiu, que o nosso consumidor de Corre quer produtos de mais tecnologia e qualidade - e caminhamos para isso, mas não vamos abandonar a nossa visão.”

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