Vácuo de poder no Irã pode gerar crise pior que no Iraque, diz ex-embaixador do Brasil

‘O que fica claro é que estamos na era da lei do mais forte. Os países, mesmo com forças insuficientes frente a Israel e EUA, sentem-se tentados a recorrer às armas para defender sua soberania’, disse à Bloomberg Línea o ex-embaixador do Brasil no Irã, Eduardo Gradilone

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Bloomberg Línea Brasil — Os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã na madrugada deste sábado (28) tendem a trazer um cenário conturbado não só para o país persa, mas também para a região do Oriente Médio.

Essa é a análise de Eduardo Ricardo Gradilone Neto, embaixador que liderou o posto diplomático do Brasil no país entre 2023 e o começo de 2025.

“No caso do Irã, Trump postou um vídeo incitando a população a ir para as ruas depor o governo. Mas a população iraniana contrária ao regime não é coesa e tem sérias restrições a apoiar um controle externo, pois não querem reviver o que passaram na época do Xá“, disse, ao comparar com o recente caso da Venezuela.

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Ao longo de quase cinco décadas, o ex-embaixador serviu em postos estratégicos como Washington, Londres, Tóquio, Bogotá e Santa Sé, além de ter sido o embaixador do Brasil na Nova Zelândia (2012-2016), Turquia (2016-2020), Eslováquia e, por fim, Irã. Atualmente, ele preside o IRICE (Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior).

“É muito triste vermos mais um episódio em que o direito internacional está sendo completamente abandonado”, disse.

“Eu fui diplomata por 46 anos e toda a nossa política externa se baseia no direito das leis, no direito internacional, e não no regime do mais forte”.

Veja os principais pontos da entrevista:

O governo Trump vinha fazendo ameaças e parece ter tentado usar a mesma ‘receita’ aplicada na Venezuela. Do ponto de vista histórico, como chegamos a esse cenário? Como essas relações, que já não são boas há muito tempo, se desgastaram a ponto de culminarem na intervenção militar americana?

Os ataques ocorreram no meio de negociações, então já está virando uma praxe: os Estados Unidos mostram força para influir nas tratativas. Desta vez, você tem um Irã mais fraco, não só pelas perdas do ano passado, mas pelas decapitações de lideranças — tanto no próprio Irã quanto nas organizações proxies (aliadas) em outros países. Hoje, proporcionalmente às forças de Israel e dos Estados Unidos, o Irã está praticamente indefeso.

O que choca, e que inclusive deixou o ministro das Relações Exteriores de Omã muito decepcionado, é o fato de que o Irã supostamente tinha concordado com concessões muito importantes.

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Isso deveria ter sido levado em conta para prevenir uma ação bélica nos moldes que vimos. O que estava em jogo, decididamente, não era só o programa nuclear, mas algo muito maior: todo o jogo de forças no Oriente Médio.

O Irã é um ponto de apoio da Rússia e da China, que são, no fim das contas, os grandes alvos principais desse ataque.

Nós temos a questão das manifestações internas no Irã, a questão nuclear, mas o grande pano de fundo geopolítico, pelo que o senhor aponta, não é necessariamente apenas o Irã, mas as relações que o país mantém com a Rússia e a China, certo?

Exatamente. Houve uma conjunção de fatores. Dessa vez, os protestos internos começaram por uma camada do empresariado, do bazar, dos comerciantes, que costumava dar sustentação ao governo. Esse protesto se tornou muito significativo porque juntou os comerciantes, os estudantes, as pessoas que normalmente já são contra o regime e até grupos separatistas — existem cinco grupos separatistas contra o governo e dois contra o regime, um deles operado do exterior pelo filho do antigo xá, Reza Pahlavi.

O momento pareceu propício para os EUA e Israel aproveitarem essa fragilidade do governo e o volume de protestos. Mas fica a dúvida se o efeito disso será positivo para o povo iraniano. Toda a estrutura do governo não é apenas um governo civil normal (presidente e ministros). Você tem o Líder Supremo, a casta dos aiatolás, a Guarda Revolucionária (que age paralelamente e tem mais recursos que as forças armadas formais) e toda a área de segurança.

Para acabar com o regime, teriam que derrubar tudo isso ao mesmo tempo. Se não fizerem isso, podem acabar dando mais poder aos radicais, o que levaria a mais repressão. Grande parte da população vai acabar se unindo por patriotismo ou por medo.

Nós tivemos recentemente na América Latina a extração de Nicolás Maduro. Os Estados Unidos fizeram ataques pontuais e o levaram, sem uma grande reação. O cenário no Irã é totalmente diferente. O Irã tem capacidade de reação, como demonstrou ao lançar mísseis contra áreas militares dos EUA. Existe risco de que o conflito se prolongue, à semelhança do que ocorreu no Afeganistão ou no Iraque?

O que fica claro é que estamos na era da lei do mais forte. Os países, mesmo com forças insuficientes frente a Israel e EUA, sentem-se tentados a recorrer às armas para defender sua soberania. Eu não vejo como os EUA fariam algo parecido com o que fizeram na Venezuela. Primeiro, lá foi uma operação cirúrgica; segundo, a Venezuela tinha uma oposição mais definida. E, no fim das contas, Maduro foi retirado, mas o regime venezuelano continuou funcionando.

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No caso do Irã, Trump postou um vídeo incitando a população a ir para as ruas depor o governo. Mas a população iraniana contrária ao regime não é coesa e tem sérias restrições a apoiar um controle externo, pois não querem reviver o que passaram na época do xá.

O que tende a acontecer, então, seria um vácuo de poder com vários grupos disputando entre si?

É justamente esse vácuo que fez os países do Golfo pedirem para que não haja intervenção armada. Eles temem que possa haver, no caso do Irã, a mesma desagregação que ocorreu no Iraque e na Líbia e que causou problemas enormes. Grande parte dos grupos islâmicos radicais como o Estado Islâmico nasceram a partir daí.

Qual é o impacto dessa potencial guerra no Oriente Médio e para o mundo? E a questão do petróleo?

Esse é o grande problema. Quando você acua um país à margem do direito internacional — que é a única defesa dos países mais fracos —, um governo desesperado pode recorrer a atos extremos, como agir no Estreito de Ormuz. Isso causaria um problema imenso no transporte de petróleo, afetando os preços de maneira prejudicial ao comércio global. Até regularizar a situação, leva tempo e os impactos são fortes.

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A Arábia Saudita já emitiu uma nota repudiando os ataques do Irã, mesmo que tenham atingido bases americanas (como no caso do Catar, que também reclamou). Os países passam a pagar muito mais caro por seguros e fretes. A instabilidade se dissemina. Para todas as partes envolvidas, essa guerra é prejudicial, pois não se sabe onde vai parar.

O senhor ocupou a posição de embaixador recentemente, de 2023 até o começo de 2025. Como era o cenário e o dia a dia do país antes dessa fragilização que vemos agora?

Olha, quando você vai ao Irã, não acredita que está no país que aparece nos noticiários. A vida parece normal. Os restaurantes são ótimos e estão sempre cheios; as lojas e os shoppings têm todos os produtos que você pode imaginar. É verdade que cartões de crédito internacionais não funcionam, eles usam um sistema interno muito controlado.

Mas os iranianos aprenderam a dar um ‘jeitinho’ para tudo. As pessoas têm um alambique em casa para produzir bebidas alcoólicas. Nos restaurantes, há um sistema de aviso para quando a Polícia Moral se aproxima, para que as mulheres coloquem o hijab rapidamente. A impressão é de normalidade, exceto por esses cuidados com vestimenta e bebidas públicas. O governo, inclusive, vinha flexibilizando algumas regras de costumes. Se a plataforma do novo presidente eleito pudesse ser implementada, poderíamos eventualmente ter um regime com a mesma configuração, porém mais democrático e menos contestado pela população.

Considerando o Brasil, quais impactos a crise atual pode provocar para o país?

O Brasil vende bilhões de dólares em produtos agropecuários para o Irã. O volume real é até maior do que o registrado, porque muita coisa entra por vias de terceiros países, mas a origem é brasileira. Nós temos interesses comerciais concretos lá. Tínhamos, inclusive, planos de abrir um curso de português em conjunto com a embaixada de Portugal para ampliar nossas relações comerciais e culturais.

Por enquanto, o Brasil não vinha sendo muito atingido pelas sanções porque produtos agropecuários costumam ter imunidade a esse tipo de embargo. Mas nunca se sabe o que pode acontecer dependendo da configuração do novo governo após esse conflito, que é um conflito que não tem prazo para acabar.

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