Uso de armas caras contra o Irã testa os limites dos estoques militares dos EUA

Americanos têm usado no Irã grandes quantidades de mísseis que custam milhões de dólares e demoram para serem repostos, reduzindo a reserva de armas destinadas a enfrentar adversários mais poderosos

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Bloomberg — Os Estados Unidos dispõem de um grande estoque de bombas guiadas de precisão lançadas por aeronaves, relativamente fáceis de produzir — como sugeriu o presidente Donald Trump em uma publicação nas redes sociais nesta semana —, mas têm empregado armamentos mais caros e em menor quantidade nos ataques contra o Irã, o que reduz reservas destinadas a adversários mais poderosos.

Um exemplo: os ataques iniciais da guerra incluíram mísseis de cruzeiro BGM-109 Tomahawk, armamentos lentos, porém precisos, com alcance superior a 1.600 quilômetros, projetados para atingir alvos em profundidade dentro de territórios fortemente defendidos.

Cada unidade custa vários milhões de dólares, e os Estados Unidos mantêm cerca de 4.000 mísseis desse tipo em estoque, segundo Kelly Grieco, pesquisadora sênior do Stimson Center. Centenas já foram disparados na Operação Epic Fury, afirmou.

A produção anual, porém, é inferior a 100 unidades, o que evidencia um problema central para Washington: o uso de armamentos de alta tecnologia contra um adversário relativamente mais fraco pode comprometer a capacidade de enfrentar uma superpotência como a China.

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Trump fez referência a essa limitação em uma publicação nas redes sociais na terça-feira, ao afirmar que os Estados Unidos possuem um “estoque praticamente ilimitado” do que descreveu como munições de nível médio e médio-alto.

“Nos níveis mais avançados, temos um bom suprimento, mas ainda não estamos onde gostaríamos”, escreveu.

Os Tomahawk costumam abrir ofensivas militares americanas, mas a falta de reposição e expansão dos estoques coloca essa estratégia em risco em eventuais conflitos futuros contra adversários tecnologicamente mais avançados, afirmou Becca Wasser, responsável pela área de defesa da Bloomberg Economics.

O Comando Central dos EUA não divulgou quantas unidades de cada armamento foram utilizadas até agora no conflito, embora tenha publicado imagens e vídeos que confirmam seu emprego.

Estimativas da Bloomberg Economics indicam que os EUA provavelmente usaram ao menos 265 Tomahawks em operações de menor intensidade no Oriente Médio entre 2024 e 2025 e em ataques na Nigéria em 2025.

Trump também tem pressionado grandes empresas de defesa americanas, como Lockheed Martin e RTX, a ampliar a produção, acusando-as de priorizar remuneração a acionistas — como recompras de ações e dividendos — em detrimento de investimentos em pesquisa e desenvolvimento.

As críticas vieram a público em janeiro, quando o presidente ameaçou romper relações com a RTX por considerar que a empresa direcionava seus gastos “aos acionistas, e não às necessidades e demandas das Forças Armadas dos Estados Unidos”.

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Os EUA também parecem ter utilizado mísseis de cruzeiro furtivos JASSM, desenvolvidos para escapar de sistemas de defesa aérea — capacidades que o Irã atualmente não possui —, além de empregar pela primeira vez em combate o míssil balístico tático Precision Strike Missile (PrSM).

Trata-se do único míssil balístico de curto alcance dos EUA, com alcance superior a 480 quilômetros, capacidade de atingir alvos pequenos e custo aproximado de US$ 1,6 milhão por unidade.

Como os principais armamentos ofensivos do Irã são mísseis balísticos e drones de ataque de uso único, os EUA e países aliados consumiram grandes quantidades de sistemas de defesa aérea, incluindo interceptadores Patriot PAC-3, THAAD e SM-3 Block IIA. Entre eles, o SM-3 é o mais caro, com custo estimado em cerca de US$ 14 milhões por unidade.

Os sistemas de defesa aérea, em especial, são considerados um ponto crítico. Algumas estimativas indicam que, no ritmo atual, os estoques de mísseis podem atingir níveis perigosamente baixos em questão de dias ou semanas.

O Irã lançou centenas de projéteis na região — em sua maioria drones Shahed-136 — pressionando as defesas aéreas.

Embora mais de 90% tenham sido interceptados, segundo estimativas, o uso intensivo de mísseis PAC-3 tem gerado preocupação de que os EUA e seus aliados possam precisar deslocar estoques de outras regiões, incluindo o Comando Indo-Pacífico (INDOPACOM).

Os EUA produziram cerca de 600 mísseis PAC-3 em 2025, mas o Pentágono firmou em janeiro um acordo com a Lockheed Martin para mais que triplicar a produção, para aproximadamente 2.000 unidades até 2030.

Em fevereiro, a RTX fechou acordo semelhante para acelerar a fabricação dos mísseis Tomahawk Land Attack, SM-3 e SM-6, outro sistema de defesa aérea.

“O consumo de TLAM parece um exemplo claro de esgotamento de estoques”, afirmou Euan Graham, do Australian Strategic Policy Institute. “O CENTCOM tem consumido recursos destinados ao INDOPACOM há décadas, então isso não é novidade. Mas a escala agora é enorme.”

Ainda assim, a campanha aérea também incluiu armamentos mais baratos e produzidos em maior escala, como drones LUCAS, considerados equivalentes aproximados aos Shahed-136 iranianos. Bombas JDAM — artefatos convencionais equipados com kits de guiagem de precisão — também foram empregadas.

Caso os EUA alcancem supremacia aérea total, sem risco de sistemas antiaéreos, poderão passar a utilizar mais JDAMs e outras bombas guiadas com custo em torno de US$ 25 mil por unidade.

Isso reduz significativamente a pressão sobre os estoques, que contam com mais de 500 mil kits JDAM, embora operações anteriores no Oriente Médio tenham exigido transferências de armamentos de outras regiões, afirmou Wasser.

Na quarta-feira, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que os EUA não terão dificuldades para manter as operações militares e que devem reduzir o uso de armamentos de ataque de longo alcance.

“Seria altamente desejável se pudéssemos migrar para o uso de bombas de queda livre”, disse Tom Karako, do Center for Strategic and International Studies, em referência a armas lançadas por aeronaves.

O campo de batalha já pode estar caminhando nessa direção. Os EUA confirmaram o uso de bombardeiros B-52 — aeronaves que realizaram seu primeiro voo na década de 1950 e foram modernizadas ao longo dos anos — em missões com bombas JDAM contra o Irã.

Como esses aviões não operam normalmente em espaços aéreos de alto risco, isso sugere que a ameaça representada pelas defesas aéreas iranianas pode ter sido eliminada, ou estar próxima disso.

“Os EUA estão migrando para o uso de armas mais baratas e ampliando sua escala”, disse Grieco. “Basicamente, é semelhante ao que ocorreu no Afeganistão em novembro de 2001 ou no Iraque em abril de 2003.”

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