Bloomberg — O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelenskiy, disse na sexta-feira (9) que está em discussão de um possível acordo de livre comércio com os Estados Unidos como parte de um pacote de prosperidade mais amplo destinado a impulsionar a recuperação do país após a guerra.
O acordo incluiria tarifas zero sobre o comércio com os EUA e se aplicaria a algumas partes industrializadas da Ucrânia, proporcionando ao país “cartões muito sérios” em comparação com os estados vizinhos e potencialmente atraindo investimentos e negócios, disse Zelenskiy à Bloomberg News em uma entrevista por telefone.
O líder ucraniano disse que precisaria discutir os detalhes da proposta diretamente com o presidente Donald Trump e acrescentou que tal acordo também serviria como uma garantia adicional de segurança econômica.
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Zelenskiy falou ao receber um relatório de seu principal negociador, Rustem Umerov, que teve uma ligação com os enviados especiais de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, na sexta-feira.
Os representantes dos EUA têm estado em contato com a Rússia recentemente em “algum tipo de formato”, disse Zelenskiy, que acrescentou que não sabe se Witkoff ou Kushner vão voar para a Rússia em breve para reuniões pessoais.
Zelenskiy disse que a Ucrânia enviou seu feedback sobre as propostas territoriais para a equipe dos EUA, que então as transmitirá aos seus homólogos russos para que eles possam dar sua opinião - que poderá então ser entregue a Kiev.
O líder ucraniano disse que espera receber a resposta da Rússia à estrutura de 20 pontos no momento em que estiver finalizando as garantias de segurança e o plano de recuperação com Trump, o que pode acontecer já no final deste mês.
Ele acrescentou que espera se encontrar com Trump nos Estados Unidos ou em Davos, na Suíça, onde ambos os líderes estão programados para participar do Fórum Econômico Mundial.
Zelenskiy disse que quer discutir pessoalmente com Trump os compromissos específicos dos EUA no caso de uma nova agressão russa.
“Não quero que tudo acabe em uma mera promessa de reação”, disse Zelenskiy. “Eu realmente quero algo mais concreto.”
Trump disse no início deste ano que “não está entusiasmado” com o presidente russo Vladimir Putin, mas ainda não se comprometeu publicamente com novas medidas de apoio à Ucrânia.
Embora as conversas de Kiev com seus aliados sobre garantias de segurança tenham progredido bastante nas últimas semanas, as questões territoriais continuam sendo o principal ponto de atrito nas negociações para acabar com a invasão russa, que vai completar quatro anos em fevereiro próximo.
A Ucrânia considera um plano proposto pelos EUA para criar uma zona econômica livre que separe as forças ucranianas e russas após uma possível trégua, disse Zelenskiy.
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A proposta, que não deve ser confundida com a ideia de um amplo acordo de livre comércio entre os EUA e a Ucrânia, é um plano local que aborda a área do campo de batalha.
Se implementada, ela transformaria qualquer área de amortecimento que surgisse à medida que as tropas recuassem em uma zona em que as empresas pudessem operar e as pessoas pudessem viver e trabalhar sob um regime jurídico e tributário especial.
“O formato é difícil, mas justo”, disse ele.
A proposta exigiria que a Rússia “espelhasse” os passos da Ucrânia e também precisaria ser discutida internamente, de acordo com Zelenskiy.
A zona poderia ser criada em partes da região de Donbas, no leste da Ucrânia, e serviria como um compromisso que exigiria que ambos os lados retirassem suas forças da área e fossem separados por uma distância significativa o suficiente para permitir uma vida normal na área.
Alternativa de trégua com a Rússia
Uma segunda opção envolveria a interrupção dos combates com as forças permanecendo onde estão, enquanto as questões não resolvidas são tratadas por meio da diplomacia, disse ele.
“Trata-se de congelar a linha de contato, não o conflito”, disse Zelenskiy, acrescentando que esse tipo de acordo seria mais fácil de ser implementado e monitorado pelos aliados estrangeiros da Ucrânia.
Zelenskiy reiterou que as ações da Rússia sugerem que ela não está pronta para uma diplomacia genuína. A Ucrânia nunca reconhecerá seus territórios ocupados como russos, mesmo que espere restaurar a soberania sobre todas as suas terras em algum momento no futuro, disse ele.
Zelenskiy pediu aos EUA que respondam de forma mais sistemática à agressão russa, observando que a Ucrânia ainda não recebeu todos os sistemas de defesa aérea Patriot e munição prometidos.
A Rússia lançou um grande ataque aéreo contra a Ucrânia na madrugada de sexta-feira, que deixou grande parte da capital sem energia, aquecimento e abastecimento de água.
O prefeito de Kiev pediu aos moradores que deixassem temporariamente a cidade para evitar o congelamento.
Zelenskiy criticou o apelo como alarmista, dizendo que ele deveria se concentrar em trabalhar duro para que a cidade volte a funcionar normalmente.
“Não se pode demonstrar aos russos o que eles querem ver e o que eles querem ouvir”, disse Zelenskiy.
Quando questionado sobre os comentários recentes de líderes europeus que pediram um diálogo renovado com Moscou, Zelenskiy disse que não se opõe ao envolvimento da Europa com a Rússia, desde que Putin perceba que a conversa é séria.
“Não me oponho a que a Europa converse com a Rússia, especialmente agora, quando há pressão dos EUA e a Europa começou a falar sobre garantias de segurança”, disse ele. “Estamos nos movendo em direção ao estágio final, mesmo que ainda não saibamos como ele será.”
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