Bloomberg Línea — As tarifas impostas pelo governo de Donald Trump se tornaram a principal fonte de tensão comercial do Brasil nos últimos anos e ajudam a explicar a busca por novos mercados para produtos afetados pelas medidas americanas, com uma aproximação com a China.
A tensão criada pelas taxas dos EUA aumentaram a discussão sobre o suposto início de uma guerra comercial global por conta do presidente americano.
Para o economista americano Chad P. Bown, essa leitura explica o problema mais imediato do Brasil, mas não a transformação mais profunda em curso na economia mundial, que vai além das decisões dos EUA.
Mesmo que Trump não estivesse na Casa Branca, e a relação entre os governos de Brasília e Washington fosse excelente, o Brasil ainda estaria mergulhado em uma guerra comercial, segundo ele, só que por outro motivo.
“Mesmo se as relações entre os líderes fossem ótimas, o Brasil ainda estaria em uma guerra comercial”, disse Bown em entrevista à Bloomberg Línea. “O mundo basicamente vive uma guerra comercial global por causa da China neste momento”, disse.
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Bown é autor, ao lado da jornalista Soumaya Keynes, do livro How to Win a Trade War: An Optimistic Guide to an Anxious Global Economy [Como vencer uma guerra comercial: um guia otimista para uma economia global ansiosa, em tradução livre].
No livro, os dois defendem que não existe vencedor real em uma guerra comercial, apenas quem perde menos que o adversário. Em um mundo em que tarifas, cadeias de suprimentos, minerais críticos e política industrial se tornaram instrumentos de poder, vencer pode significar simplesmente reduzir as próprias perdas.
Ele é pesquisador do Peterson Institute for International Economics (PIIE), em Washington, e foi economista-chefe do Departamento de Estado americano entre 2024 e 2025, no fim do governo Biden. Antes disso, atuou no Council of Economic Advisers da Casa Branca durante o governo Obama e passou pelo Banco Mundial e pela Organização Mundial do Comércio.
Na entrevista a seguir, editada por concisão e clareza, Bown avaliou a posição do Brasil dentro dessa disputa global , os riscos da crescente dependência brasileira da China e por que, em sua visão, a guerra comercial deve sobreviver ao governo Trump.
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O Brasil sempre tentou manter uma posição de diálogo com todo mundo, negociando tanto com os Estados Unidos quanto com a China. Agora, o país sente que foi arrastado por Trump para uma guerra comercial. Como o senhor vê a situação do Brasil, sendo um país sem tanto peso econômico ou político?
Não sou especialista em política doméstica brasileira, mas sei que o presidente Trump tem problemas com o que acontece internamente no país, e isso, a meu ver, entra em uma categoria que tem muito pouco a ver com comércio em si.
Há coisas que costumam ser trazidas para as guerras comerciais do presidente Trump que realmente não parecem ter nada a ver com comércio. O Brasil se encaixa nessa categoria, assim como o Canadá, com quem a relação de Trump também parece inexplicável do ponto de vista econômico. Há algo à parte, ligado a [Jair] Bolsonaro e a todo esse legado, que faz o presidente isolar o Brasil de um jeito diferente do que faz com qualquer outro país.
Para ser honesto, entretanto, Brasil e Estados Unidos não comercializam tanto assim entre si, certamente não do ponto de vista americano. O Brasil não é um parceiro comercial enorme para os Estados Unidos.
Ainda assim, há uma certa frustração, da perspectiva de um negociador comercial americano, porque as tarifas do Brasil em relação aos Estados Unidos têm sido relativamente altas desde meados dos anos 1990, sem sinal de que isso fosse melhorar. Mas há também coisas bem específicas ligadas ao presidente Trump que não têm nada a ver com comércio, é simplesmente a relação dele com o Brasil e com o establishment político doméstico do país.
Então as tarifas de Trump contra o Brasil são uma questão à parte, ou o país foi efetivamente trazido para dentro da guerra comercial global?
Acredito que essas tarifas mais recentes tenham a ver com esse segundo motivo: a política doméstica. Mas mesmo que isso não estivesse acontecendo, mesmo que Bolsonaro fosse presidente agora e a relação entre os líderes fosse ótima, o Brasil ainda estaria numa guerra comercial.
Isso acontece porque o mundo, basicamente, está vivendo uma guerra comercial por causa da China. Nesse sentido, o Brasil, como qualquer outro país, está sendo desviado das questões maiores ligadas à China porque precisa lidar com problemas separados, causados pelo presidente Trump.
Para ser justo com o Brasil e com a China, o Brasil provavelmente tem menos problemas com os chineses do que muitos outros países, consegue vender uma quantidade enorme de commodities para a China, então vê sua relação com o país como muito mais interdependente do que a de muitos outros.
Ainda assim, no lado industrial, não devemos ignorar que essa relação provavelmente segue muito assimétrica quando se trata de comércio de manufaturados.
Nesse contexto, o que um país como o Brasil, uma potência econômica intermediária, pode fazer? Há quem no governo brasileiro fale em tarifas recíprocas, e há quem defenda negociar uma abertura maior do mercado brasileiro aos Estados Unidos.
A primeira coisa que o Brasil precisa decidir é se uma retaliação tarifária contra os Estados Unidos faz sentido para o país ou se isso só vai acabar prejudicando mais o próprio Brasil. Se for prejudicar mais o Brasil, o raciocínio é nem se dar ao trabalho de impor as tarifas, porque elas dificilmente, por si só, vão mudar o comportamento de Trump ou suas políticas.
Há uma pergunta separada: existe algo que o Brasil tenha que seja essencial para a economia americana, seja como mercado consumidor de alguma exportação importante para os Estados Unidos, seja como fonte de algum insumo? O Brasil tem algum equivalente às terras raras ou aos ímãs permanentes, algo que possa ameaçar cortar dos americanos e que funcionasse como arma comercial?
Se a resposta for não, ao retaliar você pode estar apenas prejudicando a si mesmo. E aí a pergunta é: não é agradável, mas será que queremos causar mais dano a nós mesmos sem ganho nenhum?
Meu conselho para todos os países é refletir sobre a própria estratégia econômica e o que é melhor para sua população. Em muitos casos, isso vai significar não retaliar.
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Mas, se o Brasil não retaliar e ao mesmo tempo aumentar o comércio com a China, não corre o risco de ficar excessivamente dependente de Pequim?
Sim, e isso é algo contra o qual o Brasil também vai ter que se proteger. Se forem espertos, os governos estão olhando para todas as suas dependências e tentando garantir que não estão ficando dependentes demais de países que não são confiáveis.
Se isso estiver acontecendo, existem outras políticas para lidar com o problema, talvez laços comerciais mais profundos com outros países, como o Brasil está fazendo com o Mercosul em relação à Europa.
Encontrar relações comerciais alternativas, de importação e exportação, pode ajudar a lidar não só com o problema dos Estados Unidos, mas também com o desafio de não ficar dependente demais da China.
A boa notícia é que Estados Unidos e China são grandes e importantes, mas não são as únicas duas economias que existem no mundo. Isso é algo que o Brasil precisa ter atenção, assim como todo mundo.
Podemos dizer que o mundo vive realmente uma guerra comercial?
Sim, estamos em uma guerra comercial agora, gostemos ou não. Existem várias guerras comerciais acontecendo, algumas iniciadas pelo presidente Trump. Mas um dos pontos que tentamos mostrar no livro é que, mesmo se deixarmos de lado tudo que o presidente Trump está fazendo, que é em grande medida uma distração e poderia ser revertido por um futuro presidente americano, existe uma guerra comercial realmente importante acontecendo, que os Estados Unidos, o Brasil e todos esses outros países precisam enfrentar, queiram ou não. E ela é com a China.
É um sistema econômico muito diferente, é a visão de mundo do presidente Xi Jinping, que ele expôs de forma bem precisa em 2020. Ali ele imaginou um futuro em que a China não dependeria do resto do mundo para suas cadeias de suprimentos, não seria dependente dos Estados Unidos, do Brasil, da Europa ou do Japão para o que precisasse, mas queria muito que o resto do mundo dependesse da China para o que precisasse. Uma dependência de mão única.
Não dá para ter um sistema comercial funcional quando um dos maiores participantes diz que não acredita em interdependência, e sim numa dependência unilateral do resto do mundo em relação a ele, e ainda implementa políticas para tornar isso realidade.
Quando você olha os dados, isso está de fato acontecendo: há cerca de cinco anos as importações chinesas do resto do mundo praticamente não crescem, enquanto suas exportações estão em alta, mesmo com a China vendendo bem menos aos Estados Unidos por causa das tarifas. Ela encontrou mercados alternativos.
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Que exemplos pode dar desse uso das cadeias de suprimentos como instrumento de pressão?
A China restringiu o acesso a terras raras e ímãs permanentes, como fez no ano passado. Isso não tem só implicações militares e de defesa. Ímãs permanentes também são insumos essenciais para fabricar carros, e isso quase parou as cadeias globais de produção automotiva quando a China cortou o acesso mundial a esse insumo.
A China tem 90% da mineração e do refino mundial de terras raras, e mais de 90% da produção mundial de ímãs permanentes. Essa é a guerra comercial que precisa ser enfrentada, porque há um número cada vez maior de setores manufatureiros e insumos essenciais em que a China tem esse domínio de mercado.
Mesmo economistas que diriam que guerras comerciais são bobagem, que ninguém vence uma guerra comercial, precisam lidar com isso. Essa guerra comercial está sendo imposta a nós.
E onde Trump entra nisso? Com todas as tarifas, sua política econômica parece voltada para erguer muros tarifários. O que ele está fazendo ajuda a estancar essa guerra comercial e achar um meio-termo, ou tende a escalar e piorar o problema?
Quando o governo Trump voltou ao poder, em janeiro de 2025, não percebeu completamente o quanto os Estados Unidos eram vulneráveis a esse tipo de guerra econômica que a China poderia desencadear. A visão do presidente Trump era a de que os Estados Unidos tinham todas as cartas, por serem um mercado consumidor grande e rico ao qual todo o resto do mundo quer ter acesso, incluindo a China, e que ele poderia ameaçar tirar esse acesso por meio de tarifas para conseguir o que quisesse.
Foi o que fez: impôs tarifas de 20% sobre a China no início do ano, as tarifas do fentanil, depois o “dia da libertação”, que escalaram até 145%.
Isso funcionou com boa parte do resto do mundo, mas não funcionou com a China. Os chineses já tinham passado por isso no primeiro governo Trump e não dependiam mais tanto do mercado importador americano para suas exportações.
A China se diversificou, agora vende mais para a Europa, mais para o Brasil e outros países da América Latina, mais para países do Sul da Ásia.
No período desde então, também construiu suas próprias forças em áreas de concentração de produção de bens essenciais de que a economia americana precisa, como terras raras, minerais críticos, ímãs permanentes e semicondutores de menor complexidade.
Quando o governo Trump aplicou todas essas tarifas no ano passado, isso foi completamente contraproducente, porque escalou a disputa e expôs as vulnerabilidades dos Estados Unidos.
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Trump não acabou levando outros países para essa guerra e, ao mesmo tempo, dificultando a formação de uma frente comum contra a China?
Colocaria isso de forma com um pouco mais de nuances. Não discordo que o presidente Trump tornou a vida desses outros países mais difícil ao impor tarifas e envolvê-los nisso. A questão é se o resto do mundo estava disposto a se juntar aos Estados Unidos para enfrentar a China antes disso, e a resposta é que não havia evidência de que os países estivessem dispostos a fazer isso.
A Europa talvez esteja sendo obrigada a fazer isso agora. Com produtos chineses sendo excluídos diretamente dos Estados Unidos, a Europa está recebendo uma parcela maior deles, o que inclui veículos elétricos, mas não só, está prejudicando fabricantes alemães de automóveis, há também máquinas e equipamentos industriais.
Pela primeira vez, a Europa pode ter que pensar seriamente em restrições comerciais contra a China e na própria política industrial. Não é que estejam fazendo isso junto com os Estados Unidos. Estão sendo obrigados a fazer isso para se proteger.
Também houve países que pensaram em se unir para enfrentar os Estados Unidos como grupo, em vez de negociar um a um, mas nenhum desses grupos conseguiu se coordenar de fato, em parte porque todos ficaram muito interessados no próprio jogo.
Para países como Vietnã, Malásia, Indonésia e Tailândia, o que mais importava era o quanto a própria tarifa seria mais baixa do que a aplicada à China, porque tarifas mais altas sobre os chineses tendem a deslocar cadeias de suprimentos para fora do país, e cada um queria ser o destino mais atraente para esse investimento. Isso ajuda a explicar por que não houve coordenação coletiva contra os Estados Unidos no ano passado.
Então acredita que a própria China também acabou levando países que estavam fora da disputa para dentro dela?
Sim. Quando o governo Trump impôs tarifas de 145% sobre a China, os chineses responderam com restrições à exportação de terras raras e ímãs permanentes, mas não fizeram isso só com os Estados Unidos. Restringiram as exportações desses mesmos produtos para a Europa e o Japão também.
A China trouxe esses países para a guerra comercial mesmo sem que eles tivessem feito nada, e isso pode ter sido mais importante para eles do que uma tarifa americana.
Quando você perde acesso a um mercado de exportação, sempre existe a possibilidade de encontrar mercados alternativos. No pior cenário, pode vender no mercado interno, ganhando menos, mas sem precisar jogar o produto fora.
Quando você perde acesso a um insumo essencial, é diferente. Ímãs permanentes são necessários para fabricar componentes de automóveis. Sem eles, você não consegue fazer o carro. Se não consegue fazer o carro, não consegue vendê-lo, e precisa demitir trabalhadores.
Isso pode ser mais devastador do que perder acesso a um mercado de exportação, quando esses insumos são essenciais e não existe outro fornecedor no curto prazo.
Essa guerra comercial tem um fim? Alguém pode vencê-la, ou é o novo normal, independentemente de quem for o próximo presidente americano?
Diria que é o novo normal, mas não por causa do presidente Trump. É por causa da China. A China não está mudando seu modelo econômico. Isso ficou claro até quando Trump perdeu a eleição de 2020 e Joe Biden assumiu: as políticas mudaram, mas as tarifas que os Estados Unidos tinham imposto à China permaneceram.
A nova ênfase do governo Biden não foram as tarifas, mas a política industrial, voltada a atacar os mesmos desafios, tentando criar fontes alternativas de fornecimento para baterias e semicondutores fora das cadeias chinesas.
Isso acontece porque o comportamento econômico da China não está mudando. O país não passou a focar mais em consumo doméstico, não resolveu seus desequilíbrios, não se livrou de suas estatais nem de seus planos quinquenais e políticas industriais. Nada disso mudou.
Existem segmentos manufatureiros nos quais o Brasil compete direta ou indiretamente com a China, mas há muitos outros nos quais o país não compete diretamente, como semicondutores e boa parte da tecnologia veicular. São áreas em que o atrito da China é mais com Europa, Japão e Estados Unidos. É essa a guerra comercial com a qual vamos ter que conviver.
O presidente Trump tem uma abordagem, que são as tarifas, e, se as pessoas igualam tarifas a guerra comercial, vão achar que ela desaparece quando ele deixar o cargo. Mas esse é o erro: a guerra comercial com a China não desapareceu quando o presidente Biden chegou, porque a China era a origem da guerra comercial, e ela nem começou com as tarifas.
Para quem escreveu um livro chamado “Como vencer uma guerra comercial”, tarifas são uma boa estratégia para vencer?
O título do livro tem uma definição bem elástica de vitória. Vencer, no nosso contexto, pode significar minimizar as próprias perdas. Às vezes dá para fazer melhor do que simplesmente aceitar o golpe, descobrindo como usar outras políticas.
Você pode não retaliar com tarifas, mas pode precisar formar estoques estratégicos, para poder ameaçar usar restrições de exportação e tirar algo de um parceiro comercial que esteja intimidando você.
Todos estaríamos muito melhor, e realmente venceríamos, se concordássemos em parar de fazer isso. Mas, como os outros não estão parando, vencer vai significar ajustar nosso comportamento e usar essas políticas para fazer melhor do que faríamos de outra forma.
Qual é o risco de uma guerra comercial se transformar em uma guerra de verdade?
É uma preocupação grande, e temos um capítulo inteiro sobre isso no livro, sobre a relação entre comércio e paz. Historicamente, muitos líderes argumentaram que mais interdependência tornaria a paz mais provável, a começar por Cordell Hull, secretário de Estado de Roosevelt e um dos arquitetos do sistema de comércio do pós-guerra, o acordo que depois virou a OMC.
O projeto europeu partiu do mesmo princípio, mais interdependência reduziria a chance de novas guerras mundiais. A aproximação da Europa com a União Soviética nos anos 1970, construindo gasodutos para aumentar o comércio, também teve esse objetivo de política externa.
Há pesquisas que analisam essa questão, e, de modo geral, mostram que mais comércio entre os países eleva o custo econômico de uma guerra e, com isso, reduz a probabilidade de ela acontecer. Mas o que importa não é só o quanto você tem de comércio, e sim com quem.
Se meu comércio for concentrado demais com um único parceiro, em detrimento de outros, fica mais provável que eu entre em guerra com esses outros, porque os custos de fazer isso são menores.
Não é como a medicina, em que dá para fazer testes controlados, só é possível observar a história que de fato aconteceu. Mas é isso que sabemos: não tivemos uma Terceira Guerra Mundial.
E, sim, fico preocupado se diminuirmos demais essa interdependência, se os Estados Unidos se isolarem demais da China e se a China se isolar demais dos Estados Unidos, as coisas podem escalar. Isso é algo que definitivamente não queremos que aconteça.