Bloomberg — O presidente Donald Trump afirmou que o Irã entrou em contato com seu governo para retomar as negociações de paz, enquanto os Estados Unidos davam início ao bloqueio naval do Estreito de Hormuz.
Mesmo com Trump tentando pressionar para relançar as negociações, havia poucos sinais de que isso estava ocorrendo após o fracasso das conversas em Islamabad no fim de semana. O Irã culpou os Estados Unidos pelo colapso das negociações, e Teerã não confirmou novos contatos na segunda-feira (13).
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“Recebemos uma ligação esta manhã das pessoas certas, das pessoas apropriadas, e elas querem fechar um acordo”, disse Trump na Casa Branca, sem detalhar quem participou da conversa.
Trump falou horas depois de os Estados Unidos terem agido para impedir a passagem de embarcações pela via marítima de e para portos e áreas costeiras iranianas — medida que pode acirrar ainda mais as tensões em meio à crise energética global.
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O presidente americano voltou a afirmar que as negociações fracassaram por insistência do Irã em manter seu programa nuclear. Trump disse estar “certo” de que o Irã acabará concordando em abandonar as ambições nucleares e reiterou que não haverá acordo sem essa concessão.
Trump disse ainda que há países dispostos a apoiar a missão dos Estados Unidos em Hormuz, mas recusou-se a nomeá-los e prometeu dar mais detalhes na terça-feira.
Bloqueio naval eleva tensões
Os preços do petróleo subiram à medida que os investidores se preparavam para novos cortes no fornecimento, caso o bloqueio americano reduza o fluxo de petróleo iraniano para os mercados globais. Os preços, porém, permaneceram voláteis, pois os custos de negociação dispararam, o que por sua vez reduziu a liquidez.
Os ganhos do petróleo foram limitados — o crude americano praticamente zerou os avanços da sessão — após Trump afirmar que o Irã havia entrado em contato na segunda-feira em busca de um acordo. Ambos os benchmarks fecharam perto de US$ 99 o barril.
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O bloqueio de Trump vai testar a durabilidade do frágil cessar-fogo com o Irã e aprofunda uma crise energética global em uma guerra de seis semanas que já deixou milhares de mortos na região.
É mais um movimento do presidente americano para pressionar o Irã a abrir mão de seu próprio controle sobre o estreito, depois que as conversas no Paquistão para estender o cessar-fogo não chegaram a um acordo.
“Não podemos deixar um país chantagear ou extorquir o mundo”, disse Trump. Ele também afirmou, sem apresentar provas, que “muitos navios estão se dirigindo ao nosso país agora” para carregar petróleo americano, e repetiu que “não usamos o estreito — não precisamos do estreito.”
O Irã afirmou que atacaria todos os portos do Golfo Pérsico caso seus próprios centros de embarque sejam ameaçados, configurando um novo impasse em águas que normalmente respondem por cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos no mundo.
A segurança dos portos da região é “ou para todos ou para ninguém”, disse as Forças Armadas iraninas em comunicado na segunda-feira, segundo a estatal IRIB News.
O bloqueio americano ao estreito seria “um ato de pirataria”, afirmou o comunicado, reiterando os planos de manter controle permanente sobre a via marítima estratégica mesmo após o fim da guerra.
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Trump havia alertado, logo após o vencimento do prazo, que os Estados Unidos mirariam embarcações iranianas usando as mesmas táticas empregadas contra supostos barcos de tráfico de drogas no Mar do Caribe nos últimos meses.
“O que não atacamos foi o pequeno número de, como eles chamam, ‘navios de ataque rápido’, porque não os considerávamos grande ameaça. Aviso: se qualquer um desses navios se aproximar do nosso BLOQUEIO, será imediatamente ELIMINADO, usando o mesmo sistema de abate que usamos contra os traficantes de drogas em alto-mar”, escreveu Trump nas redes sociais.
Ainda assim, Trump tentou minimizar as preocupações com um novo choque nos mercados globais de energia, afirmando em outra publicação que 34 navios teriam atravessado o estreito no domingo, “de longe o maior número desde o início desse fechamento insensato.”
A Bloomberg News havia relatado anteriormente que 19 embarcações passaram pela via marítima nos dois sentidos no domingo.
Pouco antes do prazo, os Estados Unidos publicaram um aviso às embarcações na região informando que interceptariam, desviariam ou capturariam navios que saíssem do Irã a partir daquele momento.
O comunicado indicou que navios neutros que não tivessem atracado no Irã não seriam impedidos, embora pudessem ser revistados em busca de cargas contrabandeadas.
O bloqueio americano será “aplicado de forma imparcial a embarcações de todas as nações que entrem ou saiam de portos e áreas costeiras iranianas”, segundo comunicado do Comando Central dos Estados Unidos divulgado no domingo, que afirmou que as forças americanas não impediriam navios em trânsito pelo Estreito de Hormuz de e para portos não iranianos.
As perturbações no estreito também representam riscos para a China, que continua sendo a maior compradora de petróleo iraniano e uma parceira comercial estratégica. Pequim pediu um cessar-fogo imediato, alertando que o bloqueio ameaça o comércio global.
Trump disse na segunda-feira que ainda não havia falado com o presidente chinês Xi Jinping sobre o conflito, mas acrescentou que Xi “também gostaria de ver isso resolvido.”
Nenhum dos lados se comprometeu publicamente com outra rodada de negociações.
“Os Estados Unidos precisam aprender: não dá para ditar condições ao Irã”, escreveu o ex-chanceler iraniano Mohammad Javad Zarif no X, no domingo. “Ainda não é tarde para aprender. Ainda.”
Enquanto isso, Estados Unidos e Israel pausaram os bombardeios ao Irã — e Teerã, por sua vez, parou de lançar mísseis contra os Estados do Golfo —, mas Israel manteve sua invasão ao Líbano para atacar o Hezbollah, grupo militante apoiado por Teerã.
Essa ofensiva em curso, que o governo libanês afirma ter matado mais de 2.000 pessoas, foi um ponto de discórdia durante as negociações dos termos do cessar-fogo Estados Unidos-Irã firmado na semana passada.
Conversas entre Israel e o governo libanês — que há muito prometeu desarmar o Hezbollah sem sucesso — devem ocorrer esta semana.
O cessar-fogo de duas semanas entre Estados Unidos e Irã expira em 22 de abril, caso o bloqueio americano não leve ao seu colapso antes disso.
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