Retaliação do Irã leva aéreas do Golfo a cancelar voos e deixa milhares retidos

Ataques do Irã a bases americanas levam ao fechamento temporário do espaço aéreo e forçam Emirates, Qatar Airways e Etihad a suspender operações em hubs como Dubai e Doha

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Bloomberg — Poucas horas após os ataques de retaliação do Irã contra bases dos EUA no Golfo Pérsico, o tráfego aéreo civil começou a ser gradualmente liberado.

Inicialmente, as companhias passaram a contornar a região, até que os movimentos evoluíram para uma paralisação total — inédita pela sua dimensão.

Mas, para as dezenas de milhares de passageiros nos hubs globais de Dubai, Doha e outras cidades do Golfo, a expectativa de embarque rapidamente deu lugar ao caos, à medida que autoridades fecharam o espaço aéreo em algumas das rotas mais movimentadas do mundo. Como consequência, Emirates, Qatar Airways, Etihad Airways e outras empresas suspenderam todas as operações.

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No Aeroporto Internacional de Dubai, os painéis de chegadas e partidas exibiram primeiro atrasos expressivos, que logo se converteram em suspensão completa — uma interrupção sem precedentes nas últimas décadas.

A Emirates sempre destacou a precisão de suas operações, mesmo em momentos de crise, como a pandemia ou conflitos regionais. Desta vez, porém, a interrupção integral dos serviços tornou-se inevitável.

A Emirates cancelou todos os voos até as 3h de domingo; a Qatar Airways suspendeu as operações até a meia-noite; e a Etihad Airways prolongou a paralisação até a tarde de domingo.

Os efeitos nos aeroportos da região foram além dos cancelamentos. A autoridade de aviação civil do Kuwait informou que um drone atingiu o aeroporto do país, provocando vários ferimentos leves e danos classificados como “limitados” no terminal de passageiros.

A região opera como um superconector global, ligando praticamente quaisquer dois pontos do planeta com uma única conexão em aeroportos como Dubai, Doha ou Abu Dhabi.

Nesse modelo, companhias como Emirates, Qatar Airways e Etihad estruturaram frotas de grande porte para canalizar passageiros por seus hubs, transformando o Oriente Médio em uma via essencial do tráfego aéreo internacional.

O Golfo Pérsico já convive com interrupções frequentes, após restrições impostas ao espaço aéreo de amplas áreas do Oriente Médio nos últimos dois anos.

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Nesse período, companhias foram obrigadas a cancelar rotas rentáveis, consumir mais combustível com desvios e sobrevoar países normalmente evitados — como o Afeganistão — para contornar zonas consideradas de risco.

Ainda assim, uma suspensão total por várias horas em escala regional não tem precedentes, evidenciando a magnitude do conflito que opõe Irã, Israel e Estados Unidos.

Dubai é o aeroporto internacional mais movimentado do mundo, com mais de 2.000 voos diários operados por mais de 100 companhias aéreas. A Emirates lidera as operações com uma frota de aeronaves de longo curso da Boeing e da Airbus, conectando mais de 140 destinos globais.

Em condições normais, o terminal consegue processar milhares de passageiros em poucos minutos, apoiado por tecnologias como reconhecimento facial.

No sábado, porém, os saguões de check-in se encheram rapidamente de viajantes retidos. Os portões eletrônicos foram fechados, formando filas mais longas à medida que passageiros se acumulavam nos balcões de imigração.

As filas avançavam pelos saguões de embarque, enquanto parte dos passageiros corria para as saídas em busca de táxis para retornar à cidade. Muitos tentavam obter os vouchers de hotel prometidos pelas companhias aéreas.

No início, alguns ainda mantinham a expectativa de embarcar. Por volta das 16h, porém, todas as operações foram suspensas e milhares de pessoas foram orientadas a deixar o aeroporto.

Outros viajantes acreditaram ter partido a tempo, mas viram seus voos retornar após o fechamento do espaço aéreo sobre as rotas previstas, consideradas inseguras. Um Airbus A380 da Emirates com destino a São Francisco regressou a Dubai, e outras aeronaves também ficaram fora de posição, ampliando o descompasso operacional em solo.

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No aeroporto de Doha, que opera cerca de 1.000 voos diários, cenas semelhantes se repetiram, evocando junho do ano passado, quando ataques iranianos dispersos no Catar deixaram 20 mil passageiros temporariamente retidos.

“As pessoas estão muito cansadas e nervosas; algumas não têm ideia do que virá a seguir nem por quanto tempo ficaremos presos”, disse Tarun Pathak, que viajava de Nova Délhi a Barcelona, com conexão em Doha, a trabalho.

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