Bloomberg — Três dirigentes do Federal Reserve que divergiram da decisão de manter os juros estáveis na quarta-feira (29) alertaram que esperar tempo demais para agir contra a inflação pode aumentar o risco de serem necessárias medidas ainda mais agressivas no futuro.
“Quanto mais tempo a inflação elevada persistir, mais desafiador e mais custoso poderá ser reduzi-la”, afirmou a presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, em comunicado divulgado na sexta-feira (31).
O presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou em comunicado separado que, para administrar o risco de a inflação elevada se tornar persistente, “preferiria apertar a política monetária de forma gradual à medida que novos dados sobre a trajetória da inflação e do emprego forem divulgados”.
Lorie Logan, presidente do Fed de Dallas, afirmou em comunicado divulgado mais tarde na sexta-feira que “uma ação modesta no curto prazo reduziria a probabilidade de ser necessário adotar medidas mais drásticas depois”.
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Os dirigentes do Fed votaram por 9 a 3 nesta semana para manter a taxa básica de juros inalterada pela quinta reunião consecutiva. As autoridades monetárias mantiveram a taxa-alvo na faixa de 3,5% a 3,75% durante todo o ano. Mas um número maior de dirigentes passou a defender possíveis altas de juros depois que a retomada das tensões no Oriente Médio e um forte ciclo de investimentos impulsionado pela inteligência artificial reacenderam as pressões inflacionárias.
Os títulos do Tesouro dos EUA caíram após os comentários de Hammack, Kashkari e Logan, enquanto os preços do petróleo avançavam.
Os rendimentos dos Treasuries de dois a cinco anos devolveram grande parte da queda provocada pela decisão do Fed na quarta-feira. O rendimento do título de 10 anos superou 4,73% pela primeira vez desde janeiro de 2025, enquanto o papel de 30 anos ultrapassou 5,25% pela primeira vez desde 2007.
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Inicialmente concentradas nos vencimentos mais curtos, mais sensíveis às expectativas para a política monetária do Fed, as perdas se estenderam aos prazos mais longos, que respondem mais diretamente às perspectivas de inflação de longo prazo.
“Os investidores acreditam que a inflação está elevada há algum tempo e, por isso, exigem um prêmio maior nos vencimentos mais longos”, afirmou Monty Gandhi, estrategista de juros do SMBC Group.
Os operadores do mercado de renda fixa também estão pagando os maiores prêmios desde março para se proteger contra uma nova alta dos rendimentos dos títulos de longo prazo.
Nos comunicados, os três dissidentes — que preferiam elevar os juros nesta semana — apontaram os diversos choques de oferta que ajudam a impulsionar a inflação. Hammack afirmou que também vê pressões vindas do lado da demanda da economia. Kashkari disse que as ferramentas do Fed podem combater com sucesso a inflação provocada por “sucessivos choques de oferta”, como ocorreu no fim da década de 1970 e no início dos anos 1980.
Logan argumentou que a inflação “parece caminhar para algo na faixa intermediária de 2%, e não para 2%” — meta perseguida pelos dirigentes do Fed — mesmo após considerar os choques de oferta e os ganhos de produtividade. Ela afirmou que o mercado de trabalho, os gastos e as condições dos mercados financeiros indicam que a política monetária não está restringindo a economia e que é improvável que as pressões sobre os preços desapareçam completamente sem alguma ação do Fed.
Os três dirigentes também destacaram que a economia, de forma geral, continua forte.
Pressão inflacionária
O índice de gastos com consumo pessoal (PCE), medida de inflação preferida do Fed, caiu 0,1% em junho, mostraram dados divulgados na quinta-feira. Um relatório publicado no início do mês apontou queda semelhante em outro indicador de inflação, impulsionada por fortes recuos nos preços da gasolina. Agora, economistas alertam que o alívio observado no início do verão pode durar pouco depois que a escalada da guerra com o Irã voltou a elevar os preços do petróleo em julho.
Hammack afirmou que não considera a política monetária “suficientemente restritiva” para conter as pressões inflacionárias e disse não estar confiante de que a inflação retornará sozinha à meta de 2% do Fed.
“Este é o momento de o FOMC agir para acelerar o retorno da inflação medida pelo PCE ao nosso objetivo de 2% e cumprir nosso compromisso com a estabilidade de preços para o povo americano”, afirmou.
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Os mesmos três presidentes de bancos regionais também divergiram na reunião do Fed de abril. Embora tenham apoiado a decisão de manter os juros inalterados naquela ocasião, se opuseram ao trecho do comunicado que sugeria que o próximo movimento da taxa provavelmente seria um corte.
Em entrevista no fim de junho, Kashkari citou o que considera uma pressão inflacionária disseminada como motivo para o Fed provavelmente precisar elevar os juros neste ano. Na reunião do mês passado, ele se juntou a outros oito dirigentes ao projetar pelo menos uma alta de juros em 2026.
Na sexta-feira, afirmou que pequenos ajustes dariam ao Fed maior flexibilidade para responder às mudanças na economia.
“Se a inflação permanecer elevada, na minha avaliação, uma possível série de pequenos ajustes de política monetária seria melhor do que esperar e concluir mais tarde que seriam necessárias medidas ainda mais contundentes”, afirmou Kashkari, acrescentando que as autoridades poderiam “desacelerar ou interromper os ajustes seguintes” caso a inflação recue.
Os três dirigentes também destacaram que a inflação permanece acima da meta há mais de cinco anos. “Cada mês de inflação acima da meta aumenta a pressão sobre os orçamentos das famílias e das empresas americanas”, alertou Logan.
Os investidores, em sua maioria, esperavam que o Fed mantivesse os juros estáveis na reunião de 28 e 29 de julho. Mas o mercado de renda fixa sofreu forte venda na quarta-feira, e os rendimentos dos Treasuries de 30 anos atingiram o maior nível em 19 anos depois que o presidente do Fed, Kevin Warsh, se recusou a explicar a justificativa da decisão e não deu indicações sobre o que levaria os dirigentes a alterar os juros.
O presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, afirmou na sexta-feira que foi “uma decisão difícil” avaliar se a taxa básica de juros está alta o suficiente para reduzir a inflação.
Barkin, que votará nas decisões de política monetária no próximo ano, disse ao Wall Street Journal que vê argumentos para reverter parte das reduções de juros feitas no ano passado, mas não tem certeza se teria acompanhado os colegas na divergência desta semana. “É preciso adicionar algum grau de restrição? Acho que essa é a questão”, afirmou.
Dados divulgados na sexta-feira mostraram que o crescimento dos custos trabalhistas nos EUA permaneceu estável no segundo trimestre, indicando que o mercado de trabalho tem contribuído pouco para as pressões inflacionárias.
Embora a diferença tenha sido pequena, “o mercado precisa de dados de inflação mais baixos, e não ligeiramente mais altos”, afirmou Tony Farren, diretor-gerente de vendas e negociação de juros da Mischler Financial Group.
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