Keiko Fujimori assume presidência do Peru com desafio de romper instabilidade

Fujimori assume com uma base parlamentar mais sólida e um novo Congresso bicameral, e busca pôr fim à crise política que derrubou oito presidentes ao longo de uma década no país

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Bloomberg — Keiko Fujimori está prestes a assumir um dos cargos políticos mais arriscados da América Latina como nova presidente do Peru.

A conservadora de 51 anos tomará posse por volta do meio-dia desta terça-feira para se tornar a nona presidente em uma década de um país onde todos os chefes de Estado eleitos desde os anos 1990 foram destituídos, presos ou investigados criminalmente.

Fujimori finalmente conquistou a Presidência após anos de problemas judiciais e críticas persistentes por seu papel na crise política do Peru como a principal liderança por trás dos influentes parlamentares de seu partido. Ainda assim, sua posse pode representar a melhor oportunidade que o país teve até agora para interromper a crônica rotatividade presidencial.

Filha mais velha do ex-presidente Alberto Fujimori, a futura mandatária leva de volta ao poder uma dinastia política profundamente divisiva e insere o Peru na crescente onda conservadora da América Latina, em um momento em que Donald Trump busca reafirmar a influência dos Estados Unidos no hemisfério.

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Entre as autoridades que viajaram a Lima para sua posse estão os presidentes de centro-direita da Argentina, Bolívia, Chile, Equador e Panamá, além do subsecretário de Estado dos Estados Unidos, Christopher Landau.

Fujimori tem razões para demonstrar mais confiança do que seus antecessores. Seu mandato de cinco anos coincide com o retorno de um Congresso bicameral, uma mudança concebida para dificultar a facilidade com que o Legislativo destituiu presidentes nos últimos anos.

Além disso, ela contará com uma base parlamentar mais sólida do que os governos anteriores, já que seu partido terá cadeiras suficientes no Senado para bloquear qualquer tentativa precoce de removê-la do cargo.

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Seu partido, o Fuerza Popular, conquistou por margem estreita, no domingo, o apoio necessário para liderar a Câmara Alta ao lado de um partido aliado de extrema direita.

Ainda assim, uma coalizão de oposição assumiu o controle da Câmara dos Deputados, o que obrigará o governo a construir alianças para aprovar sua agenda em um Congresso polarizado e fragmentado. Isso transforma o centrista Partido del Buen Gobierno em um ator decisivo, já que seu apoio garantiria maioria operacional tanto ao bloco governista quanto à oposição de esquerda.

É provável que o Buen Gobierno mantenha uma postura construtiva, afirmou Luis Ramos, chefe de análise de renda variável da corretora LarrainVial, em relatório. “Consideramos que o resultado representa uma validação inicial da coalizão que sustenta a governabilidade de Fujimori e sua capacidade de avançar com uma agenda legislativa favorável ao crescimento”, acrescentou.

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Apesar do persistente ruído político, o novo governo encontrará um ambiente macroeconômico mais previsível, o que tende a fortalecer a confiança dos investidores e melhorar as perspectivas de crescimento, afirmou a agência de classificação de risco Moody’s em seu relatório mais recente.

Uma nação dividida

Fujimori venceu o segundo turno das eleições de junho por margem estreita, em sua quarta tentativa de chegar à Presidência. Durante a campanha, prometeu reforçar a segurança pública, endurecer o controle das fronteiras e deportar migrantes que cometam crimes.

Assim como outros líderes da região, também prometeu reduzir a burocracia, acelerar a concessão de licenças para projetos de mineração e infraestrutura paralisados e preservar a disciplina fiscal e a independência do banco central, comandado pelo experiente presidente Julio Velarde. Desde sua eleição, investidores voltaram a apostar em ativos peruanos e todos os indicadores de confiança empresarial dispararam.

Para liderar sua agenda econômica, Fujimori escolheu o consultor e ex-diretor do banco central Elmer Cuba para o cargo de ministro da Economia e Finanças.

Entre os primeiros desafios do novo governo estarão o fenômeno climático El Niño, que ameaça provocar inundações catastróficas no setor agrícola — a segunda maior fonte de divisas do Peru, atrás apenas da mineração —, e o risco de um ressurgimento dos conflitos sociais em um país que continua profundamente dividido pelo legado do fujimorismo.

Fujimori, que se tornou primeira-dama do Peru aos 19 anos durante o governo de seu pai, passou a maior parte da vida na política e, por anos, foi uma das figuras mais influentes do país. Agora retorna ao Palácio do Governo, onde cresceu, 26 anos depois de seu pai — posteriormente condenado por corrupção e violações dos direitos humanos — fugir do Peru e renunciar por fax a partir do Japão.

Sua trajetória política foi marcada por turbulências. Ela conseguiu superar uma investigação por suposta lavagem de dinheiro relacionada ao financiamento de suas campanhas presidenciais de 2011 e 2016 e passou vários meses em prisão preventiva antes de um tribunal superior arquivar o caso no ano passado.

Ao longo dos anos, Fujimori evocou o governo de seu pai, destacando seus resultados nas áreas econômica e de segurança, que ajudaram a tirar o Peru da beira do colapso econômico nos anos 1990 e a derrotar as guerrilhas maoístas.

Ainda assim, sua legitimidade deverá continuar sendo questionada pelas vítimas das violações de direitos humanos cometidas durante o governo de Alberto Fujimori.

“Sua promessa de governar como seu pai representa o risco de um retorno a um regime autoritário e corrupto que utilizou o aparato do Estado para cometer graves violações dos direitos humanos”, afirmou um grupo de organizações da sociedade civil em um manifesto.

“É uma memória que o país não pode nem deve esquecer.”

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