Bloomberg — A cada semana em que a maior usina de gás natural liquefeito (GNL) do mundo permanece paralisada, o mercado global perde o equivalente a energia suficiente para abastecer as residências de Sydney por um ano inteiro.
A planta de Ras Laffan, no Catar, foi fechada no início deste mês após um ataque de drone iraniano — a primeira interrupção de fornecimento em três décadas de operação.
Agora, após novos ataques — em retaliação a uma ofensiva israelense contra o vasto campo de South Pars na quarta-feira (18) — o complexo mais amplo sofreu o que o Catar descreve como danos extensos.
O ataque mais recente retirou cerca de 17% da capacidade de exportação de GNL do país, e os reparos podem levar até cinco anos, informou a agência Reuters, citando o CEO da QatarEnergy, Saad al-Kaabi.
Isso deve impor forte pressão energética sobre economias em todo o mundo. Para países emergentes — mercados-chave de crescimento para o GNL — uma segunda crise do gás natural em quatro anos já está reduzindo a demanda industrial, possivelmente de forma irreversível.
Leia também: Para Goldman Sachs, guerra no Oriente Médio afeta mais combustíveis que petróleo bruto
Três semanas de conflito no Oriente Médio desorganizaram toda a cadeia global de fornecimento de energia. Com o Estreito de Ormuz praticamente fechado, os preços de gasolina e querosene de aviação dispararam, a escassez de gás de cozinha tem provocado confrontos na Índia e agricultores se preocupam com o aumento do diesel e de fertilizantes.
Mas, com praticamente nenhuma capacidade ociosa, sem reservas estratégicas e sem substitutos fáceis, o GNL pode se tornar um dos pontos mais críticos em uma crise em expansão.
Quanto mais essa situação se prolongar, mais a única solução será o mundo consumir menos gás — o que representa um grande revés para um combustível promovido pela indústria como uma ponte confiável e acessível entre o carvão poluente e a plena adoção de energias renováveis.
Sem gás, usinas reduzem a geração, fábricas de fertilizantes e têxteis param. O efeito em cadeia de um choque prolongado pode ser ainda mais significativo do que a crise energética de 2022, quando a invasão da Ucrânia pela Rússia forçou mudanças drásticas nos fluxos globais de gás.
“Estamos caminhando rapidamente para um cenário de crise do gás de proporções catastróficas”, disse Saul Kavonic, analista de energia da MST Marquee. “Mesmo após o fim da guerra, a interrupção no fornecimento de GNL pode durar meses ou até anos — dependendo do tempo necessário para reparar os danos.”
Leia também: Economias do Golfo enfrentam risco de maior choque desde os anos 90 com guerra no Irã
O impacto mais imediato da crise atual é que ela praticamente eliminou o excedente global de gás que era amplamente esperado para este ano, quando a produção mundial deveria crescer de forma expressiva.
Os Estados Unidos ainda devem expandir a oferta, mas com o Oriente Médio comprometido, o equilíbrio rapidamente se torna negativo.
Uma interrupção superior a um mês “leva rapidamente a um déficit”, segundo o Morgan Stanley. Se se estender por três meses, será a maior paralisação de GNL na história de meio século da indústria.
“O Sul e o Sudeste Asiático serão as primeiras vítimas”, disse Toby Copson, gestor de portfólio baseado na China da Davenport Energy, que negocia petróleo e gás. Se a disrupção durar meses, acrescentou, “veremos os índices dispararem novamente”.
Os efeitos já são visíveis em economias emergentes da Ásia, que compram quatro quintos do GNL do Catar e recebem a maior parte das cargas dos Emirados Árabes Unidos.
O Paquistão depende do Catar para 99% de suas importações de GNL, e autoridades do país já alertaram que pode não haver gás suficiente para atender à demanda por eletricidade a partir de meados de abril.
O setor têxtil, principal exportador do país, enfrenta um duplo impacto: o gás é usado tanto para gerar energia nas fábricas quanto para aquecimento nos processos produtivos, segundo Aamir Sheikh, dono de uma empresa de tecidos na região de Punjab.
“A produção vai cair, reduzindo as exportações. A viabilidade do que restar também será prejudicada pelo aumento de custos”, disse. “Em resumo, a indústria está muito preocupada.”
Leia também: Governo corta imposto sobre combustíveis para conter pressão de guerra sobre os preços
O mesmo cenário se repete em outras partes da Ásia, onde o GNL é amplamente utilizado em processos industriais, de fábricas de fertilizantes a indústrias de vidro.
Trata-se de um choque de mercado que quase certamente forçará economias emergentes sensíveis a preços a rever planos ambiciosos de expansão do GNL.
Um único carregamento com destino à Ásia custa cerca de US$ 80 milhões — mais que o dobro do valor antes do início da guerra envolvendo o Irã.
Vietnã e Filipinas praticamente suspenderam novas compras até que os preços recuem, enquanto empresas indianas têm sido levadas a realizar algumas das aquisições mais caras dos últimos anos.
O Paquistão — já afetado pelo pico de preços de 2022, que provocou apagões severos — acelera esforços para reduzir o consumo.
Em teoria, isso poderia favorecer a transição energética. Na prática, dada a natureza do consumo de GNL na região, o resultado tem sido maior dependência do carvão, o combustível fóssil mais poluente.
Autoridades filipinas negociam com a Indonésia para garantir mais suprimento, enquanto a Índia deve queimar um volume recorde neste ano para atender ao pico de demanda no verão no hemisfério Norte.
“Em vez de perguntar até onde os preços do gás podem subir, estamos observando em que nível compradores do Sul da Ásia deixam completamente o mercado spot”, disse Evan Tan, analista de GNL da consultoria ICIS.
Mas uma paralisação prolongada no Catar — considerando o tempo necessário para reparar equipamentos danificados, além de uma retomada gradual das exportações e do transporte pelo Estreito de Ormuz — não afeta apenas os países mais pobres.
Uma interrupção de seis meses significa que economias desenvolvidas na Europa e na Ásia também enfrentarão pressão para reduzir consumo, caso os preços voltem aos níveis de 2022, segundo a consultoria Rystad Energy, especialmente no período de recomposição de estoques para o inverno.
Diversificação
Os compradores de gás tiraram lições da última crise, que levou à queda generalizada da demanda industrial em economias como a Alemanha.
A União Europeia passou a reconhecer a necessidade de não depender de uma única fonte de suprimento — a Rússia respondia por cerca de 40% de suas necessidades em 2021 — e buscou diversificar, construindo terminais de importação de GNL e estabelecendo metas de armazenamento. A China também intensificou sua estratégia de diversificação.
Mas isso não foi suficiente para proteger contra um choque tão histórico quanto o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz, que conecta produtores do Golfo Pérsico ao restante do mundo, e a paralisação no Catar, conhecido como o fornecedor mais confiável do setor.
O cerne do problema é que o mercado de GNL, o segmento de combustíveis fósseis que mais cresce, ainda opera majoritariamente com contratos de longo prazo e entregas just-in-time. E a explicação é simples: o gás super-resfriado evapora gradualmente, o armazenamento é caro e leva tempo para ser construído.
Tudo é altamente especializado, desde os navios até os terminais de importação, e, ao contrário do petróleo, não há uma rede global de reservas estratégicas.
Quando o sistema funciona, esses custos parecem desnecessários. Quando deixa de funcionar, já é tarde demais.
Yukio Kani, executivo com mais de três décadas de experiência no setor, descreve a crise atual como comparável à de 2022 ou ao desastre de Fukushima em 2011, que levou o Japão a desligar suas usinas nucleares quase imediatamente e aumentou drasticamente o consumo de GNL.
“A crise está apenas começando, então ainda não sabemos se será mais grave do que esses eventos”, disse Kani, CEO da Jera Co., maior importadora de GNL do Japão, durante conferência em Tóquio no último fim de semana. Os preços do gás dispararam, mas mesmo após os repetidos ataques a Ras Laffan ainda não atingiram o pico observado há quatro anos.
Quem pode pagar já começou a se preparar. Taiwan — polo global de produção de semicondutores e altamente dependente de importações de GNL — corre para garantir carregamentos, comprando volumes suficientes para abril e metade de suas necessidades de maio.
A Coreia do Sul tenta substituir cargas perdidas do Catar e está elevando o limite de operação de usinas a carvão.
O risco mais relevante começa no verão, quando os estoques precisam ser reabastecidos.
“No fim das contas, será necessário racionar mais a demanda, porque não há gás suficiente”, disse Francisco Blanch, chefe de pesquisa global de commodities e derivativos do Bank of America. Os estoques na Europa “estão muito baixos após um inverno rigoroso. E é preciso recompor esses níveis nos próximos dois a três meses — é quando a pressão começará a aumentar”.
A redução do consumo de gás na Europa costuma começar pelos setores mais dependentes do insumo — como a indústria química e grandes consumidores industriais. Desde 2022, o fechamento de plantas desse tipo aumentou seis vezes, e os investimentos no setor caíram mais de 80%, segundo relatório da consultoria Roland Berger para a associação industrial Cefic.
Os vencedores
Mesmo em uma crise dessa magnitude, nem todos perdem. A turbulência no Golfo Pérsico beneficia outros grandes produtores considerados mais seguros, como a Austrália e, especialmente, os Estados Unidos, até agora relativamente protegidos da disparada de preços. A questão passa a ser se algum deles tem capacidade de ampliar significativamente a produção e atender novos clientes no curto prazo.
Países asiáticos já buscam alternativas, segundo autoridades americanas. O governo de Taiwan tenta aumentar compras de GNL dos EUA a partir de junho, enquanto autoridades de Bangladesh avaliam um possível acordo para receber mais carregamentos.
O ministro de Energia do Japão pediu à Austrália mais fornecimento — movimento que alguns especialistas consideram pouco realista, já que o país opera próximo ao limite.
Sob pressão, projetos antes considerados improváveis passam a parecer viáveis, incluindo a proposta de instalação no Alasca apoiada por Donald Trump e vista por muitos no setor como pouco factível.
O interesse sempre existiu, segundo o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, devido ao tempo de transporte de apenas oito dias até Tóquio, contra 24 a 28 dias a partir do Oriente Médio. “São oito dias — e por mais de metade do trajeto, cerca de cinco dias, ainda se está em águas americanas.”
“Os grandes fornecedores de ajuste éramos nós e o Catar”, disse Michael Sabel, CEO da Venture Global, uma das principais desenvolvedoras de GNL dos EUA. “Ainda temos alguma disponibilidade, e há nova oferta entrando gradualmente em operação.”
O próximo projeto americano previsto para iniciar operações nos próximos meses é o Golden Pass, no Texas, desenvolvido em parceria entre a QatarEnergy e a Exxon Mobil. A interrupção em Ras Laffan pode levar o Catar a considerar ampliar investimentos no exterior como forma de se proteger contra futuras disrupções.
“Uma crise global do gás aumenta a receita de exportação dos EUA e impulsiona a indústria e o emprego intensivos em gás no país”, disse Kavonic, da MST Marquee.
Outro potencial beneficiário é a Rússia, que tem ampliado o envio de GNL para a China para contornar restrições ocidentais mais rígidas e a perda da Europa como principal mercado.
O mais recente plano quinquenal da China prevê avançar no gasoduto central China-Rússia — provavelmente uma referência ao Power of Siberia 2. Até recentemente, Moscou promovia o projeto com mais entusiasmo do que Pequim, que prioriza diversificação de suprimentos.
Enquanto isso, Europa e Ásia também correm o risco de competir por uma oferta escassa, elevando a possibilidade de uma guerra de preços entre as bacias do Atlântico e do Pacífico.
Isso cria uma oportunidade lucrativa para traders com cargas não comprometidas — e pode até incentivar o descumprimento de contratos de longo prazo para aproveitar preços mais altos no mercado spot, como ocorreu em 2022.
Embora a Europa tenha oferta suficiente para o próximo mês, algumas autoridades se preocupam com um cenário mais prolongado que a coloque em disputa direta com a Ásia, segundo pessoas com conhecimento do tema que falaram com a Bloomberg News.
O continente depende fortemente do mercado spot, o que o torna vulnerável a choques de preço ou até ao redirecionamento de cargas, caso compradores asiáticos estejam dispostos a pagar mais.
“Quando os preços disparam, países mais ricos continuam comprando. Os menos ricos ficam de fora”, disse Menelaos Ydreos, secretário-geral da International Gas Union. “Não há como compensar o que foi perdido no Estreito.”
-- Com a colaboração de Dan Murtaugh, Jennifer A Dlouhy, Ewa Krukowska, Yusuke Maekawa, Sing Yee Ong, Elena Mazneva, Tooba Khan, Shoko Oda e Christopher Udemans.
Veja mais em Bloomberg.com
Leia também
Petrobras espera ‘momento certo’ para reagir à alta do petróleo, diz CEO