Era dos extremos: como o calor se tornou um problema para a economia da Europa

Segundo economistas ouvidos pela Bloomberg News, o continente precisará investir bilhões de euros para adaptar infraestrutura e proteger a economia dos efeitos das ondas de calor, que já reduzem a produtividade

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Bloomberg — A condição da Europa como o continente que mais aquece no planeta tem se tornado um sério obstáculo para suas perspectivas econômicas.

Na região, onde as temperaturas sobem a um ritmo aproximadamente duas vezes maior que a média global, já não é possível ignorar o impacto econômico do aquecimento global, segundo economistas ouvidos pela Bloomberg News. Eles afirmam que os governos precisarão investir bilhões de euros nos próximos anos para proteger a população de ondas de calor cada vez mais perigosas, que já reduzem a produtividade, prejudicam a indústria e provocam um número significativo de mortes.

As ondas de calor deste verão deveriam servir como um “alerta para todos os dirigentes de políticas públicas da Europa”, afirmou Carsten Brzeski, chefe global de macroeconomia do ING Group, em entrevista. Os extremos de temperatura “realmente atingiram toda a Europa”.

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O economista, que dedica a maior parte do tempo a projetar indicadores macroeconômicos importantes, como inflação e produto interno bruto, afirma que o termômetro agora “se tornou um indicador antecedente” que profissionais como ele precisam acompanhar.

A Comissão Europeia estimou neste ano que os países-membros da União Europeia deveriam investir cerca de € 70 bilhões (US$ 80 bilhões) por ano até 2050 para se adaptar aos efeitos da alta das temperaturas. A Allianz SE, maior seguradora primária da Europa, publicou recentemente simulações sobre o impacto do calor que mostram que a Alemanha, maior economia da União Europeia, pode sofrer perdas econômicas de aproximadamente US$ 130 bilhões até 2030. Para a França, o valor chega a US$ 240 bilhões.

Os números da Allianz, projeções baseadas no custo estimado das ondas de calor entre 2014 e 2024, surpreenderam os economistas responsáveis pela análise, segundo Hazem Krichene, economista sênior de clima da Allianz. Eles sabiam que haveria impacto econômico, mas Krichene afirma que ele e sua equipe “não esperavam que fosse tão grande”.

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As moradias e a infraestrutura da Europa foram construídas, em sua maioria, para proteger a população dos efeitos do frio. Mas, cada vez mais, durante alguns meses do ano, essa infraestrutura também precisa resistir ao calor extremo.

“Em duas ou três décadas, ocorre uma mudança muito rápida” nas temperaturas, afirmou Krichene. “E o resultado é uma infraestrutura urbana pouco adaptada ao calor.”

O calor cria um ciclo de retroalimentação no qual o retorno esperado sobre o capital diminui, os investimentos recuam e a capacidade produtiva é reduzida, segundo a pesquisa da Allianz. Isso leva a um ambiente de estagflação, que pode rapidamente se transformar em um pesadelo para formuladores de políticas que tentam preservar a estabilidade nas maiores economias europeias.

“O que mostramos em nossa análise é que, se nada for feito, haverá um custo fiscal”, afirmou Krichene. “A conscientização existe, mas veremos nos próximos meses como isso se transformará em medidas concretas.”

Parte do desafio na Europa é que os países do norte, de clima mais frio, devem enfrentar trajetórias econômicas mais favoráveis à medida que as temperaturas sobem, enquanto as maiores economias da região — Alemanha, França, Itália e Espanha — correm o risco de sofrer perdas econômicas relevantes, segundo a análise da Allianz. Dentro da zona do euro, que se estende da Finlândia à Grécia, isso representa um dilema “agudo” para o Banco Central Europeu, segundo o estudo.

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Brzeski observa que o BCE já publicou estimativas segundo as quais ondas de calor e secas podem elevar a inflação dos alimentos entre 0,4 e 0,9 ponto percentual, efeito que pode dobrar nos próximos 30 anos. Uma análise do verão de 2025, elaborada em coautoria com o BCE, mostra ainda que a economia europeia perdeu 0,3% de sua produção, número que pode atingir 0,8% de forma acumulada até 2029.

No Reino Unido, as ondas de calor mais recentes expuseram falhas importantes na infraestrutura do país. O prefeito de Londres, Sadiq Khan, afirmou em junho que a cidade precisará recorrer a investidores privados para ajudar a financiar os custos associados à alta das temperaturas. Apenas a proteção das residências mais vulneráveis de Londres contra o calor extremo custará entre £ 9 bilhões e £ 45 bilhões, segundo Khan.

A onda de calor de junho no Reino Unido gerou um custo estimado de £ 2,36 bilhões, segundo a Verdant, centro de estudos de Londres. O cálculo considera a redução da produtividade, já que as temperaturas mais altas dificultam o trabalho e provocam falhas em infraestrutura e equipamentos.

A intensidade das ondas de calor mais recentes tem levado até alguns dos tradicionais céticos do clima na Europa a rever suas posições. O Rassemblement National, da França, cuja líder e candidata à Presidência Marine Le Pen classificou certa vez como “muito, muito alarmista” um relatório climático do IPCC apoiado pela ONU, passou desde então a reconhecer a necessidade de levar esse tipo de ciência a sério.

“Precisamos ter capacidade de reação, porque há muito tempo recebemos relatórios, em especial os do IPCC, que tratam do aquecimento global”, afirmou Sébastien Chenu, deputado do partido, à emissora francesa TF1. “Isso realmente me chama a atenção.”

No ano passado, a França investiu € 1,7 bilhão em adaptação climática, segundo uma análise do Instituto de Economia do Clima, em Paris. O valor não inclui as dezenas de bilhões de euros gastos em melhorias relacionadas ao calor na infraestrutura de transportes e nos sistemas de energia, além de políticas de saúde pública e recursos de proteção civil.

Vivian Depoues, responsável pelas pesquisas do instituto sobre adaptação às mudanças climáticas, afirma que existem recursos para enfrentar os desafios futuros.

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“Temos todas as ferramentas e o conhecimento técnico para fazer isso”, afirmou. A questão é “muito mais como priorizamos os objetivos”.

O custo da inação, por sua vez, vai além da economia. Até agora, neste verão, as ondas de calor já mataram mais de 13 mil pessoas na Europa, segundo estimativas publicadas por autoridades nacionais.

Brzeski, do ING, afirma que o que a Europa enfrenta agora deveria ser “a onda de calor do alerta”. Ela deveria convencer a todos de que “as mudanças climáticas são reais”, afirmou.

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