Empresas da América Latina elevam dividendos em 15%; Brasil lidera distribuição

As empresas da região distribuíram US$ 10,5 bilhões em dividendos no primeiro trimestre, alta de 15% sobre um ano antes, com o Brasil respondendo por US$ 6,3 bilhões, segundo relatório da Janus Henderson

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Bloomberg Línea — As empresas da América Latina distribuíram cerca de US$ 10,5 bilhões em dividendos entre janeiro e março deste ano, um aumento de 15% em relação ao primeiro trimestre de 2025, de acordo com um relatório da Janus Henderson.

“Grande parte dessa atividade concentrou-se no Brasil, que se destacou como o ator mais importante da região”, segundo o relatório Global Dividend and Buyback Index, publicado pela Janus.

O analista financeiro Gregorio Gandini disse à Bloomberg Línea que o crescimento dos dividendos na América Latina reflete o fato de que a região passou por um ciclo diferente do de outras economias.

“Embora o cenário global tenha sido marcado pela incerteza geopolítica, pela inflação e pelas altas taxas de juros, vários mercados latino-americanos se beneficiaram de um ciclo favorável nos preços das matérias-primas, especialmente do petróleo e do cobre, o que fortaleceu os lucros das empresas”, observou Gandini.

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Ao mesmo tempo, ele afirmou que o ambiente de taxas elevadas levou as empresas a adotarem uma abordagem mais estratégica na gestão de suas dívidas e na alocação de capital, priorizando a solidez financeira e a geração de caixa.

“A isso se soma a valorização de algumas moedas da região, o que reduziu as pressões sobre os balanços das empresas com passivos em dólares e lhes proporcionou uma margem maior para remunerar seus acionistas por meio do pagamento de dividendos”.

O Brasil figura como o país com o melhor desempenho, tendo distribuído cerca de US$ 6,3 bilhões em dividendos durante o primeiro trimestre de 2026.

De acordo com o relatório, o crescimento subjacente dos dividendos no Brasil foi de 9,6% no primeiro trimestre de 2026, acima da média do índice, enquanto o aumento nominal foi semelhante, de 9,3%.

Entre as empresas que distribuíram mais dividendos no Brasil estava a mineradora Vale (VALE3).

Vale

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A empresa aumentou seu dividendo por ação de um total combinado de R$ 2,66 no primeiro trimestre de 2025 para R$ 3,58 no mesmo período de 2026, em parte graças ao pagamento de um dividendo extraordinário.

No Brasil, a distribuição de dividendos segue uma lógica estrutural relacionada aos setores bancário, de energia, de serviços públicos e de mineração, que concentram uma parte significativa dos lucros e costumam devolver capital quando o balanço patrimonial o permite.

O setor de mineração também impulsionou a distribuição de dividendos no México, onde as empresas distribuíram aproximadamente US$ 1,4 bilhão, o que representou um crescimento subjacente de 36,4%.

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O crescimento nominal foi de 64,9%, impulsionado principalmente pelas variações na taxa de câmbio.

Uma das maiores distribuidoras de dividendos do país foi o Grupo México (GMEXICOB), que aumentou seu dividendo por ação de MXN$ 1,1 no primeiro trimestre de 2025 para MXN$ 1,5 no mesmo período de 2026.

Grupo Mexico

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No México, esse avanço se deve a empresas específicas com alta geração de caixa e exposição a setores que se beneficiaram do ciclo industrial e das matérias-primas, especialmente a mineração.

“A diferença é que o Brasil funciona como âncora regional devido à profundidade do mercado e ao número de grandes emissores, enquanto o México traz dinamismo porque algumas empresas aumentaram os pagamentos a partir de uma base comparativamente menor”, disse Emanoelle Santos, analista de mercados do aplicativo de investimentos XTB, à Bloomberg Línea.

Em ambos os casos, ele afirma que o dividendo surge como “uma forma de disciplinar” o capital em um ambiente em que os investidores estão valorizando o caixa disponível e não apenas o crescimento.

No Chile, a distribuição de dividendos foi estimada em US$ 2 bilhões, consolidando-se como o terceiro mercado mais importante da região durante o período analisado, embora o crescimento subjacente tenha sido de apenas 1,5%.

Apenas duas empresas chilenas incluídas no índice distribuíram dividendos durante esse período.

Enquanto isso, no Peru, os dividendos totalizaram cerca de US$ 800 milhões no primeiro trimestre de 2026, um valor que reflete, em parte, a representação limitada das empresas peruanas no índice.

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De fato, o valor distribuído nesse período foi impulsionado exclusivamente pela Southern Copper Corporation (SCCO).

Segundo Santos, a ausência da Colômbia e da Argentina entre os principais mercados poderia indicar que seu peso, calendário e contexto foram menos favoráveis dentro da amostra.

Na Colômbia, o mercado é menor e é fortemente influenciado pela Ecopetrol (ECOPETL), pelos bancos, pelo setor de energia e pela infraestrutura.

“Se os pagamentos relevantes não ocorrerem no primeiro trimestre ou forem de menor magnitude, o país perde visibilidade em um ranking regional dominado pelo Brasil, México e Chile”, observou ele.

Ao contrário dos dividendos, as operações de recompra de ações mantiveram um ritmo mais moderado na região.

As empresas latino-americanas realizaram recompras no valor aproximado de US$ 1,1 milhão, um nível que os autores do relatório consideram inferior ao esperado, tendo em vista o tamanho dos mercados da região.

O Brasil também foi o país com o maior volume de recompra de ações na região, com aquisições estimadas em US$ 600 milhões.

Dinâmica do pagamento de dividendos na região

“A América Latina não está apresentando um aumento nos dividendos porque toda a região esteja entrando em uma fase homogênea de crescimento, mas porque os setores com maior geração de caixa tiveram um trimestre favorável”, disse Santos, analista de mercados do aplicativo de investimentos XTB. “O aumento de 15% reflete uma região muito concentrada em poucos mercados e em grandes empresas, com forte peso dos setores bancário, de energia, de mineração e de materiais”.

Na opinião dele, isso torna os dividendos latino-americanos atraentes para investidores que buscam retorno em dinheiro, mas também mais cíclicos do que em economias onde o pagamento provém de setores defensivos ou de tecnologia madura.

Na opinião de Santos, a sustentabilidade dos resultados dependerá da capacidade das empresas de manter lucros elevados sem sacrificar os investimentos, pois, se os preços dos metais e do petróleo se mantiverem firmes e os bancos preservarem suas margens, os pagamentos poderão continuar altos.

No entanto, se o ciclo das commodities entrar em queda ou se a necessidade de investimentos em ativos fixos (capex) aumentar, o crescimento dos dividendos deverá se moderar.

O papel da mineração

Segundo Santos, o papel da mineração mostra que o dividendo latino-americano continua intimamente ligado ao ciclo das matérias-primas.

Quando há cobre, minério de ferro, lítio ou petróleo, as empresas do setor de recursos naturais geram caixa rapidamente e podem aumentar os pagamentos ordinários ou extraordinários.

Isso favorece mercados como o Brasil, o Chile, o México e o Peru, mas também gera volatilidade.

Ao contrário de um dividendo defensivo, o setor de mineração depende dos preços internacionais, dos custos, da taxa de câmbio, das licenças, da produção e das decisões de investimento.

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“Por isso, não é aconselhável extrapolar o crescimento do primeiro trimestre como uma tendência linear para todo o ano de 2026, pois a região pode continuar sendo atraente em termos de rendimento, mas este apresenta um beta elevado em relação às commodities”, afirmou Santos. “A América Latina oferece bons dividendos quando o ciclo externo é favorável; o desafio, porém, é mantê-los quando os preços das matérias-primas se normalizam.”

Resultados

Os autores do relatório indicam que o primeiro trimestre apresentou uma divergência global entre os dividendos e as recompras de ações.

“Os pagamentos de dividendos se aceleraram, impulsionados pela solidez dos lucros corporativos, enquanto as recompras de ações se moderaram em um contexto de taxas de juros mais altas por mais tempo, incerteza comercial e risco geopolítico”, afirmou a Janus em um comunicado.

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De acordo com o relatório da Janus, os dividendos globais totalizaram US$ 424,5 milhões no primeiro trimestre de 2026, um aumento de 10,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

O crescimento dos dividendos foi generalizado, com aumentos significativos na América do Norte, Europa, Japão e Reino Unido, apesar de um cenário macroeconômico marcado pela incerteza.

Ele explica que, durante o primeiro trimestre, as recompras globais totalizaram US$ 425.700 milhões, um valor ligeiramente superior ao distribuído em dividendos, embora tenham caído 3,1% em relação ao mesmo período do ano anterior.

Janus afirma que isso sugere que as empresas estão se tornando mais seletivas em sua estratégia de retorno de capital.

O relatório indica que a América do Norte manteve sua liderança em termos de remuneração aos acionistas.

As empresas dos Estados Unidos distribuíram US$ 183.500 milhões em dividendos e recompraram ações no valor de US$ 266.700 milhões, consolidando-se como o maior mercado do mundo tanto em dividendos quanto em recompras.

De acordo com o documento, o crescimento dos dividendos nos EUA foi generalizado entre os setores, com destaque para as empresas de tecnologia, serviços financeiros e energia.

Por sua vez, a Europa, excluindo o Reino Unido, distribuiu US$ 67.400 milhões em dividendos durante o primeiro trimestre, um aumento de 35,5% em relação ao ano anterior, impulsionada pelos efeitos da taxa de câmbio e por fatores de calendário.

A Suíça foi o maior contribuinte do continente, com US$ 27.300 milhões, seguida pela Dinamarca, com US$ 9.400 milhões.

A Janus Henderson prevê que os dividendos globais crescerão 8,3% em 2026, enquanto as recompras de ações diminuirão 1,1%.