Do Brasil ao Chile: petróleo pressiona inflação e expõe fragilidades na América Latina

O aumento do preço de combustíveis na região pode agravar a tensão social e pressionar a inflação, afetando os setores de transporte, agricultura e as contas públicas, com consequências variadas, segundo especialistas

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Bloomberg Línea — O aumento do preço do petróleo no mercado internacional começa a se refletir nos preços dos combustíveis na América Latina, com efeitos desiguais sobre a inflação e as finanças públicas, enquanto os governos adotam medidas para conter o descontentamento social.

O preço internacional do petróleo tem um impacto duplo na região, sobretudo nos países exportadores, e seu efeito líquido depende da eficiência na gestão dos subsídios e da estrutura energética de cada mercado.

Em períodos de crescimento, o saldo costuma ser negativo para os importadores líquidos de energia, pois a renda real diminui, a margem de manobra das políticas se estreita e a demanda esfria.

Nas contas públicas, o efeito depende do regime de subsídios.

Nos países que ainda mantêm subsídios, o impacto é atenuado para os consumidores, mas aumenta a pressão sobre as contas públicas.

E nos países onde esses esquemas vêm sendo desmantelados, como a Bolívia e o Equador, o ajuste é mais rápido e visível, mas acarreta maiores riscos para a inflação e o crescimento.

“O impacto pode ser significativo, mas não será uniforme. Na América Latina, o mesmo choque do petróleo pode se traduzir em mais inflação, mais pressão sobre as contas públicas ou uma combinação de ambos, dependendo de como cada país administrar os preços internos dos combustíveis”, disse à Bloomberg Línea o economista do Instituto Internacional de Finanças (IIF), Jonathan Fortun.

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Por um lado, na região, o aumento do preço do petróleo implica maiores receitas fiscais provenientes da venda de petróleo bruto e um maior dinamismo na cadeia produtiva ligada ao setor privado.

No entanto, “novos desafios relacionados ao aumento da demanda por energia e à dependência da geração termoelétrica colocam em risco essa relação devido aos maiores custos de importação de derivados (gasolina e diesel), gerando aumentos nos preços internos, pressões inflacionárias e maiores custos logísticos e agrícolas”, afirmou o ex-vice-ministro da Economia do Equador e pesquisador da ESPOL, José Gabriel Castillo.

A maioria dos países da região depende fortemente da importação de derivados, especialmente devido à reduzida capacidade local de refino de combustíveis.

Os países mais dependentes da importação de derivados de petróleo sofreriam impactos que vão além da influência na cadeia logística e nos custos de transporte.

“Com exceção da Argentina e do Brasil, todos os outros apresentam altos níveis de dependência, apesar de alguns serem importantes exportadores de petróleo”, observou Castillo.

Como resultado, afirma-se que é de se esperar pressões inflacionárias devido ao impacto nos custos de transporte, atenuadas em alguns casos pela vigência total ou parcial de subsídios, bem como em outros setores que utilizam insumos derivados, como é o caso do setor agrícola e dos fertilizantes.

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Medidas para conter inflação

No Brasil, a maior economia regional, o governo anunciou a isenção de impostos federais e a concessão de ajuda financeira aos produtores e importadores de diesel para conter o impacto dos preços do petróleo.

A estratégia do governo brasileiro prevê um investimento de R$ 30 bilhões para reduzir o preço nas bombas em R$ 0,64 por litro.

No México, o Ministério da Fazenda ativou subsídios à gasolina e ao diesel, por meio dos quais o governo mexicano busca mitigar as pressões inflacionárias decorrentes da alta dos preços do petróleo bruto e evitar que esses aumentos sejam repassados ao consumidor.

A presidente Claudia Sheinbaum também assinou um acordo com empresários do setor de postos de gasolina para estabelecer um preço máximo para a gasolina comum e afirmou que também havia um acordo para o diesel.

No entanto, empresários do setor de combustíveis negaram ter aceitado um teto voluntário para o preço do diesel.

Quatro pessoas a par do assunto disseram à Bloomberg Línea que Sheinbaum anunciou unilateralmente um teto de preços.

E no Peru, onde os preços dos combustíveis são determinados com base na oferta e na demanda, o governo anunciou em meados de março que aplicaria sanções às empresas que especularem com os preços.

Na Argentina, o preço dos combustíveis subiu entre 20% e 25% em março, em consequência da guerra no Oriente Médio.

O governo argentino decidiu suspender o aumento do imposto sobre combustíveis previsto para abril, com o objetivo de amenizar o impacto do aumento do preço do petróleo, informou a Secretaria de Energia.

Para conter o impacto do preço dos combustíveis, a Secretaria de Energia do Ministério da Economia também atualizou as especificações técnicas de qualidade das gasolinas, elevando o limite máximo permitido de oxigênio para 5,6%.

No Chile, o governo do presidente José Antonio Kast aumentou o preço da gasolina em cerca de 32% e o do diesel em 62%, o que representa o segundo maior aumento da história do país.

O governo chileno também alterou o prazo para o cálculo dos preços internacionais dos combustíveis, ampliando os parâmetros de 3 para 4 semanas, com o objetivo de absorver os altos custos da energia.

Supressão dos subsídios

Em países que avançaram na redução dos subsídios aos combustíveis, como a Bolívia, o desafio não é apenas o aumento do preço do petróleo, mas o fato de que o país chega a este momento com uma vulnerabilidade energética muito mais profunda do que antes, segundo o economista Jonathan Fortun.

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Ele observou que, embora a Bolívia seja um importador de gasolina, o país possui baixa capacidade de refino, sua produção de petróleo é insignificante e perdeu boa parte da margem de segurança que antes o gás lhe proporcionava.

As reservas de gás diminuíram drasticamente, a exploração praticamente não compensou essa queda e o país já não conta com a vantagem externa que as exportações para o Brasil e a Argentina outrora representavam.

O Equador eliminou o subsídio ao diesel, mas implementou um sistema de faixas que permite um aumento de 5% e uma redução de 10% no preço de venda ao consumidor, de acordo com o preço internacional do combustível.

No cenário atual, “com os preços do diesel chegando ao dobro dos níveis registrados antes do conflito e com dificuldade em repassar esse custo ao consumidor, o impacto fiscal será significativo”, segundo José Gabriel Castillo, ex-vice-ministro da Economia do Equador.

Aumento dos preços

“O aumento do preço da gasolina raramente se limita apenas à gasolina”, observou Fortun. “Nas economias latino-americanas, o choque se propaga rapidamente por pelo menos três canais”.

O primeiro canal é o transporte, uma vez que o aumento dos custos de frete, distribuição e mobilidade se reflete rapidamente no restante da economia.

A segunda via de transmissão é a dos alimentos, pois o preço final desses produtos incorpora o custo dos combustíveis em quase todas as etapas: frete, cadeia de frio, maquinário agrícola, distribuição atacadista e varejista.

E o terceiro canal é o logístico, na medida em que o comércio, a indústria e os serviços enfrentam custos operacionais mais elevados, e parte desses custos acaba sendo repassada ao consumidor.

“A gasolina não move apenas carros; ela move toda a estrutura de custos de uma economia, especialmente na América Latina”, observou Fortun, economista do Instituto Internacional de Finanças.

Em países com bancos centrais confiáveis e expectativas relativamente estáveis, o impacto pode ser mais limitado e passageiro.

Mas em economias mais frágeis, com um pass-through cambial elevado ou com tensões fiscais, o risco é que o choque se torne mais persistente.