Derrota de Orbán, próximo de Trump e Putin, abre caminho para nova era na Hungria

Partido Tisza, de Peter Magyar, caminha para conquistar supermaioria no Parlamento e promete desmantelar o sistema iliberal construído por Orbán em 16 anos; vitória deve desbloquear € 90 bilhões em fundos europeus vetados pelo premier e reaproximar o país da União Europeia

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Bloomberg — Um partido de oposição húngaro destituiu o primeiro-ministro Viktor Orbán após 16 anos no poder em uma eleição histórica que vai redefinir a relação do país com a União Europeia, a Rússia e o governo do presidente americano Donald Trump.

O partido Tisza, de Peter Magyar, caminhava para conquistar uma supermaioria no Parlamento que lhe permitirá cumprir promessas ambiciosas de desmantelar o sistema “iliberal” criado por Orbán. O Tisza tinha 69% dos mandatos parlamentares, contra 28% do Fidesz de Orbán, segundo o Escritório Eleitoral de Budapeste, com 90% dos votos apurados.

“Juntos desmantelamos o sistema Orbán”, disse Magyar a apoiadores eufóricos num palco às margens do Danúbio, com o parlamento iluminado ao fundo. “Vamos libertar a Hungria e reconquistar o nosso país.”

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Orbán reconheceu a derrota e disse a apoiadores que o resultado foi “doloroso”. Afirmou ter parabenizado Magyar pela vitória. O forint estendeu uma valorização de meses frente ao euro e atingiu o nível mais alto em três anos.

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Magyar, um ex-integrante do partido governante de 45 anos, mobilizou o país nos últimos dois anos com sua mensagem de mudança diante de um regime cada vez mais autoritário.

Conforme os resultados chegavam, motoristas buzinavam em comemoração às margens do Danúbio em Budapeste, enquanto foliões tomavam as ruas.

Golpe para Trump e Putin

O resultado é um revés para Trump e para o presidente russo Vladimir Putin, que buscavam manter no poder o primeiro-ministro há mais tempo no cargo na União Europeia. Trump endossou Orbán repetidamente e enviou o vice-presidente JD Vance a Budapeste para fazer campanha por ele poucos dias antes da votação.

O desfecho também marca uma derrota para o campo nacionalista na Europa, para o qual Orbán foi um pioneiro e a força motriz por trás do partido Patriotas, atualmente o terceiro maior no Parlamento Europeu.

Mas foi um grande alívio para a União Europeia, que por anos enfrentou dificuldades para superar o obstrucionismo de Orbán. Putin dependia do líder húngaro para semear divisões no bloco, bloquear a ajuda à Ucrânia e enfraquecer as sanções contra Moscou.

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A saída de Orbán deve agora abrir caminho para a liberação de € 90 bilhões em assistência que Kiev precisa com urgência para se manter na guerra, após mais de quatro anos de invasão em larga escala da Rússia.

“A Hungria escolheu a Europa”, disse a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, no X. “A Europa sempre escolheu a Hungria. Juntos, somos mais fortes.”

Magyar promete desmantelar sistema de Orbán

Mas é na Hungria — outrora um exemplo da transição do comunismo para a democracia de mercado, onde Orbán é uma figura política de proporções quase míticas — que o impacto das eleições de domingo será sentido de forma mais intensa.

Magyar soube canalizar a crescente indignação com o clientelismo, a estagnação econômica e a rápida deterioração dos serviços públicos para desafiar e, por fim, quebrar o domínio do governante há mais tempo no cargo na UE.

Orbán passou de líder estudantil liberal e anticomunista nos anos 1980 a primeiro-ministro de centro-direita e conservador pela primeira vez em 1998, aos 34 anos. Após perder o poder em 2002, voltou ao cargo em 2010 como um nacionalista pró-Kremlin com a missão de erradicar a democracia liberal.

Magyar fez campanha com a promessa de não apenas derrubar o ícone populista do movimento MAGA, mas de destruir seu sistema.

Grande parte de seu impulso agora depende de cumprir essa promessa — tarefa que se torna mais viável com o Tisza aparentemente tendo superado o limiar de 133 cadeiras para obter maioria de dois terços no parlamento.

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Magyar afirmou que a dominância parlamentar do Tisza tornaria as mudanças planejadas “muito mais pacíficas e tranquilas.”

Mas ele também vai herdar parte dos desafios econômicos que contribuíram para a queda de Orbán e que foram agravados pela sequência de gastos pré-eleitorais do premier — que incluiu isenção vitalícia de imposto de renda para mães e aumentos em pensões e salários.

O governo acumulou um déficit de caixa de 3,4 trilhões de forints (US$ 10,6 bilhões) no primeiro trimestre, um recorde para o período. Magyar terá de tomar medidas urgentes para cortar o orçamento e evitar que a classificação de crédito soberano da Hungria seja rebaixada para grau especulativo.

Magyar disse que vai pedir ao presidente Tamas Sulyok — aliado de Orbán — que reduza o prazo de 30 dias para a formação do novo parlamento, a fim de acelerar a transição de poder. Ele manifestou preocupação de que a legislatura ainda dominada pelo Fidesz possa aprovar leis para dificultar seu governo.

O líder da oposição prometeu afastar os principais aliados de Orbán, como o presidente, os principais juízes, o procurador-geral e os chefes de diversas agências reguladoras.

Também planeja aprovar uma nova constituição, mudar as regras eleitorais — amplamente vistas como favoráveis ao Fidesz — e suspender a cobertura jornalística da mídia pública, transformada por Orbán em porta-voz do governo, até que seja restaurada uma cobertura política equilibrada.

Essas mudanças são necessárias para devolver a Hungria ao mainstream europeu e libertar sua esfera política e econômica da influência do Fidesz, disse Magyar no domingo, após votar.

Reaproximação com a UE

A supermaioria no Parlamento também deve ajudar um governo Magyar a aprovar legislação-chave para desbloquear parte dos mais de US$ 20 bilhões em fundos europeus retidos do governo Orbán por preocupações com o Estado de direito e corrupção — e que um orçamento com as contas apertadas precisa com urgência.

Entre as medidas necessárias estão a aprovação de leis anticorrupção, a cooperação com o escritório do procurador-geral da UE e a restauração das liberdades de imprensa e acadêmica.

Magyar prometeu introduzir um limite de dois mandatos para primeiros-ministros, para evitar que a Hungria volte a um governo autoritário — o que, segundo ele, impediria Orbán, que cumpriu quatro mandatos consecutivos e cinco no total, de concorrer novamente ao cargo.

A perspectiva de distensão com a UE — e a possibilidade de um governo Magyar vir a adotar o euro, algo que Orbán sempre recusou — alimentou uma valorização do forint e dos títulos húngaros meses antes do pleito.

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O próprio Orbán havia se valido de uma supermaioria desde 2010 para aprovar uma nova Constituição e novas regras eleitorais sem apoio da oposição, além de estender sua influência a todas as esferas da vida pública, dos tribunais às salas de reunião e às salas de aula.

No processo, atacou minorias — notadamente a comunidade LGBTQ+ e imigrantes — e perseguiu jornalistas e a sociedade civil independente, em táticas amplamente vistas como inspiradas no manual do Kremlin.

Magyar, que se define como conservador de centro-direita, reuniu liberais e eleitores descontentes do Fidesz sob a bandeira do Tisza. Também fez o que outros partidos de oposição não conseguiram: conquistar o interior do país por meio de uma campanha incansável que o levou até as menores aldeias — antes redutos do Fidesz, onde o Tisza obteve grandes avanços no domingo.

Magyar se concentrou em responder às preocupações econômicas dos húngaros, incluindo a crise no custo de vida, na educação e na saúde. Também prometeu responsabilizar altos funcionários pelo que é visto como a apropriação de ativos do Estado, que levou à criação de uma nova classe de super-ricos com conexões políticas, incluindo familiares e amigos de Orbán.

A Hungria caiu para a última posição entre os países da UE no ranking de corrupção da organização Transparência Internacional.

Para a UE, a iminente mudança na Hungria não poderia chegar em melhor hora. Orbán apresentou Magyar como fantoche do bloco e se opôs à ajuda à Ucrânia, que vetou no mês passado. Também chamou a Ucrânia de inimiga, ecoando a estratégia da Rússia, que invadiu o vizinho húngaro em 2022.

“Vamos unir forças por uma Europa forte, segura e, acima de tudo, unida”, disse o chanceler alemão Friedrich Merz no X.

Magyar prometeu melhorar as relações com a UE e com membros-chave como Alemanha e Polônia, e afrouxar os laços com a Rússia — incluindo a revisão da polêmica expansão da usina nuclear de Paks, conduzida pelo governo Orbán em parceria com a estatal russa Rosatom.

Ao mesmo tempo, Magyar estabeleceu um prazo longo, que se estende pela próxima década, para reduzir a dependência do país do petróleo e gás russos, a despeito de um plano da UE para cortar mais rapidamente a dependência energética de Moscou.

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