De refúgio a cidade isolada: a saga de turistas retidos em Dubai após ataques do Irã

De hub global inabalável a ‘ilha’ isolada, a metrópole do luxo vê seu turismo de bilhões de dólares ser paralisado por ataques de drones do Irã e fechamento do espaço aéreo

Por

Bloomberg — Era para ser um retiro corporativo sofisticado, uma recompensa para os colegas e suas famílias passarem alguns dias ensolarados em Dubai, longe do inverno rigoroso na Alemanha e na Polônia.

A escapada de uma semana para Filip Sobiecki, que trabalha em uma startup de IA na Polônia, e sua comitiva de 18 pessoas, porém se transformou em uma provação desesperada para voltar a Varsóvia e Munique. Isso porque a maior parte do espaço aéreo da região foi fechado quando o Irã disparou uma barragem de drones e mísseis.

Com o voo da LOT Polish Airlines cancelado, Sobiecki considerou a possibilidade de usar um jato particular. Descobriu que o custo quadruplicou, pois as pessoas que estavam presas na cidade queriam sair.

Leia também: Ataque de Trump ao Irã replica erros da invasão de Bush ao Iraque, em 2003

Depois que o espaço aéreo foi fechado, ele pensou em outros planos. Operadores de iate poderiam levás-lo a Mumbai, na Índia, e, em seguida, motoristas de caminhão blindado transportariam o grupo até as proximidades de Omã, onde pegariam uma carona em um jato corporativo para Istambul e depois seguiriam viagem.

No final, todos esses cenários fracassaram, e o executivo entendeu que estava na mesma situação de dezenas de milhares de visitantes de Dubai.

Preso em uma cidade que construiu a reputação de ser um gateway global confiável e omnidirecional 24 horas por dia, 7 dias por semana.

Ou seja, uma máquina bem lubrificada que bombeia incessantemente pessoas, aviões e produtos para dentro e para fora - mesmo em tempos difíceis, seja durante a pandemia ou a guerra na Ucrânia.

A salva de mísseis e drones do Irã, alguns dos quais danificaram marcos de Dubai, como o principal terminal do aeroporto e o icônico hotel Burj Al Arab, em forma de vela, alteraram drasticamente essa dinâmica.

Leia também: ‘Pior pesadelo’: ataques do Irã fecham escolas e afetam principal aeroporto de Dubai

De repente, Dubai se tornou uma ilha da qual não havia como escapar, com voos cancelados, o espaço aéreo fechado e os movimentos por mar severamente restritos.

“Tínhamos a suposição de que seria um tempo maravilhoso que passaríamos juntos”, afirmou Sobiecki, do seu quarto de hotel na Marina de Dubai de onde ele relatou ter ouvido várias explosões e sentido o prédio tremer.

“De repente, houve um estrondo no céu, provavelmente um desses foguetes foi interceptado, e foi lá que decidimos ficar.”

A experiência angustiante de Sobiecki abalou a reputação que Dubai construiu como um refúgio de estabilidade, turismo laissez-faire e exibição ostensiva de sucesso em uma região que lida com o seu quinhão de conflitos políticos e agitação.

A metrópole do Oriente Médio é conhecida por seu horizonte ultramoderno, infinitas oportunidades de compras e retiros de luxo na praia que atraíram quase 20 milhões de visitantes internacionais pernoitantes no ano passado, de acordo com dados do Departamento de Economia e Turismo de Dubai.

Essa média é de mais de 50.000 visitantes por dia, embora as chegadas nos meses de pico do inverno sejam significativamente maiores.

A demanda do consumidor nos Emirados Árabes Unidos está entre as mais expostas no Golfo Pérsico à guerra entre os EUA e o Irã, devido à forte dependência do turismo e de uma economia liderada por expatriados, disse Rami Abi-Samra, analista da Bloomberg Intelligence. Viagens e turismo contribuíram com cerca de 13% do PIB dos Emirados Árabes Unidos em 2025, de acordo com a Statista.

“Os preços mais altos do petróleo podem apoiar os orçamentos regionais, mas o mix de visitantes e expatriados dos Emirados Árabes Unidos torna o impacto de curto prazo mais acentuado”, escreveu Abi-Samira.

O setor hoteleiro de Dubai conta com 154.264 quartos em mais de 800 propriedades, superando Bangcoc, Nova York, Paris e Cingapura, e quase igualando Londres em termos de estoque total de quartos, de acordo com o Departamento de Economia e Turismo de Dubai. A ocupação média dos hotéis em Dubai ultrapassou 80% em 2025.

Muitos dos visitantes agora retidos vêm da Rússia, que ainda desfruta de um vibrante intercâmbio de viajantes com Dubai.

Uma parte significativa desses turistas estava na cidade para as férias escolares de meio de ano, e a Associação de Operadoras de Turismo da Rússia calcula que o número total de russos atualmente nos Emirados Árabes Unidos é de cerca de 50.000.

Cerca de 20.000 pessoas encontram-se agora impedidas de partir à medida que suas férias se aproximam do fim, de acordo com a associação.

Os Emirados Árabes Unidos anunciaram que cobrirão todos os custos de hospedagem e atendimento aos viajantes afetados, informou o jornal Khaleej Times, com sede nos Emirados Árabes Unidos, no final do sábado.

No normalmente movimentado Aeroporto de Dubai, o caos inicial deu lugar a um silêncio assustador, depois que as dezenas de milhares de viajantes saíram dos prédios e voltaram para a cidade.

Os aviões superjumbo Airbus SE A380 operados pela Emirates estavam parados em seus saguões de embarque, um dos quais havia sido levemente danificado durante a noite durante um suposto ataque aéreo que deixou alguns funcionários feridos.

Entre os que foram pegos pelo caos estava George Koshy, um empresário de tecnologia e comunicações baseado nos EUA. Ele estava voltando de Mumbai via Dubai quando seu voo teve que ser desviado para o Afeganistão, retornando a Dubai após vários desvios.

Seu A380-800 carregado com mais de 500 passageiros aterrissou de volta no terminal de Dubai, de onde havia partido apenas algumas horas antes, disse Koshy.

Embora ele tenha elogiado a forma como a Emirates atendeu aos passageiros retidos, colocando-os em hotéis, ainda há uma sensação de incerteza que pesa sobre todos, disse ele.

“Nas áreas centrais do distrito de Dubai, as autoridades hoteleiras foram solicitadas a desligar as luzes à noite em meio a ataques de mísseis e drones”, disse ele. Ainda preso em Dubai, Koshy disse que não poderá se encontrar com sua família em Los Angeles até que as tensões diminuam.

A rapidez com que Dubai poderá voltar ao normal e atrair novamente turistas e viajantes a negócios dependerá em grande parte da duração dos ataques do Irã e do fechamento dos aeroportos.

Ekaterina Zamyatova, proprietária de uma escola particular de Moscou, disse que chegou na semana passada com seu marido e filho em um pacote turístico organizado. Hospedada no Le Royal Meridien, na área do Jumeirah Beach Residence, em Dubai, ela deveria voltar para Moscou no domingo, mas seu voo da Aeroflot foi cancelado.

O hotel concordou em prolongar um pouco sua estadia, mas quando a empresa de turismo organizadora não conseguiu providenciar alternativas, Zamyatova teve que encontrar acomodação por conta própria.

“Voltaremos de qualquer maneira”, disse Zamyatova. “Adoramos Dubai e essa situação não afetará nossos planos futuros de viajar para cá, desde que a paz seja restaurada.”

-- Com a colaboração de Adveith Nair, Omar El Chmouri e Fiona MacDonald.

Veja mais em bloomberg.com

Leia também:

Ofensiva de Trump com Israel mira elo entre Irã, China e Rússia, dizem especialistas