Como o ataque ao Irã coloca a agenda de Trump à prova em meio à queda de aprovação

Especialistas veem aposta de alto risco que pode fortalecer ou comprometer o capital político de Trump às vésperas das eleições de meio de mandato; ofensiva ocorre após pesquisas indicarem queda em sua aprovação nos EUA

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Bloomberg — A ofensiva conduzida por Estados Unidos e Israel contra Teerã, na madrugada deste sábado (28), sinaliza um ponto de virada para o presidente Donald Trump, que calcula que um conflito — embora tenha prometido não iniciar novas guerras — possa impulsionar sua agenda no segundo mandato.

Em contraste com o compromisso de campanha de manter os Estados Unidos fora de guerras no exterior, Trump optou pelo ataque apesar do que mediadores árabes classificaram como um avanço relevante nas negociações nucleares com Teerã e em meio a pesquisas que indicam que a maioria dos americanos rejeita uma nova ação militar.

A decisão ocorre menos de dois meses depois de ele ter autorizado uma operação militar de alto risco dos EUA na Venezuela, movimento que sinaliza uma inclinação maior de seu segundo mandato para intervenções no exterior.

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Os ataques ao Irã constituem, até agora, a aposta mais significativa do presidente, cujos índices de aprovação caíram nas últimas semanas. Levantamentos mostram que parte do eleitorado avalia que ele tem priorizado excessivamente a política externa em detrimento da economia.

Projeções indicam que os republicanos podem perder a Câmara dos Deputados nas eleições de meio de mandato em novembro, enquanto o cenário para o Senado permanece indefinido.

Os Estados Unidos bombardearam pelo menos sete países desde que Donald Trump retornou ao cargo, mas nenhuma dessas operações teve a dimensão da mais recente.

A ofensiva aprofunda o foco do presidente em política externa em detrimento de temas domésticos como inflação e custo de vida, além de atrelar ainda mais seu destino político a eventos que escapam ao seu controle.

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“Pode muito bem ser que isso seja algo atraente para Donald Trump, que está enfrentando muitos problemas em casa”, afirmou Paul Musgrave, especialista em política externa dos EUA na Universidade de Georgetown, em Doha, ao mencionar líderes que recorrem a guerras no exterior para reforçar apoio interno.

“Dada a quantidade de elogios que ele recebeu pelo lado militar da Venezuela, que foi um dos poucos pontos positivos para ele nos últimos meses, ele pode estar tentando recuperar isso em um nível mais amplo.”

Guerras frequentemente acabam definindo presidências americanas de maneira imprevista. O Vietnã marcou o mandato de Lyndon Johnson, e o Iraque passou a simbolizar o de George W. Bush.

Mesmo vitórias claras no campo de batalha não garantem retorno político: o triunfo rápido na Guerra do Golfo, em 1991, não foi suficiente para assegurar a reeleição de George H. W. Bush quando o debate eleitoral se concentrou na economia.

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Trump “de repente parece estar preparando o povo americano para um conflito mais longo e sangrento”, disse Musgrave. “Se ele estiver pensando em algo mais prolongado, com efeito diversionista, isso pode acabar sendo muito ruim para ele no longo prazo.”

Baixas americanas

Antes de assumir o cargo, o próprio Trump advertiu repetidamente que presidentes poderiam recorrer a ataques ao Irã para salvar mandatos em dificuldade.

“Para ser eleito, @BarackObama iniciará uma guerra com o Irã”, escreveu ele no Twitter em 2011.

No ano seguinte, previu que Obama “atacaria o Irã para ser reeleito” e, em 2013, afirmou esperar um ataque para “salvar a pele”. Mais tarde naquele ano, declarou que “o presidente Obama atacará o Irã por causa de sua incapacidade de negociar adequadamente — não por sua habilidade!”.

No sábado, Trump reconheceu que “vidas de corajosos heróis americanos podem ser perdidas, e podemos ter baixas”.

Além disso, os preços do petróleo — que já acumulam alta de quase 20% neste ano, em grande parte devido ao impasse entre EUA e Irã — podem avançar quando os mercados asiáticos abrirem na segunda-feira, o que significaria gasolina mais cara para os consumidores americanos.

O vice-presidente JD Vance, antes crítico de intervenções no exterior, rejeitou a possibilidade de uma campanha prolongada. “Não há nenhuma chance de estarmos em uma guerra no Oriente Médio por anos sem fim à vista”, afirmou na quinta-feira, antes do início dos ataques.

Ainda assim, diversos analistas militares sustentam que uma eventual mudança de regime no Irã dificilmente seria alcançada rapidamente apenas por meio de ataques aéreos — e talvez nem seja viável.

Dentro do governo, integrantes de alto escalão defendem há tempos que a diplomacia não seria suficiente para conter as ambições nucleares de Teerã, apesar das negativas iranianas de que buscaria construir uma arma.

Fora da Casa Branca, republicanos mais alinhados a uma postura dura, como o senador Lindsey Graham, têm defendido abertamente uma ação militar decisiva, vista como oportunidade histórica para enfraquecer as capacidades iranianas e remover a República Islâmica, adversária dos EUA há quase cinco décadas.

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No centro desse debate está o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu, que transformou a contenção do Irã em eixo central de sua trajetória política.

Desde que voltou ao poder, há 13 meses, Trump tem atuado em sintonia com Netanyahu, apesar das reservas de parte de sua base. Ele chegou a defender o líder israelense em seu julgamento por suborno, classificando-o como excepcional em tempos de guerra — posição que gerou desconforto entre aliados e evidenciou divisões na direita sobre Israel e a perspectiva de conflito com o Irã.

“Os Estados Unidos estão caminhando para uma grande guerra, uma verdadeira guerra com o Irã, uma guerra de mudança de regime, a maior desde a invasão do Iraque na primavera de 2003”, afirmou o comentarista conservador Tucker Carlson na semana passada.

“E Israel está conduzindo isso. Estamos fazendo isso a mando, a pedido do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu.”

Alguns aliados dos EUA também questionaram os ataques. O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, declarou que Washington está “operando em grande parte fora da lei internacional tradicional”, em entrevista exibida no sábado pela emissora pública YLE.

O custo da escalada não é apenas político. As barragens de mísseis do Irã contra Israel no ano passado consumiram grandes volumes de interceptadores.

Estima-se que as forças americanas tenham utilizado cerca de 150 mísseis THAAD nesse confronto, quase um quarto do estoque dos EUA, segundo o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Os cálculos de Washington e de Israel podem ter sido influenciados pelos protestos em massa que abalaram o Irã em dezembro e janeiro. As manifestações representaram a maior ameaça à República Islâmica desde 1979 e evidenciaram amplo descontentamento popular.

Há a possibilidade de que Trump esteja adotando estratégia semelhante à empregada na Venezuela — tentar desarticular o sistema removendo sua cúpula e deixando a estrutura restante intacta, sob a aposta de que isso não exigirá dos EUA responsabilidade direta pelo que vier depois.

Ainda assim, derrubar o regime em um país de 90 milhões de habitantes, com forças de segurança armadas e consolidadas e forte controle sobre a dissidência, é tarefa complexa. Embora os protestos recentes tenham demonstrado impopularidade do governo, há precedentes de união nacional diante de ameaças externas.

“Este é um momento existencial para os governantes da República Islâmica do Irã, e sua base ideológica e de segurança está agora preparada para uma guerra contínua contra os EUA e Israel”, disse Ellie Geranmayeh, membro sênior de políticas do Conselho Europeu de Relações Exteriores.

“Isso abriu imediatamente a porta para o caos regional, com contra-ataques generalizados do Irã em andamento.”

--Com a ajuda de Ethan Bronner, Gerry Doyle, Kirsi Heikel e Golnar Motevalli.

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