Como a Espanha se tornou um ‘trampolim’ de expansão das multinacionais de LatAm

Um estudo do Conselho Empresarial Aliança pela Ibero-América indica que o país se tornou a segunda principal plataforma global das multinacionais na América Latina, concentrando 61% do investimento latino-americano direcionado à Europa

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Empresas latino-americanas têm recorrido cada vez mais à Espanha como porta de entrada para expandir suas operações na Europa, na Ásia e no Oriente Médio, reforçando o papel do país como uma das principais plataformas globais de internacionalização corporativa, segundo novo estudo do Conselho Empresarial Aliança pela Iberoamérica (CEAPI).

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O relatório, que se concentra na arquitetura real dos investimentos empresariais — e não apenas nos fluxos financeiros agregados — conclui que a Espanha se tornou a segunda principal plataforma mundial utilizada por empresas latino-americanas para se projetar em mercados terceiros, atrás apenas dos Estados Unidos.

Além desse posicionamento global, o peso espanhol também aparece nos fluxos de capital birregionais. Em 2023, 52% do investimento europeu na América Latina teve origem na Espanha. Já em 2024, 61% do investimento estrangeiro direto latino-americano direcionado à Europa concentrou-se no país, consolidando-o como principal porta de entrada para o mercado da União Europeia.

A investigação mostra que muitas multinacionais da região não investem diretamente em seus destinos finais. Antes disso, criam filiais intermediárias em territórios que oferecem vantagens institucionais, culturais ou logísticas. Nesse arranjo, a Espanha atua como um nó operacional privilegiado.

Relatórios anteriores já haviam destacado seu papel nos fluxos de investimento entre Europa e América Latina.

A novidade desta edição é a análise da estrutura interna dessas operações, incluindo as relações de propriedade entre matrizes e filiais, os países intermediários e os destinos finais do capital.

Essa abordagem permite confirmar algo mais ambicioso: o país não funciona apenas como mercado receptor ou emissor de investimentos, mas como plataforma organizacional capaz de reconfigurar a expansão global das multilatinas.

O salto já não é apenas em direção à Europa

Uma das conclusões mais relevantes do estudo é a mudança na geografia de destino. As empresas latino-americanas que se instalam na Espanha não o fazem apenas para operar no mercado europeu.

Cada vez mais, utilizam o país como base para acessar economias avançadas da Ásia-Pacífico, mercados do Oriente Médio com forte dinamismo de investimento e centros financeiros globais ligados à inovação tecnológica e a serviços especializados.

Esse padrão reflete uma estratégia mais ambiciosa de internacionalização, na qual empresas da região recorrem a plataformas intermediárias para reduzir riscos regulatórios, culturais e operacionais antes de avançar para mercados mais complexos ou distantes.

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Quais empresas estão por trás do fenômeno

Outra contribuição relevante do relatório é identificar o perfil das companhias que adotam o chamado “modelo trampolim”.

O estudo destaca o protagonismo de grandes grupos multinacionais latino-americanos — as chamadas multilatinas — que migraram de uma estratégia predominantemente regional para uma lógica de atuação global.

Essas empresas compartilham características como a inserção em cadeias de valor globais mais sofisticadas, a diversificação geográfica para reduzir a exposição à volatilidade doméstica e a criação de estruturas corporativas mais complexas, com sedes regionais intermediárias.

O levantamento também aponta a origem geográfica das matrizes que lideram essas estruturas internacionais. O Brasil concentra 28,5% das matrizes investidoras globais, seguido pela Colômbia (12,1%) e pelo México (9,0%), que juntos respondem por quase metade das companhias que operam por meio de redes internacionais de filiais.

Na sequência aparecem Argentina (7,7%), Peru (5,6%) e Venezuela (5,4%). Panamá (7,8%) e Chile (7,1%) chamam atenção por apresentarem presença relativa superior à sugerida pelo tamanho de suas economias. Equador (4,5%) e Uruguai (3,9%) também integram essas redes corporativas globais.

A pesquisa descreve, assim, a consolidação de um novo perfil empresarial: companhias “multiberoamericanas”, com presença simultânea na América Latina, na Europa e em outros polos econômicos.

Conhecimento e controle corporativo

O relatório indica que o papel da Espanha não se explica apenas por sua posição geográfica ou por sua infraestrutura logística.

As filiais estabelecidas no país exercem funções estratégicas dentro das redes empresariais globais, como coordenação regional, gestão de informações institucionais, supervisão de investimentos e transferência de conhecimento entre mercados.

Dessa forma, a Espanha deixa de ser apenas um ponto de trânsito financeiro para se afirmar como centro organizador nas estruturas de poder corporativo internacional.

Compreender o mecanismo

A principal contribuição desta edição não é apenas reafirmar que a Espanha atua como ponte, mas detalhar como esse mecanismo funciona.

O estudo documenta pela primeira vez a geografia completa das cadeias de propriedade, os papéis desempenhados pelas subsidiárias trampolim e os destinos finais do investimento latino-americano em um contexto econômico cada vez mais multipolar.

Paralelamente, o estoque de investimento externo da América Latina multiplicou-se por mais de 16 desde o início do século XXI, refletindo a transformação estrutural do processo de internacionalização empresarial na região.