Colômbia ativa plano de defesa em fronteira após ataques dos EUA à Venezuela

O governo colombiano informou que reforçou a defesa na fronteira e ativou um plano de contingência diante do risco de um fluxo migratório mais intenso após os ataques dos EUA à Venezuela

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Bloomberg Línea — Uma série de ataques abalou Caracas na madrugada deste sábado (3), em uma ofensiva militar que marcou uma escalada abrupta do conflito entre os Estados Unidos e a Venezuela e provocou reações imediatas de vários governos em todo o mundo.

Horas após os atentados e relatos de explosões em áreas militares da capital venezuelana, o presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que seu governo realizou “um ataque bem-sucedido em grande escala contra a Venezuela” e disse que o presidente Nicolas Maduro e sua esposa, Cilia Flores, foram capturados e levados para fora do país.

O presidente Gustavo Petro informou que o governo colombiano organizou um Conselho de Segurança Nacional às 3h da manhã, e ordenou a mobilização das forças de segurança e capacidades de assistência na fronteira, no caso de um possível influxo maciço de refugiados.

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Ele também confirmou que a embaixada da Colômbia na Venezuela continua ativa para atender às solicitações de assistência dos cidadãos colombianos naquele país.

“Como membros do Conselho de Segurança das Nações Unidas, buscamos convocar o Conselho. O governo da Colômbia rejeita a agressão contra a soberania da Venezuela e da América Latina”, disse Petro, reiterando que os conflitos internos devem ser resolvidos pacificamente e sob o princípio da autodeterminação dos povos, a base do sistema das Nações Unidas.

Petro alertou nas primeiras horas sobre um ataque em andamento e imediatamente pediu a ativação dos principais órgãos multilaterais.

“Neste momento, eles estão bombardeando Caracas. Alerto o mundo inteiro: eles atacaram a Venezuela. Estão bombardeando com mísseis. A OEA e a ONU devem se reunir imediatamente“, escreveu Petro em sua conta oficial no X, enquanto os moradores da capital venezuelana relatavam fortes explosões, sobrevoos de aeronaves e falta de energia em diferentes setores da cidade.

Horas depois, o governo colombiano emitiu uma declaração mais ampla em que expressou sua “profunda preocupação” com os relatos de explosões e atividades aéreas incomuns no território venezuelano.

Na declaração, a Colômbia reiterou sua adesão aos princípios da Carta da ONU, em particular o respeito à soberania, à integridade territorial e à proibição do uso da força, e rejeitou “qualquer ação militar unilateral que possa agravar a situação ou colocar a população civil em risco”.

A administração Petro também informou que havia ativado medidas preventivas para proteger a população civil e preservar a estabilidade na fronteira comum, bem como para atender a possíveis necessidades humanitárias ou migratórias.

Ao mesmo tempo, ele confirmou que o Posto de Comando Unificado foi ativado em Cúcuta e que o plano operacional na fronteira foi colocado em prática.

Em uma segunda mensagem, o líder colombiano enfatizou que a recente participação da Colômbia no Conselho de Segurança da ONU exigia uma resposta imediata do órgão.

“A Colômbia, desde ontem, é membro do Conselho de Segurança da ONU, que deve ser convocado imediatamente. Estabeleça a legalidade internacional da agressão contra a Venezuela”, escreveu ele.

Venezuela confirma ataque militar

De Caracas, o governo de Nicolás Maduro respondeu com uma declaração na qual descreveu os eventos como uma “agressão militar muito grave” atribuída ao governo dos EUA.

De acordo com o texto, os ataques teriam atingido instalações civis e militares em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, o que, na opinião do governo venezuelano, constitui uma violação flagrante da Carta das Nações Unidas.

“O objetivo desse ataque não é outro senão se apoderar dos recursos estratégicos da Venezuela, em particular seu petróleo e minerais, tentando quebrar a independência política da nação pela força. Eles não terão sucesso”, diz a declaração divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores da Venezuela por meio da conta do Telegram do ministro das Relações Exteriores, Yván Gil.

Segundo ele, a agressão ameaça a paz e a estabilidade na América Latina e no Caribe e coloca em risco a vida de milhões de pessoas.

O governo venezuelano também anunciou a ativação de mecanismos excepcionais de defesa. O documento informa que Nicolás Maduro assinou um decreto para declarar estado de comoção externa em todo o território nacional, com o objetivo de proteger a população e garantir o funcionamento das instituições.

O comunicado afirma que foi ordenada a implantação do Comando para a Defesa Integral da Nação e dos órgãos de liderança em todos os estados e municípios do país.

A Venezuela afirmou que se reserva o direito de exercer a autodefesa e invocou o artigo 51 da Carta da ONU.

O governo venezuelano conclamou os povos e governos da América Latina, do Caribe e do resto do mundo a se mobilizarem em solidariedade diante do que descreveu como agressão imperial e anunciou que apresentará queixas ao Conselho de Segurança da ONU, ao Secretário-Geral da ONU, à Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos e ao Movimento dos Não-Alinhados.

Ele também apresentou formalmente o caso ao Conselho de Segurança da ONU.

Em uma carta enviada de Nova York ao presidente do órgão, o representante permanente da Venezuela denunciou que as forças militares dos EUA realizaram “ataques armados brutais, injustificados e unilaterais” durante a madrugada de 3 de janeiro, por meio de bombardeios em Caracas e nos estados de Miranda, Aragua e La Guaira, bem como operações de helicópteros e aviões em diferentes partes do território nacional.

Na carta, Caracas argumentou que os eventos constituem uma violação flagrante do Artigo 2(4) da Carta da ONU, que proíbe o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política dos Estados, e solicitou a convocação urgente de uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para discutir o que descreveu como um “ato de agressão” contra a República Bolivariana da Venezuela.

Ataques nas primeiras horas da manhã

Enquanto isso, nas ruas de Caracas, os moradores relataram fortes explosões em áreas estratégicas a partir das duas horas da manhã.

Colunas de fumaça foram vistas de instalações como Fuerte Tiuna e a base aérea de La Carlota, de acordo com testemunhos de diferentes partes da cidade.

Vizinhos em Altamira e ao redor do Helicoide relataram cortes totais ou parciais de energia, enquanto sirenes antiaéreas foram ouvidas nas proximidades do Palácio de Miraflores.

Na área costeira de La Guaira e em setores como Higuerote, os moradores conseguiram registrar em vídeo explosões em instalações militares, imagens que foram amplamente divulgadas nas redes sociais durante a madrugada.

Até mesmo o Cuartel de la Montaña, onde repousam os restos mortais do falecido Hugo Chávez, foi registrado como um dos locais atingidos.

O ministro da Defesa da Colômbia, Pedro Arnulfo Sánchez, informou que o governo ativou mecanismos de coordenação e resposta na fronteira com a Venezuela, de acordo com as instruções dadas pelo presidente Petro.

Ele explicou que o Posto de Comando Unificado em Cúcuta e o plano de fronteira foram estabelecidos com foco humanitário, dado o risco de novas pressões migratórias derivadas da escalada da tensão no país vizinho.

O funcionário disse ainda que as autoridades colombianas elevaram os níveis de alerta das forças de segurança na área de fronteira, com o objetivo de antecipar possíveis ameaças à segurança.

“Todas as capacidades das forças de segurança foram alertadas e ativadas para antecipar e neutralizar qualquer tentativa de ataque terrorista por parte do cartel do ELN ou de outros grupos armados organizados ilegais que cometam crimes na fronteira”, disse ele, e enfatizou que “as ameaças à Colômbia vêm de organizações criminosas transnacionais, não de nações”.

Sánchez acrescentou que, como parte das medidas preventivas adotadas, a segurança foi reforçada nas sedes diplomáticas dos países diretamente envolvidos na crise. “A segurança foi reforçada nas embaixadas dos EUA e da Venezuela na Colômbia, garantindo sua proteção”, disse ele.

Reação internacional

O presidente cubano Miguel Díaz-Canel condenou o que aconteceu e exigiu uma resposta urgente da comunidade internacional.

“Cuba denuncia e exige uma reação urgente da comunidade internacional contra o ataque criminoso dos EUA à Venezuela. Nossa Zona de Paz está sendo brutalmente atacada. Terrorismo de Estado contra o bravo povo venezuelano e contra Nossa América“, escreveu o líder cubano.

Da Bolívia, o ex-presidente Evo Morales também expressou seu apoio a Caracas.

“Repudiamos com total veemência o bombardeio dos EUA contra a Venezuela. É uma agressão imperial brutal que viola sua soberania. Toda nossa solidariedade ao povo venezuelano em resistência, a Venezuela não está sozinha”, postou em suas redes sociais.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã disse em sua conta no Telegram que o ataque militar dos EUA constitui uma violação flagrante dos princípios fundamentais da Carta da ONU e da lei internacional, em particular a proibição do uso da força, e pediu a condenação imediata pelo sistema multilateral.

A Rússia também se manifestou. Em uma declaração emitida por seu Ministério das Relações Exteriores, Moscou descreveu a ação dos EUA como um ato de agressão armada contra a Venezuela e alertou sobre o risco de uma nova escalada.

De acordo com o governo russo, os argumentos usados para justificar a operação são infundados e refletem uma imposição ideológica que afasta qualquer abordagem pragmática ou diálogo.

O presidente argentino Javier Milei reagiu ao anúncio da captura de Maduro em sua conta no X. “La Libertad Avanza, Viva la libertad carajo”, escreveu ele em sua conta no X.

O ataque ocorre em um cenário de tensões crescentes entre Washington e Caracas. Desde setembro do ano passado, o governo de Donald Trump intensificou sua pressão política e militar sobre a Venezuela, com o envio de navios de guerra para perto das águas venezuelanas e uma ofensiva declarada contra o tráfico de drogas na região. Nos últimos meses, várias embarcações acusadas de tráfico de drogas foram atacadas, resultando em mais de 100 mortes, e pelo menos dois navios petroleiros teriam sido apreendidos.

De acordo com dados de rastreamento marítimo da Bloomberg, pelo menos sete navios petroleiros com destino à Venezuela voltaram para trás na sexta-feira em meio a tensões crescentes. Trump acusou repetidamente Nicolas Maduro de usar as receitas do petróleo para financiar atividades criminosas, incluindo tráfico de drogas e terrorismo, acusações que o governo venezuelano rejeita.

-- Esta história foi atualizada às 6h13 (horário de Brasília) para acrescentar novas reações.