Ataques dos EUA ao Irã: o que está em jogo para os mercados de petróleo e o comércio

Decisão do presidente Donald Trump de atacar o Irã cria novos riscos para uma parte significativa do fornecimento de petróleo do mundo; país produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia

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Bloomberg — A decisão do presidente Donald Trump de atacar o Irã cria novos riscos para uma parcela relevante da oferta global de petróleo.

A própria República Islâmica produz cerca de 3,3 milhões de barris por dia — aproximadamente 3% da produção mundial — o que a torna o quarto maior produtor da Opep.

Ainda assim, o país exerce influência muito maior sobre o abastecimento energético global devido à sua localização estratégica.

O Irã ocupa uma das margens do Estreito de Ormuz, rota marítima por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo, proveniente de grandes produtores como Arábia Saudita e Iraque.

Os mercados de petróleo permanecem fechados durante o fim de semana, e inicialmente não havia informações sobre eventuais danos a ativos energéticos nos ataques contra o Irã ou nas ações retaliatórias lançadas pelo país na região no sábado (28).

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A seguir, os principais pontos de atenção para o mercado de petróleo à medida que os acontecimentos evoluem.

Produção iraniana

O Irã produz cerca de 3,3 milhões de barris de petróleo por dia, ante menos de 2 milhões em 2020, apesar das sanções internacionais ainda em vigor. O país passou a contornar essas restrições com maior eficiência, direcionando cerca de 90% de suas exportações para a China.

Os maiores campos petrolíferos são Ahvaz e Marun, além do complexo West Karun, todos localizados na província de Khuzestan.

A principal refinaria do país, construída em Abadan em 1912, tem capacidade para processar mais de 500 mil barris por dia. Outras unidades relevantes incluem as refinarias de Bandar Abbas e Persian Gulf Star, responsáveis pelo processamento de petróleo e condensado — um tipo de óleo ultraleve abundante no Irã. A capital, Teerã, também possui refinaria própria.

Para exportações, o terminal da Ilha de Kharg, no norte do Golfo Pérsico, funciona como o principal centro logístico do país. Uma explosão foi registrada na ilha no sábado, segundo a agência semioficial Mehr, que não forneceu detalhes adicionais nem mencionou diretamente o terminal petrolífero.

A Ilha de Kharg conta com múltiplos pontos de carregamento, píeres, sistemas de ancoragem remota e capacidade de armazenamento de dezenas de milhões de barris. Nos últimos anos, as instalações chegaram a operar volumes superiores a 2 milhões de barris por dia destinados à exportação.

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As sanções americanas afastam a maior parte dos compradores potenciais do petróleo iraniano, mas refinarias privadas chinesas continuam adquirindo o produto mediante descontos significativos.

Para exportar, Teerã depende de uma frota envelhecida de petroleiros que frequentemente navegam com transponders desligados para evitar rastreamento.

No início deste mês, o Irã acelerou o carregamento de navios-tanque na Ilha de Kharg, provavelmente para colocar o máximo possível de petróleo em trânsito e retirar embarcações da área diante do risco de ataques — movimento semelhante ao observado em junho do ano passado antes das ofensivas de Israel e dos EUA.

Um ataque direto à Ilha de Kharg representaria um golpe severo para a economia iraniana.

Os principais campos de gás natural do país ficam mais ao sul, ao longo da costa do Golfo Pérsico. Instalações em Assaluyeh e Bandar Abbas processam, transportam e distribuem gás e condensado destinados ao consumo doméstico, incluindo geração de energia, aquecimento e uso petroquímico.

A região também concentra as exportações iranianas de condensado. Durante o conflito de junho, um ataque a uma planta de gás local provocou nervosismo entre traders, mas não gerou alta duradoura nos preços do petróleo porque não afetou instalações de exportação.

Riscos regionais

O líder supremo iraniano, Ali Khamenei, alertou em 1º de fevereiro para o risco de uma “guerra regional” caso o país fosse atacado pelos EUA. Teerã afirma ter capacidade para fechar completamente o Estreito de Ormuz.

Seria uma medida extrema — nunca adotada até hoje — mas considerada um dos cenários mais críticos para os mercados globais.

O estreito é o principal gargalo para exportações de petróleo do Golfo Pérsico, além de combustíveis refinados como diesel e querosene de aviação. O Catar, terceiro maior exportador mundial de gás natural liquefeito, também depende da rota.

Embora membros da Opep como Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos possuam alguma capacidade de redirecionar exportações por oleodutos alternativos, o fechamento do estreito ainda provocaria forte interrupção no comércio global e disparada dos preços do petróleo.

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Houve sinais de que outros produtores do Golfo também aceleraram embarques em fevereiro. As exportações sauditas atingiram média de cerca de 7,3 milhões de barris por dia nos primeiros 24 dias do mês, o maior nível em quase três anos.

Fluxos combinados de Iraque, Kuwait e Emirados Árabes Unidos indicavam aumento próximo de 600 mil barris diários em relação ao mesmo período de janeiro, segundo dados da Vortexa.

No passado, Teerã já retaliou atingindo ativos energéticos de países vizinhos. Em 2019, a Arábia Saudita responsabilizou o Irã por um ataque com drones à instalação de processamento de petróleo de Abqaiq, que interrompeu produção equivalente a cerca de 7% da oferta global.

Muitos analistas consideram improvável que o Irã consiga manter o Estreito de Ormuz fechado por período prolongado, tornando ações de menor impacto — como assédio a embarcações — mais prováveis.

Durante a guerra do ano passado contra Israel e os EUA, quase mil navios por dia tiveram sinais de GPS interferidos nas proximidades da costa iraniana, contribuindo para a colisão de um petroleiro. Minas marítimas também permanecem como uma alternativa frequentemente mencionada para dificultar a navegação.

Teerã precisaria avaliar cuidadosamente eventuais ataques retaliatórios contra infraestrutura energética regional diante do risco de desagradar Pequim. A China é a maior compradora de petróleo do Golfo e tem utilizado seu poder de veto no Conselho de Segurança da ONU para proteger o Irã de sanções ou resoluções lideradas pelo Ocidente.

Reação dos mercados

O petróleo registrou sua maior alta em mais de três anos durante o conflito de junho, quando o Brent superou US$ 80 por barril em Londres. Os ganhos, porém, perderam força rapidamente após ficar claro que a infraestrutura petrolífera regional não havia sido danificada.

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Desde então, preocupações com excesso de oferta passaram a dominar os mercados globais, e o petróleo encerrou 2025 em Londres cerca de 18% abaixo do nível do início do ano.

Apesar dos temores de sobreoferta, os preços acumulam alta de 19% em 2026, em parte devido ao receio de ataques americanos contra o Irã.

Historicamente, os preços do petróleo tendem a subir cerca de 4% para cada redução de 1% na oferta global, segundo análise de eventos passados realizada por Ziad Daoud, economista-chefe para mercados emergentes da Bloomberg Economics.

-- Com a colaboração de Julian Lee.

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