Estados Unidos e Irã chegam a cessar-fogo horas antes do fim do prazo de Trump

Presidente americano disse que suspendeu os bombardeios, e ministro iraniano afirmou que permitirá a passagem de navios pelo Estreito de Ormuz; mais cedo Trump disse que ‘toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais voltar’

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Bloomberg — Os Estados Unidos e o Irã chegaram a um cessar-fogo de duas semanas que deve interromper a campanha militar americano-israelense em troca da reabertura do Estreito de Ormuz por Teerã.

O presidente Donald Trump anunciou o acordo nas redes sociais nesta terça-feira (7), horas depois de o Paquistão, mediador das negociações, implorar ao líder americano que recuasse do prazo para desencadear um ataque devastador contra o Irã caso suas exigências não fossem atendidas.

O acordo dá tempo para que os dois lados tentem chegar a um entendimento mais duradouro para encerrar a guerra, que já dura seis semanas, matou milhares de pessoas e desencadeou uma crise energética global.

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Trump disse ter concordado em “suspender os bombardeios e ataques ao Irã por um período de duas semanas”, desde que o país aceite a “ABERTURA COMPLETA, IMEDIATA e SEGURA do Estreito de Ormuz”.

O ministro das Relações Exteriores iraniano, Abbas Araghchi, afirmou em comunicado que “por um período de duas semanas, a passagem segura pelo Estreito de Ormuz será possível mediante coordenação com as Forças Armadas do Irã” e que, se os ataques contra o país forem interrompidos, “nossas Poderosas Forças Armadas cessarão suas operações defensivas”.

Israel também concordou com o cessar-fogo, segundo uma autoridade da Casa Branca.

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O petróleo caiu após o anúncio de Trump, feito cerca de 90 minutos antes do prazo das 20h para que o Irã reabrisse o estreito ou enfrentasse um grande bombardeio militar.

A decisão representa um recuo em relação a uma publicação feita mais cedo na terça-feira, na qual Trump alertou que “toda uma civilização morrerá esta noite, para nunca mais voltar” se o Irã não cedesse.

As ameaças de atacar infraestrutura civil iraniana, incluindo usinas de energia, poderiam configurar crimes de guerra caso fossem executadas.

E, embora os mercados tenham respirado aliviados, o problema resolvido pelo cessar-fogo de terça-feira foi criado pelo próprio Trump quando EUA e Israel iniciaram a guerra no fim de fevereiro.

O acordo não abordou suas exigências por limites aos programas nuclear, de mísseis ou de drones do Irã. Tampouco houve indicação de que os EUA estejam dispostos a atender ao desejo iraniano de um acordo permanente e ao fim das sanções.

“Isso basicamente oferece um respiro na trajetória de escalada que estava em curso, mas claramente ainda estamos longe de qualquer tipo de resolução do conflito — muito menos das questões que o originaram”, disse Michael Singh, ex-diretor sênior para o Oriente Médio no Conselho de Segurança Nacional sob o governo de George W. Bush.

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Após a primeira postagem de Trump, não estava claro se surgiria um caminho para a desescalada. Nas primeiras horas de terça-feira, forças americanas atingiram alvos militares no principal polo de exportação de petróleo do Irã, na ilha de Ilha de Kharg.

A publicação nas redes sociais havia desencadeado uma corrida de última hora por mediadores para retomar negociações indiretas.

O primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, disse anteriormente que as conversas “avançavam de forma constante, firme e vigorosa” e que seu país pediu ao Irã que reabrisse o Estreito de Ormuz por duas semanas como gesto de boa vontade.

Mais tarde, Sharif convidou todas as partes a irem a Islamabad para continuar as negociações. A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou que as discussões sobre a próxima fase continuam, mas que “nada está definido”.

Alguns dos maiores apoiadores de Trump — e defensores mais firmes dos ataques — demonstraram cautela com o acordo.

“Devemos lembrar que o Estreito de Ormuz foi atacado pelo Irã após o início da guerra, destruindo a liberdade de navegação”, disse o senador republicano da Carolina do Sul Lindsey Graham na rede X. “Daqui para frente, é imperativo que o Irã não seja recompensado por esse ato hostil contra o mundo.”

Os termos completos de um possível pacto não foram divulgados. Trump afirmou apenas que os EUA receberam uma proposta de 10 pontos do Irã, que descreveu como “uma base viável para negociação”.

“Quase todos os pontos de divergência anteriores foram resolvidos entre os Estados Unidos e o Irã, mas o período de duas semanas permitirá que o acordo seja finalizado e concluído”, disse.

Muito ainda permanece incerto sobre o cessar-fogo ou se ele será mantido.

Ainda assim, a decisão de recuar — ao menos por ora — marca mais um episódio em que o presidente volta atrás em uma ameaça de ampliar a lista de alvos militares no Irã para incluir infraestrutura civil, como usinas de energia e instalações de dessalinização. Em março, ele deu ao Irã cinco dias para reabrir o estreito ou enfrentar esses ataques, e depois estendeu o prazo por mais 10 dias.

O padrão tornou-se tão conhecido que ganhou até um acrônimo próprio — TACO, sigla em inglês para “Trump Always Chickens Out”.

Agora, o foco retorna ao Estreito de Ormuz e à possibilidade de navios voltarem a cruzar com segurança essa via marítima vital.

Embora algumas embarcações tenham passado pelo estreito nas últimas semanas, em geral não eram de países considerados hostis pelo Irã ou que tenham ao menos apoiado tacitamente os ataques de EUA e Israel.

“Esse é o verdadeiro teste decisivo — se operadores no terreno, proprietários e operadores de navios, mudarão seu comportamento após o anúncio do cessar-fogo e alguma forma de garantia de que embarcações além das já identificadas como iraquianas estão seguras”, disse Clayton Seigle, pesquisador sênior do Center for Strategic and International Studies.

Antes da publicação de Trump, o Brent datado — referência para a maioria das transações físicas de petróleo no mundo — havia quebrado todos os recordes anteriores, atingindo US$ 144,42 por barril, enquanto os futuros do Brent, referência internacional, eram negociados perto de US$ 109.

O adiamento do prazo por duas semanas deve reduzir os preços do petróleo para cerca de US$ 100 por barril, um novo patamar que surgiu durante o conflito.

“Esse adiamento, por si só, provavelmente seria suficiente para nos levar de volta ao novo nível de equilíbrio, que de forma alguma representa um retorno ao cenário anterior”, disse Kevin Book, diretor-gerente da ClearView Energy Partners.

-- Com a colaboração de Josh Wingrove, Magdalena Del Valle e Jennifer A. Dlouhy. Reportagem atualizada para incluir a posição do Irã e indicar que os dois lados concordaram com o cessar-fogo.

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