Bloomberg — O aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã que comandou a República Islâmica por mais de três décadas em confronto com o Ocidente, foi morto no sábado (28) após ataques aéreos lançados pelos Estados Unidos e por Israel contra Teerã, segundo o presidente Donald Trump. Ele tinha 86 anos.
“Isso não é apenas justiça para o povo do Irã, mas para todos os grandes americanos e pessoas de muitos países ao redor do mundo que foram mortos ou mutilados por Khamenei e seu grupo de criminosos sanguinários”, escreveu Trump em uma publicação nas redes sociais.
Sua morte foi confirmada pela mídia estatal iraniana na madrugada de domingo (29), no Irã.
Com a morte de Khamenei, encerra-se um capítulo de grande impacto na história moderna do Irã, cercado por incertezas sobre os próximos passos do país e sobre quem poderá sucedê-lo. É provável que seja decretado um período oficial de luto nacional.
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Figura sênior do clero xiita, Khamenei emergiu do movimento religioso e anti-imperialista que tomou o poder na Revolução de 1979. Com barba branca, vestes clericais e turbante preto, projetava a imagem de um patriarca austero.
Nunca deixou o Irã após assumir o cargo e utilizou sua autoridade para reprimir protestos contra sua liderança e contra o sistema islâmico que ajudou a consolidar. Sua resposta rígida a críticas sobre direitos das mulheres e liberdades civis reforçou a reputação de um líder disposto a usar força letal para permanecer no poder.
Khamenei definiu a posição iraniana no Oriente Médio como um antagonismo permanente a Israel e resistência às tentativas dos Estados Unidos de moldar a região.
Sua profunda desconfiança em relação a Washington — derivada da interferência americana na política iraniana e do apoio dos Estados Unidos à monarquia que o prendeu antes da revolução — permaneceu no centro da vida política do país.
Ele repetidamente defendeu a destruição de Israel, que descrevia como um “tumor cancerígeno”.
Compromisso ideológico
Segundo Mehdi Khalaji, pesquisador do Washington Institute for Near East Policy, Khamenei buscou transformar o conceito islâmico tradicional de jihad — entendido como luta religiosa contra o mal — em elemento central da ideologia do regime iraniano, especialmente contra o Ocidente e os Estados Unidos.
Desde 1989, quando sucedeu o aiatolá Ruhollah Khomeini como líder supremo, Khamenei protegeu instituições religiosas conservadoras e o aparato militar, frequentemente contrariando uma opinião pública que, em grande parte, favorecia reformas e maior aproximação com o Ocidente.
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Após protestos em 2022 desencadeados pela morte de uma jovem sob custódia da chamada polícia da moralidade, o regime respondeu com repressão violenta, incluindo execuções judiciais.
A repressão aos protestos nacionais iniciados em dezembro de 2025 foi ainda mais severa, com grupos de direitos humanos estimando mais de 7.000 mortos após um apagão total da internet imposto pelas autoridades.
Expansão regional
A influência de Khamenei ultrapassou as fronteiras iranianas. Apresentando-se como líder global dos muçulmanos xiitas, supervisionou a expansão da Guarda Revolucionária Islâmica, principal força militar do país e instrumento de projeção de poder externo.
A organização construiu um império econômico que chegou a abranger cerca de 40% da economia iraniana.
Sob sua liderança, o Irã desenvolveu uma rede de aliados estatais e milícias no Oriente Médio destinada a atuar como elemento de dissuasão contra Israel e aliados dos Estados Unidos.
Teerã ampliou sua influência no Iraque, Síria, Líbano, Iêmen e na Faixa de Gaza, frequentemente por meio de conflitos indiretos e apoio a grupos armados.
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Os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 abriram um raro período de cooperação entre Washington e Teerã contra o Talibã, mas essa aproximação terminou quando o então presidente americano George W. Bush classificou o Irã como parte do “eixo do mal”.
Após a invasão do Iraque liderada pelos Estados Unidos em 2003, a Guarda Revolucionária passou a organizar e armar milícias xiitas que atacaram forças americanas no país.
Khamenei também apoiou intermitentemente o Hamas, grupo que controla Gaza e realizou o ataque contra o sul de Israel em outubro de 2023, episódio que desencadeou uma resposta militar israelense que alterou o equilíbrio regional e enfraqueceu o chamado “Eixo da Resistência” iraniano.
Israel eliminou lideranças do Hamas e enfraqueceu o Hezbollah, principal aliado de Teerã, enquanto a queda do presidente sírio Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, representou novo revés estratégico para o Irã.
Programa nuclear e confronto com os EUA
Embora afirmasse que armas nucleares eram proibidas pelo Islã, Khamenei supervisionou o desenvolvimento de um programa nuclear complexo que o Ocidente suspeitava ter dimensão militar.
Em 2015, o Irã aceitou limitar suas atividades nucleares em troca de alívio de sanções, acordo abandonado três anos depois por Trump durante seu primeiro mandato.
Após ataques israelenses surpresa contra Teerã no ano passado — que destruíram grande parte das defesas aéreas iranianas — os Estados Unidos bombardearam instalações nucleares estratégicas utilizando armamentos de grande potência. Trump afirmou na época que os alvos haviam sido “obliterados”.
Origem e ascensão
Khamenei nasceu em 17 de julho de 1939 na cidade de Mashhad, filho de um estudioso religioso. Aos 19 anos mudou-se para Qom, centro do ensino xiita, onde estudou sob orientação de Khomeini.
Participou do movimento clandestino que derrubou o xá Mohammad Reza Pahlavi, aliado dos Estados Unidos, sendo preso e torturado diversas vezes e passando três anos em exílio interno.
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Após a Revolução Islâmica de 1979, foi nomeado líder das orações de sexta-feira em Teerã. Sobreviveu a uma tentativa de assassinato em 1981 que deixou seu braço direito parcialmente paralisado e, meses depois, tornou-se presidente do Irã.
Durante a guerra Irã-Iraque iniciada em 1980 pelo regime de Saddam Hussein, Khamenei estreitou laços com a Guarda Revolucionária — relação que moldaria sua base de poder pelas décadas seguintes.
Consolidação do poder
Quando Khomeini morreu em 1989, Khamenei não era o sucessor natural, já que suas credenciais religiosas estavam abaixo do exigido pela Constituição, o que levou a uma emenda para permitir sua nomeação.
Ao longo de seu governo, diferentes presidentes moderados e reformistas foram eleitos, mas Khamenei manteve controle rígido do sistema político, permitindo mudanças limitadas sem ameaçar o domínio clerical.
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Protestos após a contestada reeleição do presidente Mahmoud Ahmadinejad em 2009 desafiaram seu poder e foram reprimidos com força, consolidando a atuação cada vez mais violenta das forças de segurança.
Em 2013, Ahmadinejad foi sucedido por Hassan Rouhani, responsável pelo acordo nuclear de 2015. A retirada dos Estados Unidos do pacto em 2018 reforçou o ceticismo de Khamenei em relação ao Ocidente e enfraqueceu politicamente os reformistas.
Nos anos seguintes, protestos motivados por crises econômicas, aumento de combustíveis e deterioração do padrão de vida foram reprimidos com violência crescente. Durante a pandemia de covid-19, Khamenei proibiu vacinas produzidas por empresas dos Estados Unidos e da Europa.
Em 2020, após a Guarda Revolucionária admitir ter abatido por engano um avião ucraniano, Khamenei defendeu publicamente a corporação, deixando claro que sua lealdade ao aparato de segurança prevalecia sobre a pressão pública.
Sua morte ocorre em meio ao momento mais crítico para o regime iraniano em décadas, com incertezas sobre sucessão, estabilidade interna e o equilíbrio de poder no Oriente Médio.
-- Com a colaboração de Mike Cohen. Reportagem atualizada às 23h de sábado (28), para incluir a confirmação da morte pela mídia estatal iraniana.
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