‘Vinho deve ser simples’: Piccini recusou premiumização e cresceu 15% em meio a crise

Enquanto a Europa lida com queda nas vendas, destila excedente e arranca videiras, grupo toscano fatura US$ 181 milhões e expande operação para mais de 90 países enquanto rejeita focar apenas em vinhos de alta gama, e mira subir de posição no Brasil

Por

Bloomberg Línea — Os negócios do vinho no mundo vivem uma das piores crises da história, mas nem todas as vinícolas sofrem tanto ou da mesma forma.

Com mudanças de hábitos, aquecimento global e pressão por conta de clima e geopolítica, o consumo se torna cada vez menor. A União Europeia desembolsou € 40 milhões neste ano para destilar 1,2 milhão de hectolitros de vinho excedente e tentar conter a queda dos preços. Na França, videiras foram arrancadas, e as exportações estão no menor nível em pelo menos duas décadas. E na Itália a pressão criou um desinteresse grande entre os jovens.

Apesar desse cenário de retração global, a italiana Piccini, fundada em 1882 na Toscana, tem feito o caminho inverso. O grupo familiar passou de um faturamento de US$ 160 milhões em 2022 para US$ 181 milhões em 2025, alta de quase 15%, com cerca de 70% da receita vinda do mercado externo.

Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.

O avanço é resultado de uma estratégia que vai contra o que muitas das empresas do setor têm feito no mundo. Enquanto boa parte dos produtores responde à crise apostando na premiumização, com vinhos mais caros e em menor volume, Mario Piccini, presidente e membro da quarta geração da família à frente do grupo, defende o oposto.

Para ele, o setor afastou o consumidor ao transformar a bebida em algo complexo, caro e difícil. “Nos últimos 20 anos, o vinho se tornou complicado demais. Para beber uma taça de vinho, você precisa ser enólogo, e isso está errado”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.

A estratégia para crescer, contou, parte de um produto de bom custo-benefício, com rótulo e mensagem de leitura fácil, voltado também às gerações mais jovens.

Com essa abordagem mais “popular”, Piccini recorre ao tenor Andrea Bocelli para explicar o raciocínio. “Bocelli traduz algo único para todos. De um repertório clássico que só 1% ouvia, hoje todo mundo o conhece. No vinho, é comum fazer o oposto. E precisamos dar um jeito de agradar a todos também”, afirmou.

A diferenciação, segundo ele, passa pela marca, não pela origem. “O vinho tem de ser para todos. Porque é a Piccini que garante a qualidade. Não é a denominação que garante a qualidade”, explicou.

Leia também: Acordo Mercosul-UE rearranja mercado de vinhos e beneficia importação de alta gama

Além do apelo mais popular de rótulos menos caros, a empresa também apostou na diversificação de mercados para continuar crescendo. “Todos os produtores querem estar nos mercados maduros, nos EUA, na Inglaterra, mas nós vimos que era importante estar em todo o mundo”, disse.

A vocação internacional vem de família. Piccini contou que o pai lhe repetia uma lição sobre fusos e mercados. “Mario, lembre-se: quando é noite na Itália, o sol está na Ásia, em Xangai, em Tóquio; e quando o sol aparece aqui, ainda é noite em São Paulo”, recordou.

Hoje o grupo vende em mais de 90 países e mantém a expansão como meta permanente, com a China entre os destinos citados.

A internacionalização veio acompanhada de diversificação territorial na produção. A empresa, que nasceu na Toscana, avançou para regiões como Sicília, Basilicata, Piemonte e Vêneto. “A Piccini não é mais uma produtora da Toscana, mas, como dizemos na Itália, é o vinho da família italiana”, disse.

O Brasil ocupa posição relevante nesse plano, segundo ele. Os vinhos do grupo são importados com exclusividade pelo Grupo Wine, e segundo o executivo, o mercado brasileiro está hoje entre o 10º e o 12º em vendas, mas ele projeta avanço nos próximos três anos.

Leia também: Mercado de vinho passa de R$ 21 bi no Brasil. E maior concorrência pressiona margens

“O Brasil, como país, é, pessoalmente, muito, muito importante”, disse. “Com nosso parceiro e com a estratégia que acabamos de colocar na mesa, podemos avançar”, completou.

Essa estratégia passa por repetir o modelo já testado em outros mercados, com vinhos de qualidade, mas acessíveis. A marca vende no país rótulos a partir de R$ 54,90 e oferece o Chianti tradicional da casa e outras garrafas por R$ 99,90.

O vinho mais caro oferecido no Brasil é o Brunello Di Montalcino, que custa R$ 649,90. A companhia diz responder por cerca de 10% da produção total de vinhos desta denominação, um dos rótulos mais valorizados da Itália.

Um eventual avanço do acordo entre União Europeia e Mercosul, avaliou, tenderia a facilitar a entrada de produtos europeus no país, mas não precisa ser o único incentivo para ampliar a presença dos vinhos da marca no mercado brasileiro.

O crescimento, segundo Piccini, se apoia em reinvestimento e numa estrutura enxuta. “Não temos villa, não temos barco, temos bicicleta, mas investimos o máximo possível na empresa”, disse.

Leia também: Clima, dívida e desinteresse de jovens acendem o alerta para vinho italiano

O grupo emprega cerca de 190 pessoas e já incorpora a quinta geração da família. “Para nós é uma família, um negócio realmente familiar. E as pessoas que trabalham conosco fazem parte da família”, afirmou.

Apesar de demonstrar uma visão de mercado com capacidade de crescer, Piccini diz não estar apostando muito nas principais tendências que mobilizam o setor atualmente , como vinhos sem álcool ou de baixo teor. Ele se diz atento sem mudar o foco. “Continuo focado no vinho. Vinho é álcool”, disse.