Setor de relógios de luxo teme ‘tempestade perfeita’ com guerra e aumento de custos

Oriente Médio, que respondia por 10% do mercado global, foi atingido em cheio pelo conflito; a região enfrenta queda de até 50% na capacidade dos varejistas, enquanto a valorização do franco suíço corrói as receitas de exportação

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Bloomberg — Antes do início da guerra no Irã, o Oriente Médio era um dos poucos mercados em crescimento para relógios de luxo.

A região, que responde por cerca de 10% do mercado global de relógios, havia parcialmente protegido o setor de uma série de golpes, como a turbulência tarifária dos Estados Unidos, a queda da demanda chinesa, a valorização do franco suíço e a disparada dos preços do ouro.

Com o Oriente Médio agora imerso no conflito, a feira “Watches and Wonders”, principal evento do setor em Genebra, abriu na semana passada em meio ao temor de que a guerra sufoque qualquer sinal de recuperação incipiente.

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Foi uma “tempestade perfeita financeiramente para todos no setor de relógios”, disse Ilaria Resta, CEO da Audemars Piguet, em entrevista à Bloomberg News.

No setor de luxo em geral, empresas como LVMH, Kering e Hermès atribuíram ao conflito o impacto negativo sobre suas vendas. O setor depende há muito tempo dos moradores ricos do Oriente Médio e dos turistas que visitam a região para uma fatia relevante de sua receita.

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Para os relojoeiros suíços, por exemplo, o mercado no Oriente Médio cresceu em 2025, mesmo com as exportações totais do setor caindo 1,7%, para 25,6 bilhões de francos (US$ 32,7 bilhões) — o segundo ano consecutivo de queda.

As vendas na região do Golfo chegaram a 2,21 bilhões de francos, com os Emirados Árabes Unidos respondendo sozinhos por mais da metade.

Agora, diante das perspectivas mais sombrias na região, o setor relojoeiro busca outras áreas de crescimento potencial, como os Estados Unidos — amplamente descritos por executivos como um mercado em expansão — e a Índia, onde a demanda continua a crescer.

A diversificação geográfica tornou-se fundamental no atual ambiente geopolítico, disse Resta, observando que a Audemars Piguet está relativamente protegida pela alta demanda nos Estados Unidos.

“Adotamos como estratégia muito clara não depender excessivamente de uma única região”, disse ela.

A boutique da Audemars Piguet em Dubai ficou fechada por um dia por precaução para a segurança dos funcionários, mas reabriu em seguida. Já a loja em Tel Aviv opera de forma intermitente, dependendo das condições. O fluxo de produtos para o Oriente Médio foi retomado, disse Resta.

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Embora a maioria dos grandes varejistas de relógios do Oriente Médio, incluindo a Ahmed Seddiqi & Sons, tenha participado da feira, alguns alertaram às marcas parceiras que os pedidos podem ser menores neste ano.

Os varejistas da região operam entre 50% e 70% da capacidade, dependendo de sua localização, disse Rahul Shukla, vice-presidente e chefe de vendas da Titan, maior fabricante de relógios da Índia, em entrevista às margens da feira.

A guerra aprofunda ainda mais a polarização do setor, ao ampliar o abismo entre as marcas de alto padrão e os players de segmento intermediário, com maior volume de vendas, disseram executivos do setor.

“Algumas faixas de preço, incluindo o segmento intermediário e o luxo de entrada, sofrem mais do que outras”, disse Georges Kern, CEO da Breitling, em entrevista.

Enquanto algumas marcas, entre elas a Breitling, reduziram a quantidade de relógios enviados à região, Kern viaja a Dubai nesta semana para promover a Universal Geneve, sua relojoeira de alto padrão recém-lançada, afirmando que sua clientela é mais resistente ao cenário atual.

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As perspectivas de retomada do Oriente Médio permanecem positivas, mas a dimensão do impacto financeiro dependerá da duração do conflito, disseram executivos.

“Haverá um período mais lento, com certeza; como a guerra terminar vai determinar o futuro da região”, disse Bertrand Meylan, co-proprietário da H. Moser & Cie, sediado em Dubai, empresa que obtém 6% de seus negócios na região.

Para muitos, a maior preocupação é a pressão da persistente valorização do franco suíço, que corrói a receita de exportações. A moeda de refúgio valorizou mais de 2% frente ao dólar só neste mês.

As dificuldades do setor pesam especialmente sobre os fabricantes menores na cadeia de fornecimento, como os produtores de mecanismos, essenciais para a indústria. Eles enfrentam pressão financeira crescente e são alvo cada vez mais frequente de aquisições.

Empresas de destaque como LVMH, Moser e Audemars já compraram participações nessas companhias recentemente.

“É certamente um período em que haverá consolidação no lado dos fornecedores”, disse Meylan.

-- Com a colaboração de Chris Miller.

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