Investidores ‘VIP’ da Binance tiveram acesso à prévia de acordo com os EUA

Em jantar privado da companhia em Sigapura, alguns investidores souberam de antemão que a empresa negociava com autoridades dos EUA um acordo para dar fim à investigação

Exchange surgiu no mercado cripto em 2017 e quase imediatamente ultrapassou rivais maiores
Por Allyson Versprille, Muyao Shen e Ben Bartenstein
02 de Dezembro, 2023 | 03:06 PM

Bloomberg — Enquanto os detalhes do acordo multibilionário da Binance com as autoridades dos Estados Unidos eram consolidados em setembro, alguns investidores tiveram uma prévia do que estava por vir em um evento da empresa em Singapura.

A mensagem principal, apresentada em um jantar privado luxuoso da Binance, era a de que a maior exchange de criptomoedas do mundo sobreviveria aos problemas legais nos EUA.

Naquela noite, algumas dezenas de formadores de mercado apelidados de “VIPs” entraram em uma sala de jantar no clube exclusivo chamado “1880″.

Uma vez lá dentro, os convidados encontraram crachás em duas longas mesas onde jantariam bife Angus e bucatini com trufas australianas, enquanto os executivos da Binance circulavam no local.

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Ausente do evento estava Changpeng Zhao, o CZ, a face pública da empresa que, dois meses depois, se declararia culpado de uma acusação criminal em um tribunal de Seattle, nos EUA, e pediria demissão da companhia.

No entanto, Richard Teng, o futuro substituto de Zhao, estava lá entre os convidados, de acordo com vários participantes ouvidos pela Bloomberg News, que pediram para não serem identificados.

Enquanto o jantar prosseguia, a festa se dividiu em grupos menores. Executivos da Binance foram questionados diretamente sobre detalhes relacionados aos problemas legais da empresa.

Os investidores pressionaram os representantes da Binance sobre quanto a empresa pagaria ao Departamento de Justiça dos EUA e outras autoridades americanas para chegar a um acordo, levantando a possibilidade de uma multa de US$ 4 bilhões.

Após conversas com representantes da empresa presentes no jantar, alguns convidados VIP ficaram convencidos de que a Binance pagaria essa quantia, um valor com o qual poderia facilmente arcar.

Torre em Dubai

Depois de anos de viagens, Zhao se manteve mais próximo de seu novo lar nos Emirados Árabes Unidos em 2023. Seu amplo apartamento no centro de Dubai fica ao lado do Burj Khalifa, o prédio mais alto do mundo.

Zhao e Yi He, cofundadora da Binance com quem tem filhos, nem sequer apareceram pessoalmente no evento de blockchain da Binance em Istambul, em novembro.

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Desde pelo menos maio, Zhao vinha mencionando nas reuniões de liderança da Binance que estava se preparando para se afastar da empresa, de acordo com quatro pessoas familiarizadas com as conversas, que pediram para não serem identificadas discutindo comunicações internas.

Os Emirados Árabes Unidos não têm um acordo de extradição com os EUA, então a situação legal pessoal de Zhao parecia segura. Ele também mantém relações próximas com chefes locais poderosos, e autoridades dos Emirados Árabes insistiram que Zhao não violou nenhuma lei do país.

No entanto, a pressão estava aumentando. Um possível acordo no início de 2023 com o Departamento de Justiça que poderia ter sido melhor para Zhao não se concretizou depois que alguns agentes pressionaram por uma penalidade mais severa pessoalmente para CZ, segundo uma pessoa a par do assunto, que pediu para não ser identificada, discutindo deliberações privadas. Com o passar dos meses, o Departamento pressionou por uma punição mais rigorosa.

Enquanto isso, as autoridades dos Emirados Árabes Unidos estavam desesperadas para serem removidas da lista cinza do Grupo de Ação Financeira com sede em Paris, o que significa um aumento na vigilância e é uma mancha na reputação financeira do país.

Pessoas familiarizadas com as discussões, que pediram para não serem identificadas, disseram que as autoridades dos Emirados Árabes Unidos não desempenharam um papel na decisão de Zhao de voar voluntariamente para os EUA e se entregar às autoridades.

No entanto, Zhao era frequentemente mencionado em conversas entre autoridades dos EUA e dos Emirados Árabes Unidos em 2023, segundo pessoas familiarizadas com as discussões, que também pediram para não serem identificadas discutindo as conversas privadas.

Até meados de novembro, a Autoridade Reguladora de Ativos Virtuais de Dubai sinalizava que não concederia à Binance uma licença completa para operar, com uma decisão sobre a lista cinza da FATF iminente em fevereiro.

Um advogado de defesa de Zhao não respondeu a um pedido de comentário.

Sem escritório

A Binance surgiu no mercado cripto em 2017 e quase imediatamente ultrapassou rivais maiores.

Inicialmente era sediada na China. Após a repressão do governo chinês às criptomoedas, mudou-se para o Japão e, eventualmente, para Malta. Oficialmente, a Binance afirma não ter uma sede formal, e, diferentemente de uma bolsa de valores tradicional ou de um banco dos EUA, não faz comunicações de mercado via documentos regulatórios americanos.

As investigações dos EUA sobre a Binance remontam a 2018, quando a empresa tinha apenas um ano. Vários braços do Departamento de Justiça e do Departamento do Tesouro estiveram envolvidos. A Comissão de Negociação de Futuros de Commodities processou Zhao e a Binance em março e também se juntou ao acordo de US$ 4,3 bilhões no mês passado.

A SEC (Comissão de Valores Mobiliários dos EUA) não fez parte do acordo anunciado em 21 de novembro, e o principal regulador de Wall Street parece estar avançando com seu caso de junho contra a Binance e Zhao por supostamente manipular recursos de clientes e permitir que americanos acessem ilegalmente a plataforma.

A Binance e Zhao pediram a um juiz que rejeitasse o processo da SEC contra eles, argumentando que a agência ultrapassou sua autoridade ao processá-los.

A Binance chamou a atenção de Washington porque crescia muito rapidamente – com uma média de mais de US$ 1 bilhão em transações diárias em seu primeiro ano – e tinha um número significativo de clientes nos EUA, disse Jarod Koopman, diretor-executivo de serviços cibernéticos e forenses da divisão de investigação criminal da Receita Federal (IRS, na sigla em inglês), que faz parte do Tesouro.

A unidade do IRS foi listada pelo Departamento de Justiça como investigadora do caso.

El CEO de Binance Changpeng Zhao en la corte federal de Seattle

A organização de Koopman não é tão conhecida quanto outras agências federais de investigação. Ainda assim, ela se destacou no meio policial por seu trabalho no rastreamento de dinheiro na blockchain para solucionar alguns dos maiores casos de cripto e cibercrime envolvendo hackers, lavagem de dinheiro e demais violações.

Koopman alegou em entrevista que, ao longo dos anos, a Binance frequentemente aparecia em outras investigações criminais do IRS, incluindo no mercado darknet russo Hydra, entre hackers norte-coreanos e Welcome to Video, um mercado de exploração infantil na dark web. “A Binance continuava aparecendo”, disse ele, alegando que criminosos estavam usando a plataforma para sacar recursos ou para lavagem de dinheiro.

Do final de 2019 até o início de 2020, os investigadores reuniram grandes quantidades de dados, incluindo históricos de bate-papo, e-mails e transações internas da empresa. As informações continuaram fluindo — a ponto de os recursos se esgotarem. O governo poderia ter continuado investigando o caso por mais 10 anos, disse Koopman.

“Era um volume de dados maior do que já tivemos na maioria dos nossos outros casos junros”, disse ele. Em qualquer momento, havia 30 ou mais pessoas — tanto do IRS quanto do Departamento de Justiça — examinando as informações, disse ele.

Koopman disse que o grande momento para o caso finalmente chegou na metade de 2022, quando os investigadores descobriram a peça que faltava — comunicações internas que, segundo ele, mostravam que Zhao tinha conhecimento direto de que a empresa estava violando as leis dos EUA.

Montanhas de dados

Enquanto isso, Whitney Case, diretora associada de fiscalização e conformidade da Rede de Execução de Crimes Financeiros do Tesouro, disse que foi o próprio marketing da Binance que chamou a atenção de sua agência em 2018.

Ela disse em entrevista que a empresa estava anunciando em todas as mídias que não sujeitaria os clientes a verificações de identidade para certos tipos de contas.

A FinCEN começou a buscar informações diretamente da empresa já no final de 2020, disse Case. O esforço envolveu centenas de milhares de páginas de descoberta, entrevistas com testemunhas e análise de dados para rastrear o fluxo de dinheiro dentro e fora da empresa, disse ela.

As autoridades afirmaram, em última análise, que a Binance aceitou indevidamente usuários americanos, ao mesmo tempo em que ignorava as leis dos EUA, o que levou a acusações criminais contra a empresa e Zhao.

Embora a empresa tenha dito em 2019 que bloquearia usuários dos EUA e os direcionaria para uma nova exchange com sede nos EUA, continuou permitindo que alguns de seus investidores mais importantes e de alto patrimônio permanecessem na plataforma não registrada, disse o procurador-geral dos EUA, Merrick Garland, durante uma coletiva de imprensa em 21 de novembro.

Penalidades significativas

A pedido de Zhao e outros executivos de alto escalão da Binance, os funcionários incentivaram esses clientes a ocultar suas conexões nos EUA, criando novas contas e escondendo suas localizações, de acordo com documentos judiciais no caso.

Nicole Argentieri, chefe interina da divisão criminal do departamento, disse aos repórteres naquele dia que as penalidades para a Binance eram “algumas das mais significativas que o departamento já impôs a uma instituição financeira”.

Zhao enfrenta uma sentença máxima de 10 anos e multas de até US$ 500.000, além de qualquer lucro que ele tenha obtido com seus supostos crimes. Seu julgamento está marcado para fevereiro. Seu acordo de confissão com o governo dos EUA inclui uma renúncia ao direito de recorrer, desde que sua sentença não ultrapasse 18 meses. Ele pode retornar à empresa em três anos.

Enquanto isso, a Binance já tenta virar a página — novamente antecipando o que está por vir para seus melhores clientes. Em um e-mail recente endereçado a VIPs e clientes institucionais, Teng, o novo CEO, disse que os melhores dias da empresa estão por vir.

“Estou ansioso para aprofundar nosso relacionamento à medida que continuamos crescendo juntos”, disse ele. “Farei um anúncio em nome da Binance VIP & Institutional em breve, atestando esse compromisso”.

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