Bloomberg — O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou um reajuste de 15% do Bolsa Família poucas semanas antes de uma eleição que se mostra bastante acirrada, com pesquisas indicando empate do petista com o senador Flávio Bolsonaro.
O governo elevará o piso do Bolsa Família dos atuais R$ 600 para R$ 691, anunciou o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, em evento ao lado de Lula, em Brasília.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
Os reajustes são permitidos pelas regras do programa, que autorizam aumentos para compensar perdas inflacionárias, afirmou o ministro da Fazenda, Dario Durigan.
Moretti acrescentou que os pagamentos maiores terão custo de R$ 5,8 bilhões neste ano e de R$ 22 bilhões em 2027, mas que o governo tem espaço fiscal para acomodá-lo.
Leia também: Lula e Flávio aparecem empatados em meio à crise no STF, segundo pesquisa Atlas
O reajuste ampliou os temores do mercado financeiro com a disputa eleitoral, diante da possibilidade da medida fortalecer o desempenho do presidente em uma disputa que está bastante acirrada segundo as últimas pesquisas.
A decisão surpreendeu o mercado e também reacendeu preocupações com o cenário fiscal.
Os ativos locais viraram após a notícia, com os juros futuros disparando e o Ibovespa passando a operar momentaneamente em queda, em contraste com o maior apetite por risco no exterior.
O dólar atingiu a máxima da sessão e as taxas de juros futuros dispararam mais de 10 pontos com o anúncio do reajuste, enquanto operadores avaliavam o impacto em meio ao aumento das preocupações com a deterioração das contas públicas do país. O Ibovespa chegou a cair 1,2%.
O reajuste do Bolsa Família terá impacto significativo em termos de piora das perspectivas fiscais, afirmou Marcio Riauba, chefe da mesa de operações do Banco StoneX. O que já está ruim vai piorar, segundo ele.
A decisão também gera “maior risco eleitoral, já que medidas com forte apelo popular poderiam ajudar Lula a recuperar sua aprovação”, disse Murilo Arruda, gestor de carteiras da Morada Capital. “Em resumo, um quadro fiscal mais fraco e um cenário eleitoral que pode se tornar menos favorável para os mercados.”
Lula, de esquerda, luta para recuperar o ímpeto antes das eleições de outubro, com pesquisas mostrando-o em empate técnico com seu adversário de direita, Flávio Bolsonaro.
Cada candidato receberia cerca de 47% dos votos em um segundo turno, de acordo com uma pesquisa da AtlasIntel para a Bloomberg News publicada na quinta-feira. Lula receberia 44% contra 42% de Bolsonaro em um cenário de primeiro turno, segundo a pesquisa.
Lula viu sua vantagem desaparecer à medida que o enfraquecimento da economia e as acusações de corrupção contra um de seus filhos pesaram sobre sua campanha à reeleição. Ele agora luta para se proteger das repercussões de uma crise interna no Supremo Tribunal Federal, que colocou a poderosa instituição de volta no centro de um enorme escândalo bancário.
Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, aproveitou a crise no tribunal para tentar desviar a atenção de uma investigação da Polícia Federal sobre suas próprias ligações com o banqueiro que está no centro da investigação.
Os investidores estão nervosos à medida que a disputa se aproxima, em meio a preocupações crescentes com a situação fiscal do Brasil. O país registra déficits nominais de quase 10% do produto interno bruto, enquanto os níveis da dívida dispararam nos últimos anos, em meio ao aumento dos gastos e às taxas de juros de dois dígitos.
Os mercados aguardam planos fiscais claros de ambos os candidatos, embora os investidores tenham expressado preocupações mais profundas com uma possível vitória de Lula.
Moretti afirmou que o ajuste foi possível porque o governo de Lula realizou revisões nos gastos para abrir espaço fiscal adicional.
Ele negou que o aumento estivesse relacionado às eleições, afirmando que se devia a novos dados. A lei eleitoral impede a criação de novos programas de assistência durante o período de campanha, mas os ajustes estão dentro da regulamentação, disse ele.
“Este é o governo cuidando daqueles que precisam, combatendo a fome, reduzindo a pobreza e criando condições para que milhões de brasileiros tenham mais renda, oportunidades e uma vida melhor”, afirmou Lula em uma postagem nas redes sociais.
Veja os comentários de analistas:
Richard Back, consultor político da Necton
- “Bolsa-família não estava no radar. É resposta para o momento da campanha e das pesquisas eleitorais”
- “Boa parte do ano a percepção de que entrar nesse caminho, de usar fiscal, poderia criar problemas para o ano que vem. Mas isso valia para o governo muito mais quando a reeleição de Lula era uma certeza, coisa que já não é mais”
Murilo Arruda, gestor na Morada Capital
- “Não há dúvidas: bateu o desespero no governo”
- “Bolsa hoje reflete dois vetores negativos: piora fiscal, com o anúncio de reajuste de 15% do Bolsa Família para 2027, e aumento do risco eleitoral, já que medidas de forte apelo popular podem ajudar Lula a recuperar aprovação”
- Em resumo: fiscal pior e cenário eleitoral potencialmente menos favorável ao mercado”
Isabela Fukase, gestora de renda fixa da Tivio Capital
- “Com certeza o Lula viu que apertou para o lado dele e soltou essa ‘bomba’. Ano passado já tinha ventilado que ele poderia aumentar o Bolsa Família por causa da eleição”
Marcelo Freller, estrategista de investimento do C6 Bank
- “Ibovespa virou depois que Lula fez o anúncio do reajuste do bolsa família, que tem um custo fiscal gigantesco para esse e para os próximos anos”
Fernando Siqueira, head de research da Eleven
- “O anúncio do aumento do bolsa família não estava no radar e é negativo do ponto de vista fiscal, uma despesa grande a mais. Mostra que qualquer um que assuma o governo ano que vem vai ter um ajuste fiscal grande para fazer”
- “O mercado vê como uma medida meio eleitoreira. Para o mercado, isso aumenta a chance de reeleição do Lula”
-- Com a colaboração de Gabriel Diniz Tavares, Leda Alvim e Barbara Nascimento.
Leia também
BC levemente ‘dove’ mantém porta aberta às vésperas das eleições, segundo economistas
Dólar ganha força com tom ‘hawkish’ do Fed e sinal de novas altas de juros nos EUA