Queda de popularidade e avanço de Flávio Bolsonaro desafiam estratégia de Lula

Presidente tem evitado mencionar filho de Jair Bolsonaro, segundo fontes ouvidas pela Bloomberg News, por acreditar que o senador é mais fácil de derrotar do que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que tem até o início de abril para decidir se entrará na disputa

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Bloomberg — O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem enfrentado dificuldades para responder à ascensão de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de intenção de voto enquanto aumentam as tensões dentro de seu círculo mais próximo sobre como conter esse avanço.

O cenário se soma a uma série de crises que vêm afetando sua popularidade e ameaçando suas chances na campanha eleitoral final de sua carreira.

Lula viu uma vantagem de dois dígitos evaporar em apenas quatro meses, e Flávio, o filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro, agora aparece com uma leve vantagem antes da eleição de outubro, ainda que em empate técnico e dentro da margem de erro.

Isso tem gerado divisões entre aliados que pregam paciência e aqueles que defendem que Lula parta para o ataque imediatamente, segundo pessoas familiarizadas com a situação.

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Ao mesmo tempo, o presidente enfrenta uma economia em desaceleração, preocupações inflacionárias decorrentes da guerra dos EUA no Irã e investigações de corrupção que vêm alimentando um sentimento antissistema em todo o Brasil.

A combinação desses fatores fez os índices de aprovação de Lula voltarem aos níveis mais baixos do ano passado, antes de a guerra comercial de Donald Trump contra o Brasil impulsionar sua popularidade e transformá-lo em favorito na disputa. Também reacendeu dúvidas sobre se Lula, aos 80 anos, é capaz de formular uma mensagem adequada ao eleitor brasileiro contemporâneo.

Uma ampla investigação sobre suspeitas de fraude no Banco Master, instituição que quebrou e cujo ex-CEO construiu conexões profundas com a elite política brasileira, tem pesado sobre o sentimento dos eleitores antes da eleição e representa risco político para Lula, embora ele não seja alvo de acusações no caso.

Cerca de 60% dos brasileiros apontam a corrupção como uma das principais preocupações do país, segundo o LatAm Pulse, pesquisa conduzida pela AtlasIntel para a Bloomberg News e divulgada na quinta-feira.

Cerca de 40% dizem que aliados de Lula são os mais envolvidos no escândalo, contra 28% que apontam os de Bolsonaro — mesmo que os políticos mais diretamente ligados ao ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, sejam associados ao ex-presidente.

Isso provavelmente se deve à percepção de que Lula, que se posicionou como defensor das instituições democráticas, é próximo do Supremo Tribunal Federal, que enfrenta uma crise de credibilidade por causa de aparentes vínculos entre dois ministros e Vorcaro.

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Quase metade dos brasileiros, 47%, considera que a corte está “totalmente envolvida” no caso Master — mais do que qualquer outra instituição avaliada pela AtlasIntel.

Lula começou a entrar em modo de campanha à medida que o caso Master se aprofundou.

Na semana passada, ele atribuiu a responsabilidade a Jair Bolsonaro e ao ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, dizendo que o problema surgiu durante suas gestões.

Também creditou ao seu governo a descoberta de irregularidades no INSS, caso no qual autoridades federais investigam se um de seus filhos tem alguma ligação (Lula também não é alvo de acusações nesse caso).

Por ora, o presidente não pretende apoiar iniciativas no Congresso que tenham como alvo o Judiciário, segundo aliados. Ele também tem evitado mencionar Flávio em eventos, decisão baseada na avaliação de alguns de seus interlocutores de que o senador de 44 anos é mais fácil de derrotar do que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, favorito do mercado e que também disputava o apoio de Jair Bolsonaro.

Defensores dessa estratégia pressionaram Lula a evitar ataques a Flavio até o prazo do início de abril para que Freitas decida se entrará na disputa, disseram pessoas com conhecimento do tema ouvidas pela Bloomberg News, que pediram anonimato para falar com franqueza.

Outros, porém, argumentam que essa cautela tem alimentado o crescimento do senador, permitindo que o filho de um ex-presidente preso por tentativa de golpe se apresente como uma versão mais moderada do pai.

A assessoria de comunicação de Lula não respondeu a pedido de comentário.

Pessimismo econômico

Ao mesmo tempo, o governo Lula corre para mitigar os efeitos da alta dos preços do petróleo causada pela guerra no Oriente Médio, um fator que ameaça acelerar a inflação no Brasil e no mundo.

O governo reduziu impostos, concedeu subsídios ao diesel e avalia novas linhas de financiamento para empresas afetadas pelo conflito e pelas tarifas dos EUA.

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Em eventos recentes, Lula reconheceu que os brasileiros não estão satisfeitos com a economia, apesar do baixo desemprego: 57% dizem que a situação atual é ruim, segundo o LatAm Pulse, enquanto 51% esperam piora nos próximos seis meses.

Cerca de 47% dizem que pretendem consumir menos nos próximos dias, ante um terço em dezembro, sinalizando preocupações crescentes com a alta de preços.

Aliados no Congresso começam a defender uma resposta mais agressiva.

Parlamentares do PT consideram uma proposta para ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda além da que beneficiou salários mensais de até R$ 5.000 neste ano, disse Pedro Uczai, líder do partido na Câmara.

A ideia é elevar a isenção para algo entre R$ 7.000 e R$ 10.000, afirmou Uczai em entrevista, embora tenha ressaltado que o partido ainda avalia se incluirá a proposta em sua plataforma eleitoral.

O governo, no entanto, não estuda novos planos de ampliação da isenção, segundo um integrante da equipe com conhecimento do tema ouvido pela Bloomberg News.

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As pesquisas indicam que isso pode não ajudar, mesmo que fosse adotado. As políticas econômicas de Lula são amplamente populares, com 74% apoiando a nova isenção — uma promessa central de sua campanha de 2022. Programas de renegociação de dívidas e de subsídio a medicamentos também têm forte apoio, mas nenhum deles se traduziu em ganhos eleitorais.

Aliados ponderam que ainda é cedo e que a intensificação da campanha ajudará os eleitores a associar esses benefícios ao presidente, cuja experiência consideram um trunfo.

Eles também esperam que Bolsonaro venha a ser cobrado por sua falta de experiência administrativa, pelo legado turbulento do governo de seu pai e por sua ligação com um suposto esquema de rachadinha durante seu período como deputado estadual, acusações que ele nega e cujo caso foi posteriormente arquivado pela Justiça.

Lula, por sua vez, indicou nesta quarta-feira que está pronto para partir para o ataque, ao dizer em um evento que “estamos entrando no período de contar a verdade” e que “este ano a disputa aqui é entre a verdade e a mentira, quem fez e quem não fez.”

Foi um recado aos Bolsonaro, embora ele novamente tenha evitado citar o nome de Flávio.

A AtlasIntel ouviu 5.028 brasileiros entre 18 e 23 de março. A pesquisa tem nível de confiança de 95% e margem de erro de um ponto percentual, para mais ou para menos.

-- Com a colaboração de Martha Beck.

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