Bloomberg — Quando Ana Paula Oliveira decidiu que queria emagrecer com injeções para perda de peso, seu médico disse não.
Segundo o médico, ela não preenchia os critérios clínicos necessários para obter a receita, obrigatória no Brasil para os medicamentos GLP-1 usados para emagrecimento. Mas Oliveira, que nunca teve obesidade, disse que começou a se sentir pressionada porque todas as amigas em São Paulo e colegas em um dos maiores bancos do país estavam perdendo peso com o uso de remédios como o Mounjaro, da Eli Lilly.
“Você começa a se sentir gorda mesmo sem estar”, disse Oliveira, de 33 anos, em entrevista à Bloomberg News.
Então ela encontrou outro caminho: do outro lado da fronteira.
Oliveira compra uma marca paraguaia de tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, de uma revendedora com quem fala pelo WhatsApp. Ela não sabe como o medicamento chega do Paraguai a São Paulo, apenas que recebe o produto no escritório por meio de um entregador da Uber. Paga cerca de R$ 1.800 por 60 miligramas, suficiente para cerca de seis meses na dose mínima. Isso equivale a cerca de um quinto do custo mensal do Mounjaro na mesma dosagem nas farmácias brasileiras.
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A demanda por medicamentos contra a obesidade dispara em todo o mundo. O mercado global deve superar US$ 200 bilhões na próxima década e transformar não apenas as medidas corporais, mas também os custos dos seguros, as gôndolas dos supermercados, os estilos de roupas e até o setor aéreo.
A cultura brasileira obcecada pela beleza há muito faz do país um polo de tratamentos estéticos e cirurgias plásticas. Agora, o Brasil é o segundo maior mercado de medicamentos GLP-1.
Um em cada três brasileiros teria interesse em usar esses remédios se o preço fosse menor, segundo a Scanntech, mas a maioria não consegue arcar com o custo ou não se enquadra nos critérios para obter receita. Um mês de Mounjaro na dosagem mínima custa cerca de R$ 1.500, praticamente o equivalente a um salário mínimo mensal.
Isso deu origem a um comércio clandestino em forte expansão, que cresce junto com o apetite dos brasileiros por medicamentos para emagrecer, estimula uma onda de crimes e coloca em risco a saúde de milhões de pessoas.
Índia, EUA e Europa também enfrentaram falsificações e vendas ilícitas, mas o mercado informal no Brasil é singular pela escala e pela aceitação.
Há pouco estigma no Brasil em relação à forma como as pessoas conseguem medicamentos para emagrecer. Muitos compram os produtos pela internet ou por meio de amigos e familiares, sem acompanhamento médico, E falam abertamente sobre as compras, com pouca preocupação em relação aos riscos à saúde ou à procedência dos medicamentos.
Gabriela, uma babá de 29 anos que mora a cerca de 45 minutos de Brasília, disse que estava acima do peso, mas tinha receio de usar uma injeção de GLP-1. Ao ver uma amiga obter resultados com a versão paraguaia, conseguiu o contato da revendedora.
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Os frascos de tirzepatida chegam em uma embalagem com gelo, lacrados e protegidos por uma espuma, ao custo de cerca de R$ 700 para um mês de tratamento. Gabriela, que pediu para ser identificada apenas pelo primeiro nome ao falar sobre a própria saúde, disse ter perdido 25 quilos em cinco meses. Ela indicou a revendedora para a mãe e para amigas, e a vendedora às vezes faz promoções para compras em maior quantidade.
“As pessoas veem a mudança, sabe?”, disse ela. “Aí me pedem o número do telefone. E eu acabei indicando muita gente, muita mesmo. Virou uma febre.”
As receitas atendidas em farmácias não devem ser a maior fonte de GLP-1 no Brasil em 2026. Fora das drogarias, as vendas devem chegar a quase R$ 19 bilhões neste ano, segundo estimativas do Itaú BBA. Desse total, cerca de R$ 6,5 bilhões devem vir de produtos comprados no Paraguai e desviados ilegalmente para o Brasil, fora do sistema regulado de farmácias do país. O restante é fornecido sobretudo por farmácias de manipulação que preparam tirzepatida sob encomenda.
Versões genéricas mais baratas do princípio ativo do Ozempic chegaram recentemente ao mercado, mas também exigem receita médica.
Mesmo com a chegada dos genéricos, o Itaú BBA estima que versões manipuladas de GLP-1 e tirzepatida do Paraguai ainda poderão representar 43% de um mercado de GLP-1 que deve alcançar R$ 61 bilhões até 2030.
“O uso dessas canetas é subestimado porque muitas famílias e pessoas de baixa renda, apesar dos riscos significativos envolvidos, têm recorrido a um mercado paralelo não regulamentado e difícil de monitorar”, disse Claudio Felisoni de Angelo, professor na Universidade de São Paulo.
Caminho a partir do Paraguai
No início, Oliveira pediu a um parente que mora no Paraguai que levasse Tirzec para ela, uma marca de tirzepatida fabricada pela farmacêutica paraguaia Quimfa e vendida em frascos injetáveis. O produto é legal no Paraguai, mas não tem registro na Anvisa, órgão regulador de saúde do Brasil. Quando o estoque acabou, Oliveira encontrou uma revendedora pela internet.
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Em nota, a Uber disse que “no Uber Envios não é permitido enviar itens cujo transporte seja proibido por lei ou pelas regras da categoria”.
Em 10 de julho, a mídia local noticiou que agentes da Receita Federal em uma movimentada passagem que liga o Paraguai à cidade brasileira de Foz do Iguaçu apreenderam quase 6.000 canetas e frascos com remédio para emagrecimento escondidos dentro de um veículo. Foi a maior apreensão desse tipo já registrada na Ponte da Amizade, segundo as autoridades, e oferece uma dimensão da escala desse comércio.
Entre os medicamentos apreendidos estava o Tirzec. Representantes da Quimfa não responderam aos pedidos de comentário.
Uma vez do lado brasileiro da fronteira, os vendedores anunciam por grupos de WhatsApp e plataformas como o Facebook, permitindo que os clientes façam pedidos com uma simples mensagem online.
Em nota, a Meta disse que sua política não permite “anúncios que promovam a venda ou o uso de drogas ilícitas ou recreativas, ou de outras substâncias, produtos ou suplementos inseguros”.
O mercado oferece aos compradores pouca garantia sobre o que há dentro dos frascos ou sobre como os produtos foram fabricados. Também não há garantia de que tenham sido transportados e armazenados nas temperaturas exigidas para medicamentos injetáveis, risco especialmente relevante no clima quente do Brasil.
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“Não há como saber se um produto contrabandeado, além de parecer o medicamento original, contém de fato o que deveria conter”, disse Gonzalo Vecina, médico sanitarista, professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo e primeiro presidente da Anvisa.
Gabriela, por exemplo, percebeu que, quando ocasionalmente compra de uma prima o que ela afirma ser a mesma marca paraguaia que adquire da revendedora habitual, sente mais náusea e outros efeitos colaterais mais intensos.
A Dinavisa, agência reguladora de saúde do Paraguai, afirmou que todos os produtos registrados no órgão seguem os mais altos padrões de qualidade e que qualquer medicamento que entre no Brasil deve ficar sob responsabilidade da agência reguladora brasileira, a Anvisa.
“A Dinavisa realiza monitoramento e inspeções constantes em toda a região de fronteira para impedir vendas em estabelecimentos não autorizados”, disse Hernan Streber, presidente da associação do setor farmacêutico no Paraguai. “Os associados não vendem para empresas que não tenham autorização da Dinavisa.”
Junto com a Polícia Federal, a Anvisa atua para enfrentar os riscos à saúde causados por canetas para emagrecimento vendidas fora de farmácias licenciadas.
Os medicamentos apreendidos serão analisados para determinar o conteúdo dos produtos em circulação no mercado, ajudar a fortalecer investigações criminais e avaliar o risco para a saúde pública, segundo comunicado da Anvisa. A agência também interrompeu vendas ilícitas em sites populares.
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A Polícia Federal lançou recentemente uma operação no estado de São Paulo e afirmou ter encontrado indícios de uma rede envolvida na venda e distribuição de medicamentos para emagrecer vindos do Paraguai por meio de sites e aplicativos de mensagens.
A confiabilidade dos fornecedores de medicamentos manipulados também preocupa. A Anvisa afirmou que realizou 11 inspeções em farmácias de manipulação e importadores em 2026, o que resultou em oito interdições por falta de controle de qualidade, problemas de esterilização e presença de ingredientes não identificados.
Oliveira enfrentou o que acredita serem efeitos colaterais do medicamento: náusea, perda quase total de apetite, dificuldade para comer, fraqueza e fadiga, além de queda no desempenho na academia.
O mercado clandestino brasileiro faz com que muitos consumidores usem esses produtos sem supervisão médica, o que amplia o risco de dosagem incorreta ou de combinações perigosas com outros medicamentos.
Crime
Os consumidores estão tão determinados a conseguir versões mais acessíveis dos tratamentos que se dispõem a comprar pela internet sem fazer perguntas.
Essa demanda, combinada ao alto valor dos medicamentos injetáveis para emagrecimento, provocou uma onda de roubos pelas grandes cidades do país.
Há um ano, quatro suspeitos de máscaras e capacetes de motociclista entraram em uma farmácia no Morumbi, em São Paulo. Foram até os fundos da loja e roubaram canetas de Mounjaro e Ozempic do refrigerador. Durante o assalto, um taxista de 57 anos foi morto. Três pessoas foram presas e continuam detidas, segundo a polícia.
“Com a popularização desse tipo de medicamento de alto custo, percebemos aumento nos roubos a farmácias, principalmente com foco nesses remédios que ficam guardados nos cofres das drogarias”, disse Fernando Cesar de Souza, delegado do 37º Distrito Policial de São Paulo.
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As canetas roubadas da farmácia no Morumbi foram levadas para Paraisópolis, uma das maiores comunidades de São Paulo, onde esse tipo de mercadoria é revendido pela internet, disse de Souza. Uma caneta que custa cerca de R$ 1.000 em uma farmácia pode ser revendida por aproximadamente metade desse valor no mercado ilegal, afirmou.
Cerca de 560 roubos a farmácias foram registrados no estado de São Paulo nos primeiros oito meses do ano, uma queda de 18,5% em relação ao mesmo período do ano anterior, segundo dados compilados pelo estado.
Em alguns casos, os ladrões levam estoques cujo valor equivale a um ano de salário de vários trabalhadores.
“Em um momento em que esses medicamentos são caros e muito procurados, o incentivo à atividade criminosa naturalmente aumenta”, disse Vecina.
Hoje em dia, clientes que entram em uma drogaria no Itaim Bibi, distrito financeiro de São Paulo, frequentemente encontram seguranças armados na entrada. As farmácias estão reduzindo os estoques nas lojas, transferindo vendas para a internet e promovendo entregas diretas aos consumidores. Algumas instalaram fechaduras ou alarmes nas geladeiras.
Riscos à saúde
Os reguladores enfrentam uma variedade cada vez maior de produtos: medicamentos de países vizinhos, produtos manipulados, canetas de marcas conhecidas roubadas e itens potencialmente falsificados ou adulterados.
Entre 2018 e 2026, quase 3.000 eventos adversos relacionados ao uso de medicamentos GLP-1 foram registrados no Brasil, e quase metade ocorreu apenas em 2025, segundo a Anvisa. Os casos apresentaram diferentes níveis de gravidade e incluíram mortes.
Ainda assim, a demanda só cresce.
Cerca de 6% dos brasileiros usam atualmente medicamentos GLP-1, segundo estudo de junho da empresa de análise de varejo Scanntech. Mas quase um terço da população teria maior interesse em usá-los se os preços fossem mais baixos, mostrou a pesquisa. Considerando também as pessoas que já usaram esses medicamentos, cerca de 46% da população já experimentou ou teria maior propensão a experimentá-los diante de preços mais baixos.
“Esse é um dos números mais impressionantes quando analisamos até onde essa transformação pode chegar”, disse Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech.
Avanço dos genéricos
No Brasil, a concorrência dos genéricos pode reduzir os preços em até 70%, segundo estimativas do Morgan Stanley. Diferentemente dos produtos manipulados, os genéricos são medicamentos regulamentados e produzidos em larga escala.
A patente da semaglutida, principal ingrediente do Ozempic e do Wegovy, da Novo Nordisk, expirou no Brasil no início deste ano, e os reguladores aprovaram várias versões genéricas da injeção Ozempic, que já começam a chegar ao mercado.
A Novo afirmou que concentra esforços na ampliação da capacidade de produção no Brasil. “Ressaltamos que os medicamentos devem ser adquiridos apenas por canais autorizados, utilizados de acordo com as indicações aprovadas e sempre sob supervisão de um profissional de saúde”, afirmou a empresa em comunicado.
A Lilly ainda tem mais uma década de vigência da patente do Mounjaro no Brasil. Nos EUA, o medicamento é comercializado para perda de peso com o nome Zepbound.
Em nota, a Lilly alertou que outros produtos que alegam conter tirzepatida não foram avaliados nem aprovados pela Anvisa. “A venda desses produtos no Brasil é ilegal, e seu uso pode causar sérios danos à saúde dos pacientes”, afirmou a empresa. “Versões falsificadas ou manipuladas em larga escala de forma ilegal de tirzepatida representam riscos significativos, podendo, inclusive, colocar a vida em perigo.”
Oliveira não pretende deixar de comprar tirzepatida do Paraguai porque ainda não há uma alternativa genérica no Brasil.
Ela perdeu 9 quilos em três meses e passou do manequim 38 para o 34. “Perdi muito peso”, disse. “Mas é algo que realmente faz você questionar as coisas, porque todo mundo está usando, tanto quem precisa quanto quem não precisa.”
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