Deutsche vê aposta de Selic a 8% ao ano sob ameaça fiscal, diz estrategista

Drausio Giacomelli diz à Bloomberg News que a forma como o governo vai conduzir a discussão sobre a mudança da meta neste ano é determinante para a trajetória do juro

Deutsche Bank AG Headquarters as 3500 Job Cuts Announced
Por Felipe Saturnino e Barbara Nascimento
08 de Fevereiro, 2024 | 06:18 PM

Bloomberg — Um corte da Selic para um nível próximo de 8% ao ano deve ser viabilizado pela dinâmica benigna da inflação, mas um velho conhecido dos economistas e do mercado pode dificultar a tarefa. “O Brasil é um modelo de fator único: todos os caminhos levam ao fiscal”, disse Drausio Giacomelli, estrategista de mercados emergentes do Deutsche Bank.

Para Giacomelli, a saúde fiscal no Brasil piorou consistentemente no ano passado – um risco que pode levar a mais inflação e impedir o Banco Central de cortar os juros para além do consenso, afirmou em entrevista no escritório do banco em Nova York. O mercado de juros futuros indica uma taxa mais próxima de 9,5% ao ano.

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Segundo ele, o arcabouço fiscal “não existe” na prática, uma vez que o governo discute não apenas flexibilizações extras, mas também há pressão para uma mudança da meta para este ano, que mira por ora um déficit zero. “Se no primeiro ano, quando o arcabouço pode ser testado, se indica que vai mudar o gol em vez de acertar o chute, para que serve?”

A forma como o governo vai conduzir a discussão sobre a mudança da meta neste ano é determinante para a trajetória do juro, mais até do que o diferencial em relação às taxas americanas, segundo Giacomelli.

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Caso realmente se reveja o objetivo fiscal deste ano, o mercado, disse, observará se haverá uma trajetória de desaceleração clara dos déficits. “Se houver uma tendência para convergir, está longe do ideal, mas é um juro neutro caindo.” O Deutsche Bank estima um déficit de 0,8% do PIB neste ano.

Visão para o câmbio

O Brasil está bem posicionado entre os mercados emergentes - com participação relevante no mercado de commodities internacional - e o dólar deve seguir abaixo de R$ 5.

O Deutsche tem postura “moderadamente otimista” com a moeda brasileira e prevê o dólar a R$ 4,95 ao fim deste ano. A volatilidade do real tem recuado com uma forte balança comercial que torna o país agora menos vulnerável a oscilações nos fluxos especulativos, disse Giacomelli.

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O banco também está “bastante bullish” com a queda da Selic e recomenda apostar na queda dos juros futuros do DI para janeiro de 2026, além de uma aposta na queda do diferencial entre o DI para janeiro de 2029 e a taxa americana equivalente.

A expectativa é a de uma tendência de “achatamento” da curva brasileira, ou seja, uma diminuição do diferencial entre taxas de longo e de curto prazo no Brasil.

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