Gabrielli, coordenador de Lula, rejeita austeridade defendida pelo mercado

Em entrevista à Bloomberg News, José Sérgio Gabrielli rebate propostas do mercado para limitar ganhos reais do salário mínimo e flexibilizar gastos obrigatórios com saúde e educação; para ele, maior eficiência do gasto público ajudaria a conter o avanço da dívida

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Bloomberg — O coordenador do programa de governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu propostas de investidores para cortar gastos públicos e afirmou, em entrevista, que medidas de austeridade seriam desnecessárias caso o petista seja reeleito.

A avaliação de que o Brasil enfrenta uma crise fiscal é escandalosa, afirmou José Sérgio Gabrielli, que coordena o programa de governo de Lula e tinha tomado a frente na interlocução com investidores antes de perder espaço para o porta-voz econômico e atual ministro da Fazenda, Dario Durigan.

Gabrielli, cujas posições estão entre as mais à esquerda em uma campanha presidencial que também reúne vozes moderadas, disse que propostas do mercado financeiro como acabar com os aumentos reais do salário mínimo e flexibilizar as regras de gastos obrigatórios com saúde e educação são inaceitáveis.

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“Essas duas coisas são praticamente impossíveis de aceitar, porque um governo comprometido com o combate à desigualdade e com a ampliação dos gastos sociais não pode aceitá-las”, disse Gabrielli, ex-presidente da Petrobras.

“Isso não significa que não seja possível aumentar a eficiência do gasto público. Não significa que não seja possível tornar o gasto público mais efetivo.”

Lula está ouvindo uma ampla gama de opiniões enquanto formula a agenda econômica para um possível quarto mandato, deixando os mercados financeiros com pouca clareza sobre uma das principais questões em torno de sua tentativa de reeleição: como pretende enfrentar o crescimento da dívida pública.

A dívida bruta aumentou mais de 10 pontos percentuais desde que o presidente voltou ao poder, em 2023, e atingiu 82,5% do Produto Interno Bruto em julho.

Embora o governo tenha apresentado planos para alcançar um superávit primário no próximo ano, muitos investidores dizem que essa promessa carece de credibilidade.

As preocupações com o crescimento da dívida pública brasileira são justificadas, já que os investidores têm dúvidas legítimas sobre a trajetória dos gastos que o governo precisa enfrentar, disse Durigan em entrevista à Bloomberg News no mês passado.

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Os mercados financeiros têm apoiado cada vez mais o principal adversário de Lula, o senador Flávio Bolsonaro, assim como candidatos independentes com poucas chances de vencer a eleição de outubro.

Ainda assim, depois de resistir aos apelos para se aproximar mais diretamente do empresariado brasileiro, Lula recebeu 16 dos principais empresários e banqueiros do país para um jantar em sua casa na noite de segunda-feira.

Vários dos presentes ao jantar — entre eles Luiz Carlos Trabuco, do Banco Bradesco, e André Esteves, do BTG Pactual, mas não Gabrielli — disseram durante o encontro que a política fiscal de Lula está contribuindo para a persistência dos juros elevados, segundo dois participantes. Os convidados também afirmaram que os altos custos de financiamento estão prejudicando os balanços das empresas.

Lula respondeu dizendo que a relação entre dívida e PIB do Brasil era mais preocupante em governos anteriores e que ele sempre administrou as contas públicas com responsabilidade, segundo as duas pessoas, que pediram anonimato para falar sobre o encontro. O presidente reconheceu que os custos de financiamento estão elevados, mas afirmou que respeitará a autonomia do Banco Central na condução da política monetária.

O presidente disse que não mudaria a política fiscal às custas dos brasileiros mais pobres, segundo uma das duas pessoas. Ambas disseram que, de modo geral, o tom do encontro foi amistoso.

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Embora o programa de governo de Lula reconheça a necessidade de controlar o crescimento dos gastos, o presidente afirmou em entrevista a um veículo local na semana passada que não está preocupado com o nível da dívida pública.

O presidente ainda não definiu qual direção dará à política fiscal caso vença a eleição de outubro. Lula, de fato, costuma deixar que opiniões divergentes sobre questões importantes circulem entre assessores e aliados antes de intervir para tomar a decisão final.

“Esse é o estilo dele. É a sabedoria de um estadista”, disse Gabrielli. “Ele deixa as ideias fluírem e os debates acontecerem e, em determinado momento, arbitra.”

Meta de inflação

Lula tinha 47,1% das intenções de voto contra 42,6% de Bolsonaro em um cenário de segundo turno, segundo pesquisa AtlasIntel para a Bloomberg News publicada na segunda-feira. Na pesquisa anterior, realizada em julho, Lula tinha uma vantagem de cerca de 6 pontos sobre Bolsonaro, filho mais velho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Tanto Gabrielli quanto Durigan apontam a taxa de juros de 14% do Brasil como um dos principais fatores por trás do crescimento da dívida pública. Os elevados custos de financiamento também pesam sobre famílias e empresas, contribuindo para o aumento das dificuldades financeiras e da inadimplência.

O Banco Central, por sua vez, tem alertado que os gastos do governo destinados a estimular o crédito e o consumo tornam mais difícil a tarefa de desacelerar a inflação em direção à meta de 3% e aumentam a necessidade de uma política monetária extremamente restritiva.

Gabrielli rebateu essa avaliação ao afirmar que a própria meta de inflação é rigorosa demais. Melhorar a eficiência dos gastos públicos contribuiria mais para a situação fiscal do Brasil do que endurecer as regras de gastos, disse.

“Há ganhos significativos de eficiência a serem obtidos no setor público”, afirmou Gabrielli. “Temos uma meta de inflação que é irrealista. Uma inflação de 3%, no atual ambiente global, é uma meta muito severa.”

Entre as áreas em que Gabrielli vê espaço para melhorias estão a redução de subsídios governamentais ineficientes e mudanças na forma como as emendas parlamentares são alocadas no Orçamento federal. Mas ele rejeita a ideia de que o Brasil esteja enfrentando uma crise fiscal que exija uma resposta baseada em austeridade.

Como evidência, Gabrielli aponta para as reservas internacionais brasileiras, superiores a US$ 300 bilhões, e para o colchão de liquidez do Tesouro, suficiente para cobrir quase oito meses de vencimentos da dívida. Essas salvaguardas, argumenta, dão a Lula espaço para enfrentar os desafios fiscais sem recorrer a cortes acentuados de gastos.

“A saída de austeridade, quando você não tem um problema de austeridade, agrava e não resolve os problemas.”

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