Bloomberg — A pré-candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro ganhou força e surpreendeu céticos que inicialmente não acreditaram que sua decisão de disputar o cargo máximo do Brasil fosse real.
Alguns investidores e aliados de centro inicialmente viram a iniciativa como uma manobra para conseguir a anistia para seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, atualmente preso, em vez de algo sério. Muitos temiam que a candidatura de Flávio entregasse a eleição de outubro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas sua súbita alta nas pesquisas agora envia uma mensagem clara aos críticos: Flávio, que dois meses atrás não era considerado um candidato forte apesar de vir de uma família influente, tem uma chance real de se tornar o líder do Brasil.
A questão para a eleição de outubro é se o senador de 44 anos tentará pegar carona na popularidade do pai rumo à Presidência ou se abrirá seu próprio caminho.
Ao longo de duas décadas de carreira em cargos eletivos, Flávio raramente saiu da longa sombra política projetada por Jair Bolsonaro, o ex-capitão do Exército que saiu do baixo clero do Congresso para a Presidência em 2018 com um discurso militante de direita.
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Mas o caos de seu governo — centenas de milhares de mortes por Covid-19, desmatamento desenfreado que isolou o Brasil internacionalmente e, por fim, sua prisão por articular um golpe após a derrota em 2022 — afastou grandes parcelas do eleitorado. Esse legado complicado dá a Flávio motivos para buscar eleitores além da base fervorosa de apoio da família.
Durante anos, Flávio se apresentou como uma versão ligeiramente mais moderada da política do patriarca, instando tanto o pai quanto o irmão mais novo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, a moderarem o discurso por ganhos políticos.
“Eu acho que tem que ser uma direita mais centro-direita”, disse à Bloomberg News no início de 2024.
Nas últimas semanas, o senador adotou um tom ainda mais suave para atrair moderados que provavelmente ditarão o resultado da disputa em um país que permanece hiperpolarizado entre a esquerda liderada por Lula e a direita bolsonarista.
Flávio publicou nas redes sociais em defesa de Vinicius Junior, do Real Madrid, após o astro brasileiro sofrer ataques racistas em Portugal. Nesta semana, disse que contaria com “todos” para vencer a eleição em um texto que incluiu o uso de “todes, todys e todXs” — termos neutros de gênero mais associados à esquerda.
É um contraste marcante com seu pai, que certa vez disse que preferia ter um filho morto a um filho gay e foi condenado pela Justiça a pagar uma indenização por acusações de ter feito declarações racistas sobre um brasileiro negro.
Reticência do mercado
Ainda assim, Flávio tem um longo caminho para provar que é mais do que uma versão repaginada do pai. Para começar, críticos dizem que ele há tempos tem dificuldade em enunciar mudanças na marca Bolsonaro que vão além da cosmética.
Na economia, ele prometeu reiteradamente um ministro da Fazenda nos moldes de Paulo Guedes, que ocupou o cargo no governo Jair Bolsonaro e cujo apoio ajudou a trazer investidores receosos a bordo em 2018. Mas ainda não apresentou detalhes concretos de seus planos, apoiando-se em promessas vagas de cortes de gastos, privatizações e redução da burocracia, e sua primeira participação em um grande evento empresarial deixou investidores frustrados.
Flávio recusou alguns convites para reuniões privadas com investidores nas últimas semanas, ganhando tempo para desenvolver planos e aprender a linguagem do mercado, segundo pessoas familiarizadas com a situação ouvidas pela Bloomberg News.
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Ele ainda não iniciou contatos formais com potenciais chefes da área econômica, disseram as pessoas, que pediram anonimato para falar livremente. Mas os nomes que circularam — como o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto e o ex-secretário do Tesouro Mansueto Almeida — parecem cada vez menos propensos a desempenhar papel em sua campanha ou em um eventual governo.
Flávio não respondeu a um pedido de comentário.
Os mercados buscam desesperadamente uma alternativa a Lula, cujas políticas expansionistas ampliaram déficits e a dívida pública.
Mas, por mais que tenham apreciado Guedes, também se lembram da frequência com que Bolsonaro o contrariava: afinal, o quadro fiscal do país se deteriorou fortemente sob o populista de direita.
“Especialistas em políticas públicas de peso exigem um nível de autonomia que historicamente entra em choque com o estilo político centralizado e baseado na lealdade da família Bolsonaro”, disse Marcio Coimbra, chefe da Casa Política, empresa de lobby em Brasília. “Os receios relacionados às associações familiares continuam sendo obstáculos reais.”
Dilema familiar
Qualquer tentativa de desvio na mensagem política corre o risco de inflamar tensões dentro da volátil família Bolsonaro.
Eduardo, que já cogitou suas próprias ambições presidenciais, apoiou integralmente Flávio a partir dos EUA. Mas a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, madrasta dos dois, tem sido mais contida no apoio. Ela e Eduardo chegaram a trocar farpas publicamente.
Lula, por sua vez, aguarda o momento de atacar. Embora aliados tenham demonstrado alguma preocupação com a alta de Flávio nas pesquisas, outros dizem que o líder veterano não está alarmado.
Na visão deles, a força do senador torna menos provável que o preferido dos mercados, o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, concorra. Uma vez que fique claro que ele não disputará, estarão prontos para explorar as vulnerabilidades potenciais de Flávio — incluindo seus pedidos de anistia para o pai. Ele também foi investigado por um suposto esquema de rachadinha durante seu período como deputado estadual no Rio de Janeiro, embora tenha negado irregularidades e o caso tenha sido posteriormente arquivado.
Lula segue como leve favorito na corrida, disse Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas do Eurasia Group.
A aprovação do presidente, embora abaixo de 50%, ainda é suficiente para garantir a reeleição. Além disso, a melhora nas condições econômicas — incluindo desemprego baixo e uma moeda mais forte que deve ajudar a conter a inflação — joga a seu favor, diz Garman.
Ainda assim, pesquisas recentes sugerem que o Brasil pode não estar imune às tendências que vêm levando a América Latina de volta à direita: uma combinação de sentimento anti-incumbente e crescente preocupação dos eleitores com crime e segurança pública impulsionou vitórias conservadoras na Argentina, no Equador e no Chile.
Já há investidores que começam a simpatizar com Flávio, assim como ocorreu com seu pai.
“Certamente ele não é o candidato dos sonhos”, disse Ivo Chermont, economista-chefe da gestora Quantitas, com sede em Porto Alegre. “Os mercados estão entrando no modo ‘é o que tem para hoje’.”
As pesquisas mostram que Lula e Flávio têm taxas de rejeição semelhantes. Mas, se o senador continuar a parecer uma alternativa crível, é provável que investidores embarquem independentemente de sua capacidade de se diferenciar do pai, disseram várias pessoas do setor financeiro.
“Isso vai convencer algumas pessoas”, disse Mario Braga, analista geopolítico da consultoria RANE. “A questão é se vai convencer pessoas suficientes.”
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