Bloomberg Línea — Um dos setores mais afetados pelo “tarifaço” de até 50% de Donald Trump sofreu um impacto bilionário em 2025.
O café brasileiro deixou de gerar estimados US$ 441, 6 milhões em receitas com exportações em 2025, o equivalente a cerca de R$ 2,4 bilhões, segundo cálculos da Bloomberg Línea com base nos dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) divulgados nesta segunda-feira (19).
Em volume, as perdas alcançaram cerca de 1,01 milhão de sacas do arábica e 160 mil de sacas de café solúvel no período de impacto das tarifas, entre julho (mês do anúncio da taxação extra, que gerou efeito antes do início de vigência em agosto) e novembro, na comparação com a média registrada entre janeiro e junho, antes do aumento das tarifas. O Brasil é o maior produtor e exportador do grão.
Os cálculos de caráter ilustrativo, avalizados pela entidade, levam em conta também o preço médio por saca exportada nos períodos de comparação.
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Nos números fechados de todo o ano de 2025, os embarques brasileiros de café aos Estados Unidos somaram 5,38 milhões de sacas, queda de 55% em relação ao acumulado de 2024, quando o volume superou 8 milhões de sacas, segundo dados do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé).
Além do efeito das tarifas, a produção brasileira de café em 2025 foi mais restrita em comparação ao ano anterior, em linha com o ciclo de bienalidade negativa do café, quando a produtividade cai naturalmente após um período de safra mais abundante. Esse movimento era amplamente projetado pelo mercado.
Preço compensa queda em volume
Apesar da queda em volumes exportados, o resultado financeiro foi considerado positivo diante da menor quantidade de café disponível no mercado e da demanda global aquecida para o período: a receita das exportações somou US$ 15,5 bilhões para o período, um avanço de 24% na comparação anual.
Na soma de todos os destinos, os embarques do grão atingiram cerca de 40 milhões de sacas de café em 2025, um recuo de 21% em relação a 2024.
Durante o período da vigência das tarifas, entre julho e novembro, exportadores relataram cancelamentos de contratos (washouts) e postergação de compras por parte de torrefadoras americanas.
“Os principais importadores fizeram operações de washout, cancelaram contratos. Essa recuperação não acontece de forma imediata”, disse Márcio Ferreira, presidente do Cecafé, em resposta à Bloomberg Línea durante a entrevista coletiva de imprensa na tarde desta segunda-feira (19). Para Ferreira, parte desses volumes só deve retornar em safras futuras.
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Recuperação de vendas aos EUA
Ferreira, que soma mais de 40 anos de experiência no mercado de café, elogiou a atuação do governo brasileiro para solucionar a questão de tarifas ao país.
E disse que o Cecafé está em articulação com a National Coffee Association (NCA), as torrefadoras e com o Itamaraty e o Ministério da Agricultura para destravar, sobretudo, o café solúvel das taxações neste momento.
“Sabemos que existe, por parte do governo americano, uma preocupação para que o máximo possível dos produtos seja industrializado nos EUA, e não fora”, disse.
“Mas, como o café é um alimento que eles não produzem, a nossa expectativa continua sendo positiva para que, em determinado momento, as tarifas para o café solúvel venham a ser retiradas”, completou.
Estratégia para ‘driblar’ efeitos
Outra estratégia para ‘driblar’ os efeitos das tarifas é a diversificação dos destinos, algo que já ocorre em outros segmentos do agronegócio, como o de proteínas.
Nesse contexto, o avanço do acordo de livre comércio recém-assinado entre Mercosul e União Europeia é visto pelo setor como uma estratégia essencial para a abertura de novos mercados ao grão brasileiro.
Segundo o diretor geral do Cecafé, Marcos Matos, o setor trabalha com o cenário de que a implementação do acordo possa começar no segundo semestre de 2026.
“Para produtos industrializados, como café solúvel e torrado, o cronograma prevê uma desgravação tarifária ao longo de quatro anos”, explicou o executivo durante a entrevista coletiva de imprensa.
O tratado prevê a redução gradual de tarifas para produtos agrícolas, além de regras mais claras para comércio, sustentabilidade e rastreabilidade, o que pode ampliar o acesso do café brasileiro ao mercado europeu e reduzir a dependência de um único grande comprador, como os Estados Unidos.
“Quando você tem uma tarifa aplicada pelo seu principal cliente, é natural buscar alternativas. A Alemanha passou a comprar volumes muito relevantes”, disse Ferreira.
Os EUA, que lideravam o ranking entre os maiores importadores de cafés do Brasil, foram ultrapassados pela Alemanha no ano passado.
A maior economia da Europa adquiriu o equivalente a 13,5% de todos os embarques do grão brasileiro entre janeiro e dezembro do ano passado. Os americanos passaram à segunda colocação e responderam por 13,4% do total.
Em paralelo, o mercado asiático passou a comprar mais café do Brasil, o que ajudou a compensar parte da perda de espaço nos Estados Unidos: Japão e China elevaram suas compras em cerca de 19% no ano.
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A Colômbia, por sua vez, aumentou em mais de 75% as importações de café verde do Brasil em 2025 ante o ano anterior.
O movimento está associado à escassez global e à necessidade de manter padrões de qualidade e volume, segundo os porta-vozes do Cecafé. Apenas em dezembro, o avanço dos embarques ao país foi de 157%.
A triangulação, na teoria, é proibida para o café. A prática só pode ser feita se um produto passa pelo processo de industrialização antes de ser embarcado a outro país e depois aos EUA, por exemplo.
Segundo o órgão que representa os exportadores do grão, a equação reflete principalmente a formação de blends e a competitividade do café brasileiro.
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“Em alguns casos, países produtores importam café do Brasil para atender o consumo local, enquanto direcionam sua própria produção, que está com preços mais valorizados no mercado, para exportação.”
O reflexo das tarifas também pode ser visto nos cafés especiais.
Esse segmento respondeu por 20,3% das exportações totais brasileiras de café entre janeiro e dezembro de 2025, com o envio de 8,145 milhões de sacas ao exterior, um recuo de 10,9% em comparação aos 12 meses de 2024.
“Os cafés diferenciados tiveram uma queda proporcionalmente menor do que a média total das exportações, o que mostra maior resiliência desse segmento”, segundo o relatório do Cecafé.
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