Pressão do agro dos EUA por gasolina com mais etanol chega a votação decisiva

Produtores rurais defendem a liberação permanente da gasolina E15 como forma de ampliar a demanda por milho em meio a excesso de oferta e alta dos custos agrícolas

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Bloomberg — A longa campanha da indústria agrícola dos EUA para ampliar a oferta de gasolina com maior teor de etanol chegou a um momento decisivo, à medida que produtores rurais buscam novas fontes de demanda.

A Câmara dos Representantes deve votar nesta semana uma proposta que pode permitir a venda de gasolina E15 durante todo o ano em todo o país — medida amplamente vista como uma das formas mais diretas de expandir o mercado de biocombustíveis. Apesar do apoio bipartidário, o futuro da proposta ainda é incerto.

“Há claramente apoio dos republicanos para isso, mas também temos democratas em estados agrícolas que querem o E15”, disse Jacqui Fatka, analista do CoBank. “Só não sei se temos votos suficientes.”

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As tentativas de autorizar permanentemente a venda do E15 fracassam há mais de uma década, em grande parte devido à oposição de boa parte da indústria do petróleo, que argumenta que as exigências de mistura de biocombustíveis impõem custos significativos às refinarias.

Desta vez, porém, o cenário político é mais complexo. A proposta mais recente combina a ampliação do E15 com restrições às isenções das metas de mistura de biocombustíveis para pequenas refinarias — dispositivo que recebeu apoio de algumas grandes petroleiras, mas provocou forte resistência de operadores menores.

Essa divisão dentro do setor de refino virou agora um dos principais obstáculos para o E15.

Para os produtores de milho, o tema é crucial. O E15 — gasolina com 15% de etanol à base de milho — pode representar um impulso relevante para a demanda e para os lucros em um momento em que os agricultores lidam com safras recordes e aumento dos custos de insumos, como fertilizantes.

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“Se chegarmos ao E15, isso pode consumir até mais 15% da safra de milho dos EUA”, afirmou Chuck Magro, CEO da fornecedora de sementes Corteva, em teleconferência com analistas na semana passada. “Então isso seria muito, muito positivo para os agricultores americanos.”

Mesmo mudanças menores podem ter impacto significativo. Um aumento de um ponto percentual na taxa nacional de mistura durante o ano comercial de 2025-2026 representaria demanda adicional de 486 milhões de bushels de milho e mais 1,36 bilhão de galões de etanol, segundo a National Corn Growers Association.

O avanço do E15 ocorre no momento em que os EUA implementam suas metas mais agressivas até hoje para mistura de biocombustíveis, finalizadas em março após meses de atraso.

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Embora os padrões de combustíveis renováveis (RFS, na sigla em inglês) tenham sido bem recebidos por grupos do setor agrícola, eles mantêm praticamente inalterados os volumes de biocombustíveis convencionais — principalmente etanol de milho. Os níveis atuais de mistura também continuam abaixo dessas exigências.

Esse cenário ampliou o foco sobre o E15 como uma forma relativamente simples de criar mais demanda e reduzir essa diferença.

A guerra no Irã também fortalece a defesa do E15, já que a disparada dos preços do petróleo bruto impulsiona pedidos para acelerar a expansão do mercado de biocombustíveis.

O E15 normalmente custa menos por galão do que a gasolina convencional E10, embora também tenha menor densidade energética.

Sua expansão foi limitada em parte por restrições de volatilidade da gasolina que, na prática, impedem as vendas do combustível nos meses mais quentes em áreas onde a poluição atmosférica é um problema.

Embora a Agência de Proteção Ambiental dos EUA (EPA) tenha concedido dispensas temporárias nos últimos anos, elas enfrentaram resistência de algumas refinarias.

Defensores dos biocombustíveis afirmam que, se os EUA garantirem autorização permanente para o E15 durante todo o ano, mais postos passariam a comercializar o produto.

“A ampla maioria dos varejistas não oferece essa opção aos consumidores porque não quer fazer o investimento necessário ou assumir a carga administrativa de oferecer um combustível sazonal”, disse Geoff Cooper, CEO da associação do setor Renewable Fuels Association.

Persistem divergências sobre os gargalos estruturais. Algumas refinarias citam limitações de infraestrutura que restringem a capacidade de mistura de etanol, enquanto um grupo que representa operadores de postos de parada para caminhões e varejistas de combustíveis aponta para a baixa demanda dos consumidores.

Obstáculos regulatórios, incluindo aprovações para tanques de armazenamento e bombas de combustível, adicionam mais entraves.

Mas o que está claro é que mesmo as maiores metas já estabelecidas para mistura de biocombustíveis oferecem alívio limitado para produtores rurais que enfrentam aumento de custos e excesso de oferta.

“Para os produtores de milho, ficou tudo como estava”, afirmou Fatka.

A vinculação do E15 a mudanças nas isenções para refinarias complica ainda mais o avanço da proposta.

A legislação federal atual permite que pequenas refinarias obtenham alívio das metas anuais de mistura de biocombustíveis caso consigam demonstrar “dificuldade econômica desproporcional”.

A proposta mais recente limitaria fortemente essas dispensas, algo que defensores das pequenas refinarias alertam que ameaça a viabilidade econômica de algumas unidades.

A coalizão Small Refineries of America afirmou na semana passada que o texto atual inclui alterações “completamente prejudiciais” para pequenas refinarias.

Em carta ao presidente da Câmara, Mike Johnson, o grupo propôs permitir o E15 durante todo o ano, mas com mudanças menos drásticas nas isenções.

Uma iniciativa legislativa semelhante sobre o E15 fracassou no início deste ano, levando parlamentares a formar um conselho no Congresso para tentar chegar a um consenso. Com essas divisões ainda sem solução, a nova ofensiva em favor do E15 enfrenta mais uma vez um desfecho incerto.

--Com a ajuda de Erin Ailworth e Michael Hirtzer.

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