Bloomberg — As ações da Lindt & Spruengli caminham para registrar a maior perda trimestral em 17 anos, à medida que consumidores demonstram maior cansaço diante dos preços mais altos do chocolate, o que indica que a estratégia da fabricante suíça de repassar o custo do cacau pode estar chegando ao limite.
Os papéis da companhia reagiram recentemente após atingirem o menor nível em quatro anos, mas ainda acumulam queda de 15% desde o fim de março.
A fabricante de chocolates caminha para seu pior desempenho trimestral desde 2009, quando enfrentou os efeitos da crise financeira global.
A Lindt, conhecida por seus coelhos de Páscoa envoltos em papel dourado, viu o volume de vendas encolher depois de elevar os preços em quase 20% no ano passado, em resposta à disparada dos preços do cacau.
Em março, a companhia reduziu sua projeção de crescimento orgânico das vendas para 2026, passando de uma faixa de 6% a 8% para 4% a 6%. Segundo a empresa, a guerra entre Irã e Israel afetará os custos de transporte e de embalagens, além de pressionar ainda mais a confiança dos consumidores nos Estados Unidos e na Europa.
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A mudança no sentimento dos investidores ocorre depois de a Lindt, que posiciona seus produtos no segmento premium, ter sido durante anos a favorita do setor. A empresa havia superado concorrentes como a Barry Callebaut, fabricante de chocolate para uso industrial, que sofreu forte impacto nos volumes em razão da alta dos preços do cacau.
A americana Hershey também atravessou um trimestre difícil, com queda de 14% em suas ações.
Agora que os preços do cacau se normalizaram, a situação da Lindt na bolsa parece ter se invertido.
Os contratos futuros do cacau recuaram cerca de 60% desde a máxima histórica registrada em dezembro de 2024. Ainda assim, na semana passada tiveram a maior alta semanal desde novembro de 2020, à medida que cresciam as preocupações com a próxima safra, desencadeando uma onda de recompras de posições vendidas.
“O posicionamento premium não protege o negócio quando os preços sobem 19% em um único ano; na verdade, isso tende a retardar a recuperação dos volumes, já que consumidores que migraram para produtos mais baratos demoram mais para voltar”, afirmou Svetlana Menshchikova, analista da Morningstar.
Ainda assim, ela disse não ver sinais de “deterioração estrutural da força da marca Lindt ou de seu posicionamento competitivo”.
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Repasses de preços que acabam produzindo o efeito contrário são uma história recorrente entre empresas europeias de bens de consumo.
Grupos de luxo como a LVMH e a Kering, dona da Gucci, ainda se recuperam da queda na demanda após elevarem excessivamente os preços durante o boom de vendas da pandemia de Covid-19, enquanto consumidores reduziram gastos discricionários diante do aumento do custo de vida.
No primeiro trimestre, o crescimento dos lucros do setor de consumo discricionário ficou atrás de todos os demais segmentos europeus.
Enquanto isso, alguns participantes do mercado se perguntam se haverá mais surpresas negativas pela frente para a Lindt. As posições vendidas mais do que dobraram desde março, enquanto os analistas acompanhados pela Bloomberg estão divididos, com cinco recomendações de compra e seis de venda para as ações.
“Há preocupações entre os investidores de que a Lindt possa até mesmo ficar aquém dos 4%”, afirmou Jon Cox, analista da Kepler Cheuvreux.
“Se os resultados do primeiro semestre parecerem frágeis, há o risco de uma compressão contínua dos múltiplos”, disse ele, apontando para a valorização historicamente alta da empresa.
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Os consumidores europeus, em particular, parecem não estar dispostos a aceitar os aumentos de preços, de acordo com o analista do Bank of America, Antoine Prevot. Espera-se que a região seja o principal fator de peso negativo nos próximos resultados financeiros, compensando a solidez nas regiões da América do Norte e do Resto do Mundo, afirmou ele.
Analistas da Jefferies, incluindo Feng Zhang, que iniciou a cobertura com recomendação de “desempenho inferior” na semana passada, afirmaram que a Lindt precisará de mais cortes de preços para restaurar a competitividade e poderá enfrentar um “choque de realidade” em relação ao seu crescimento de médio prazo.
A empresa previu aumentos de preços gerais na casa de um dígito médio ao longo do ano corrente, embora planeje reverter os aumentos de preços anteriores em algumas regiões.
“Embora a recente queda nos preços do cacau não nos afete até 2027 devido à nossa estratégia de aquisição de longo prazo, já estamos reduzindo os preços na Suíça e na Alemanha em certos casos já a partir de 2026”, afirmou um porta-voz da Lindt em comunicado enviado por e-mail na semana passada.
Na sexta-feira, a empresa se recusou a comentar sobre a variação trimestral dos preços, devido ao período de silêncio.
Embora o preço dos futuros de cacau tenha caído para cerca de metade desde o ano passado, espera-se que a ameaça de um forte El Niño — o aquecimento periódico do Oceano Pacífico central e oriental — cause volatilidade adicional nos preços, aumentando a pressão sobre a empresa sediada em Kilchberg, na Suíça.
O portfólio de produtos premium da Lindt parece oferecer menos proteção, já que os aumentos de preço afetam a demanda dos consumidores, afirmou o analista da Bloomberg Intelligence, Ignacio Canals Polo, em uma nota. Embora seu posicionamento premium possa sustentar preços mais altos, a Lindt precisará ter cuidado para equilibrar isso com a elasticidade do volume e possíveis mudanças para marcas de preço mais baixo, escreveu ele.
Ainda assim, em um sinal de que tempos melhores podem estar à frente, Menshchikova, da Morningstar, destacou a projeção divulgada pela concorrente Barry Callebaut no início deste ano de recuperação dos volumes de vendas ao longo dos próximos 18 meses.
“Acreditamos que uma trajetória semelhante para a Lindt no segundo semestre é plausível, à medida que a normalização dos preços do cacau se reflita nos preços ao consumidor e a confiança dos consumidores se recupere gradualmente”, afirmou Menshchikova.
--Com a colaboração de James Cone.
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