Bloomberg — O Brasil começa a sentir o impacto da cota de importação de carne bovina da China; a redução nos embarques para o maior mercado externo do país gera reflexos em toda a cadeia de suprimentos.
A Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec) informou, na quinta-feira (16), que as empresas processadoras estão com menos opções para os embarques que normalmente teriam a China como destino. A mudança ocorre no momento em que o país sul-americano enfrenta o risco de ficar fora do mercado europeu.
As empresas aceleraram as exportações para a China no primeiro semestre do ano, antes que as restrições entrassem em vigor, enquanto os EUA ressurgiram como um destino sólido e a Rússia recuperou importância como comprador. No entanto, nenhum desses mercados chega perto de substituir a China.
“Não existe outro comprador com o apetite da China”, disse Roberto Perosa, presidente da Abiec, em entrevista coletiva.
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“Nenhum outro mercado consegue absorver os volumes que a China compra.” Ele acrescentou que não vê margem para negociação com o país asiático.
A decisão da China de restringir as compras está afetando pecuaristas, frigoríficos, operadores de câmaras frigoríficas e até mesmo empresas farmacêuticas que dependem de subprodutos bovinos, afirmou Perosa.
Algumas processadoras já começaram a demitir funcionários, enquanto outras colocaram trabalhadores em férias coletivas para se ajustar à demanda mais fraca.
Como se espera que as medidas de salvaguarda da China permaneçam em vigor por três anos, as empresas estão se preparando para um ajuste prolongado, e não apenas para uma desaceleração temporária.
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Esse cenário mais difícil também pode acelerar a consolidação do setor, com grandes empresas de carne potencialmente adquirindo rivais menores à medida que as margens sofrem pressão, disse Perosa.
A cota preferencial de exportação do Brasil de 1,1 milhão de toneladas de carne bovina para a China, sujeita a uma tarifa reduzida de 12%, já foi esgotada.
Quaisquer embarques acima desse limite agora estão sujeitos a uma tarifa adicional de 55%.
A Abiec prevê uma queda acentuada nas exportações de carne bovina do Brasil para a China em relação ao volume de cerca de 1,65 milhão de toneladas de 2025, disse Perosa. Projeta-se que as exportações totais de carne bovina brasileira caiam cerca de 10% este ano. Espera-se que o segundo semestre traga preços de exportação mais baixos, à medida que a concorrência pela carne bovina brasileira diminui.
A situação na Europa também contribui para a incerteza. O Brasil enfrenta a perspectiva de ser excluído desse mercado, uma vez que ainda não se adequou às normas da União Europeia contra o uso excessivo de antibióticos em animais destinados à produção de alimentos.
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Embora a UE represente uma parcela muito menor das exportações de carne bovina do Brasil do que a China, as decisões tomadas em Bruxelas frequentemente repercutem nos mercados globais, afirmou Perosa.
“Quando a União Europeia toma uma decisão, isso afeta o mundo todo, mesmo que os volumes que vendemos para lá sejam relativamente pequenos”, disse ele. “Estamos trabalhando para encontrar uma solução que nos permita manter os fluxos comerciais com o bloco.”
Representantes do setor têm apresentado propostas técnicas às autoridades brasileiras enquanto as negociações prosseguem, em um esforço para preservar o acesso ao mercado, acrescentou ele.
O Brasil poderia buscar exportar mais produtos para os EUA, onde a oferta tem sido restrita e os preços elevados devido à escassez de gado. Embora esses embarques nos primeiros cinco meses do ano tenham registrado queda em relação a 2025, projeta-se que os EUA importem um volume recorde de carne bovina este ano. A carne também está isenta das tarifas de 25% anunciadas recentemente pelos EUA para a maioria dos produtos brasileiros.
Apesar dos desafios nas exportações, espera-se que o rebanho bovino do Brasil permaneça praticamente estável, em cerca de 195 milhões de cabeças em 2026, praticamente sem alterações em relação ao ano passado.
O mercado interno continua sendo a maior fonte de demanda para o setor, mas as exportações desempenham, há muito tempo, um papel crucial no equilíbrio da oferta. Com o arrefecimento da demanda chinesa e o aumento das incertezas na Europa, esse equilíbrio torna-se cada vez mais difícil de manter.
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