Itaú BBA vê Raízen como caso isolado e mantém confiança no crédito do setor sucroenergético

Banco afirma que usinas chegam ao ciclo de margens menores com menos alavancagem, dívidas mais longas e maior liquidez do que em crises anteriores

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Bloomberg Línea — A reestruturação extrajudicial da Raízen (RAIZ4) não mudou a avaliação de risco do Itaú BBA sobre o crédito ao setor sucroenergético, segundo avaliação de Pedro Fernandes, diretor de Agronegócio do banco.

Para o executivo, a maior parte das usinas entra no ciclo atual de preços mais baixos de açúcar e etanol com dívidas mais longas e menor alavancagem do que em crises anteriores.

“A Raízen é um caso específico e não reflete a nossa percepção da saúde financeira do setor”, disse Fernandes, em resposta a questionamento da Bloomberg Línea durante a apresentação do relatório Visão Agro 2026/27, nesta quinta-feira (2).

O Itaú BBA tem R$ 25 bilhões de exposição ao setor de açúcar e etanol — sem incluir a Raízen — dentro de uma carteira total de agronegócio de cerca de R$ 135 bilhões.

Segundo o executivo, o Itaú possui quase quatro vezes mais exposição ao setor do que o segundo colocado.

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De acordo com a lista de credores em negociação com a Raízen, o Itaú tem a receber cerca de R$ 1 bilhão da empresa. O BNP Paribas, o Bradesco e o Rabobank estão entre os maiores credores. A Raízen aprovou recentemente com os credores a proposta de reestruturar cerca de R$ 65 bilhões em dívidas. Trata-se do maior caso de reestruturação extrajudicial do país.

O banco mantém a projeção, anunciada em abril deste ano, de crescimento de 10% para sua carteira de agronegócio em 2026, desconsiderado o efeito cambial.

Fernandes disse que, embora muitos grupos devam registrar fluxo de caixa negativo após juros e investimentos nesta safra, o cenário faz parte do ciclo do setor.

“Apesar de esta ser uma safra em que muitos grupos terão fluxo de caixa negativo depois de pagar juros e realizar investimentos, isso faz parte do ciclo”, disse.

O executivo afirmou que a exclusão da Raízen da carteira sucroenergética do banco não foi uma decisão tomada após o início da reestruturação.

Segundo ele, o banco historicamente não inclui a companhia nessa exposição porque o peso do negócio de distribuição de combustíveis em seu faturamento dificulta separar os créditos ligados às operações de açúcar e etanol daqueles destinados às demais atividades.

O Itaú não detalhou a exposição à Raízen nem como pretende tratar, em uma eventual reestruturação, os créditos associados aos negócios de distribuição e de energia.

A leitura do diretor do Itaú BBA para o restante do setor é que os grupos aproveitaram o ciclo anterior de preços favoráveis para reduzir a alavancagem e alongar dívidas, em particular por meio do mercado de capitais.

“Eu acho que houve um fenômeno muito importante, que foi a decisão, muito correta, das empresas de acessar o mercado de capitais de dívida. Nós apoiamos esse processo.”

Fernandes disse que, em períodos anteriores de açúcar abaixo do custo de produção, as usinas entravam no ciclo adverso com alavancagem acima de 2,5 vezes. Agora, segundo ele, os grupos chegam com indicador inferior a 1,5 vez.

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A diferença, segundo o executivo, reduz a necessidade de cortar de forma abrupta os investimentos em renovação de canaviais quando os preços recuam.

Segundo o relatório do banco, a projeção de crescimento da área colhida no Centro-Sul em 2026/27 incorpora uma menor taxa de reforma dos canaviais, que pode cobrar seu preço na safra seguinte.

O Itaú BBA estima moagem de 644,8 milhões de toneladas no Centro-Sul, alta de 5,5% ante 2025/26, sustentada por expansão de 2,3% da área e ganho de 3,1% na produtividade agrícola.

Segundo Mariana Regina Zechin De Lucca, analista de Consultoria Agro do Itaú BBA, as usinas e os produtores entraram neste ciclo mais preparados para lidar com margens menores, depois de alongar dívidas e reforçar a liquidez em relação a crises anteriores.

“É um nível de preparação que não se via até então no histórico do setor”, afirmou a analista.

“Estamos em um ambiente de margens pressionadas? Sim, tanto para o etanol quanto para o açúcar, mas realmente o que a gente vê é um fôlego do setor”, acrescentou.

Ela reconheceu, porém, que as margens seguem pressionadas tanto para açúcar quanto para etanol e que as incertezas regulatórias reduzem a previsibilidade de caixa das empresas.

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O relatório aponta riscos ligados à precificação da gasolina, ao mercado de Créditos de Descarbonização, os CBIOs, e ao corte de geração de bioeletricidade. O documento também cita juros elevados e preços deprimidos como fatores que limitam a rentabilidade das usinas.

Para 2026/27, o Itaú projeta produção recorde de 38,4 bilhões de litros de etanol no Centro-Sul, alta de 14% ante a safra anterior.

Desse volume, 10,3 bilhões de litros devem vir do milho, o equivalente a 27% da produção regional. O aumento da oferta de cana, a retomada do mix alcooleiro e a expansão do etanol de milho devem manter os preços do renovável pressionados no ciclo.

No açúcar, o banco trabalha com a perspectiva de um mix açucareiro de 46,4% no Centro-Sul, abaixo dos 50,4% registrados em 2025/26.

A estimativa resulta em produção de 39,4 milhões de toneladas, queda de 1 milhão de toneladas na comparação anual. O relatório avalia que patamares acima de 48,5% não são realizáveis, dadas as condições observadas no início da safra.

No mercado global, a projeção é de reversão de um superávit de 2,8 milhões de toneladas em 2025/26 para um déficit de 700 mil toneladas em 2026/27.

O ajuste esperado decorre do desincentivo ao cultivo de cana e beterraba provocado pelos preços mais baixos do açúcar, embora o banco ressalve que essa conta ainda não incorpora eventuais efeitos do El Niño sobre a produção.

A maior preocupação está nos fornecedores de cana, sobretudo os mais expostos a áreas arrendadas e com menor capacidade de alongar dívidas. Fernandes disse que o banco já ouve relatos de fornecedores que repassam soqueiras às usinas por falta de recursos para manter os tratos culturais.

Segundo ele, o banco seguirá apoiando empresas que preservem a disciplina financeira e evitem ampliar riscos em um momento de margens apertadas.

O crescimento da carteira deve se concentrar em atividades com demanda adicional por capital, como esmagamento, biodiesel, etanol de milho, comercialização e financiamento de insumos.

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