Bloomberg — O aumento dos preços do petróleo causado pela guerra no Oriente Médio elevou os custos para os exportadores de safras no Brasil, onde os produtores dependem muito de caminhões movidos a diesel para o transporte.
O Brasil está no pico do escoamento da soja. A alta do diesel encarece o transporte até os terminais e intensifica as pressões inflacionárias no restante da economia.
De acordo com analistas e corretores, vários traders de commodities suspenderam as ofertas de soja nos mercados locais brasileiros na semana passada, em meio a temores de um aumento acentuado de curto prazo nos custos de frete.
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O diesel representa uma grande parte dos custos comerciais e, sem ferramentas de hedge contra picos de preços, os comerciantes estão expostos a grandes perdas.
Os comerciantes de commodities estiveram menos ativos no Brasil recentemente, pois os riscos de frete se somaram às preocupações sanitárias que atingiram algumas remessas para o principal comprador, a China, disse João Henrique Teodoro, consultor da Patria Agronegócios.
Os problemas ocorrem em um momento particularmente delicado para o Brasil, o principal fornecedor de soja da China nesta época do ano. Uma guerra prolongada e a volatilidade contínua do frete podem criar gargalos, levando os importadores a comprar soja de outras fontes, como os EUA ou a Argentina.
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“As empresas precisam ter uma maneira de planejar e, dependendo de quanto tempo isso levar, poderemos de fato ver complicações na logística”, disse Adriano Gomes, analista de mercado da AgRural.
Sem nenhum sinal de alívio, as empresas de transporte rodoviário podem começar a impor sobretaxas de emergência por causa da guerra, disse Silvio Kasnodzei, presidente do sindicato que representa as empresas de carga no estado do Paraná, importante produtor agrícola.
O governo brasileiro anunciou reduções de impostos federais sobre combustíveis para proteger os consumidores do aumento dos preços do petróleo, mas as medidas não são suficientes para aliviar a incerteza das empresas de transporte rodoviário, acrescentou Kasnodzei.
Ao fechar negócios para a soja no Brasil, os comerciantes que reservam cargas a serem embarcadas nos próximos meses estão expostos a flutuações no custo do frete, disse Rodrigo Gonçalves, CEO da empresa de soluções logísticas goFlux.
Se um trader que reserva cargas para maio mais tarde observar um aumento nos custos de frete, um negócio que de outra forma seria lucrativo pode se transformar em um grande prejuízo, acrescentou.
Isso se soma a um ambiente já oneroso para as taxas de frete agrícola devido à alta demanda sazonal.
Os custos de transporte por caminhão aumentaram no início deste ano, pois as chuvas forçaram os agricultores a acelerar a colheita e a movimentar grandes volumes em um período de tempo mais curto. A infraestrutura rodoviária precária também levou a tempos de espera mais longos do que o normal em algumas rotas importantes em fevereiro.
Embora os preços locais dos combustíveis sejam influenciados pela estatal Petrobras, os caminhoneiros viram os preços do diesel subirem no campo mesmo antes de a empresa aumentar oficialmente os preços no atacado.
Apenas nos primeiros oito dias de março, o preço do diesel vendido pelas distribuidoras de combustível aos postos de abastecimento aumentou quase 14%, de acordo com cálculos do Instituto Brasileiro de Planejamento e Tributação. O preço da Petrobras permaneceu inalterado no período. A empresa só anunciou na sexta-feira que iria aumentar o custo para as distribuidoras.
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Enquanto nos Estados Unidos as barcaças desempenham um papel significativo no transporte de longa distância da soja para exportação, no Brasil um estudo da Universidade de São Paulo constatou que 55% da soja dependia de caminhões para chegar aos portos.
Os volumes transportados por rodovias aumentaram nos últimos anos, pois os investimentos em infraestrutura ferroviária ou fluvial não acompanharam o ritmo do aumento da produção agrícola.
--Com a ajuda de Mariana Durao.
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