Bloomberg Línea — Em qualquer viagem para conhecer as novas dezenas de vinícolas que se estabeleceram no Sudeste brasileiro, um nome aparece com recorrência: Murillo de Albuquerque Regina.
O nome do engenheiro agrônomo é repetido por quase todos os produtores que contam como decidiram plantar uvas entre São Paulo e Minas Gerais.
Isso porque ele desenvolveu um método que “engana” as videiras e faz com que a colheita das uvas deixe de acontecer no verão, como ocorre em todo o mundo, e passe a ser feita no inverno, quando as condições climáticas na região são ideais para uvas que podem se tornar bons vinhos.
Em pouco mais de duas décadas, a área onde antes o foco era praticamente todo no café passou a ter uma produção pujante de vinhos finos.
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Reconhecido em dezembro de 2025 como Agrônomo do Ano pela Associação de Engenheiros Agrônomos do Estado de São Paulo, Regina reconhece a importância da sua pesquisa, mas evita o rótulo de protagonista solitário.
“O movimento é fruto de um esforço coletivo”, disse em entrevista à Bloomberg Línea.
Para ele, uma ideia de pesquisa agronômica só faz sentido quando sai do papel. “O resultado do estudo ou vira um artigo científico, e pode ter chance de empregar-se numa estante de uma biblioteca, ou vira vinho na garrafa, emprego no campo, emprego na cidade, emprego no restaurante, emprego no hotel.”
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O agrônomo nasceu no Sul de Minas Gerais e construiu seu raciocínio a partir de uma observação simples. Ainda adolescente, ao acompanhar a cafeicultura, percebeu o papel decisivo do clima de inverno na qualidade do grão.
“Desde adolescente sabia da importância que era o clima do inverno do sul de Minas Gerais para a qualidade do café”, afirmou. Dias ensolarados, noites frias e solo seco formam o pano de fundo da colheita do café e, mais tarde, ele perceberia, também dos grandes vinhos do mundo.
Durante sua formação em viticultura e enologia, Regina encontrou a conexão.
“Quando aprendi que o clima para fazer vinho de qualidade é exatamente esse, pensei que era muito lógico, se nós quisermos fazer vinho aqui, temos que inverter o ciclo da planta”, disse.
A chave estaria em deslocar a maturação da uva para o outono e o inverno, período mais seco e com maior amplitude térmica no Sudeste. “E qual é o instrumento para inverter o ciclo da planta? É fazer uma poda diferenciada”, explicou.
Foi a partir dessa interpretação que ele passou a testar, no início dos anos 2000, o manejo que ficaria conhecido como dupla poda, ou como colheita de inverno.
Nesse ponto, Regina assume o protagonismo técnico. “No caso do vinho de inverno, aí sim, na questão puramente tecnológica, científica, eu me considero pai”, afirmou.
“Fui o primeiro no Sudeste brasileiro a plantar uma muda de videira, de um experimento de videira para falar: essa planta vai ter que responder a uma poda diferenciada para eu colher, e colocar ela para amadurecer a uva a partir de maio para colher em julho”, explicou.
A ciência, no entanto, só se converteu em resultado econômico quando virou vinho. Regina conta que, ao colher as primeiras safras experimentais e confirmar o potencial da uva, tratou de vinificar. “Corri para fazer vinho”, disse.
Na Epamig, onde atuava como pesquisador, modernizou a estrutura de vinificação para servir como base de apoio aos pioneiros. “Aqui na Epamig eu já havia modernizado uma vinícola para servir de base incubadora de empresas.”
Quando empresários e produtores perguntavam se o vinho realmente funcionava, ele não recorria apenas a artigos científicos. “Em vez de ficar falando, eu abria uma garrafa.”
O contexto econômico ajudou, segundo ele.
“Naquele momento da década de 2000, o café atravessava uma crise gigantesca, preços baixos, e o cafeicultor buscava alternativas”, disse. Ao mesmo tempo, surgiu um perfil de investidores de fora do agro, com médicos, empresários e profissionais liberais atraídos pelo vinho. “Tem crise no café, tem a qualidade do vinho e tem a curiosidade de um tanto de gente de outros setores por causa desse glamour do vinho.”
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A geografia completou o cenário. O Sudeste concentra renda, população e rotas turísticas. “Se você analisar bem e somar a população dos estados de São Paulo, Minas Gerais, e Rio de Janeiro, nós somos 80 milhões de habitantes”, afirmou. As novas regiões vitivinícolas estão a poucas horas de carro desses grandes centros, o que facilita tanto a venda direta quanto o enoturismo.
Duas décadas depois, Regina defende que o modelo se mostrou sustentável financeiramente.
“Se não houvesse sustentabilidade comercial, estaríamos há 21 anos perdendo dinheiro, e ninguém aguenta um negócio assim”, disse.
Ele rebate a crítica de que o vinho de inverno seria caro quando comparado com importados de qualidade semelhante. “Eu acredito que é um erro falar que o vinho de inverno é um vinho caro.” Segundo ele, rótulos brasileiros entre R$ 100 e R$ 150 competem com vinhos estrangeiros que chegam ao país por valores muito mais altos.
“A gente tem que comparar coisas comparáveis.” O custo maior, reconhece, vem da baixa produtividade e da carga tributária. “Os impostos que incidem sobre o vinho no Brasil, são no mínimo o dobro do que os nossos concorrentes da América do Sul.”
Hoje, ele descreve o setor como em fase de consolidação.
“O vinho de inverno hoje já passou daquela primeira fase de curiosidade, está em consolidação”, afirmou.
Vinícolas que plantaram nos primeiros anos agora investem em restaurantes, pousadas e centros de visitação, mas Regina diz que isso não é suficiente para operações maiores.
“Muitas estão produzindo em torno de 50.000 garrafas por ano, mas isso não se sustenta só com turismo receptivo.” A estratégia, segundo ele, passa por equilibrar enoturismo, vendas para restaurantes e comércio especializado e canais online.
Paralelamente, a organização coletiva ganhou peso. À frente da Associação Nacional de Produtores de Vinhos de Inverno (Anprovin), que tem mais de 50 vinícolas associadas, Regina ajudou a estruturar um sistema de certificação e rastreabilidade.
“Garantir que esse vinho não seja objeto de fraudes”, disse. Em fevereiro de 2025, o setor obteve a indicação de procedência para os vinhos de inverno do Sul de Minas, passo inicial rumo a uma denominação de origem.
Para o agrônomo, o futuro do Sudeste como região vitivinícola depende menos de euforia e mais de tempo. “Vai haver crise no vinho? Vai, com certeza”, disse. Ainda assim, ele disse que o caminho é irreversível. “Esse vinho, na minha opinião, ele nunca mais deixa de existir, porque ele tem a mesma e única verdade absoluta do café. Ele é bom.”
Segundo Regina, o desafio agora é respeitar o tempo da videira, do vinho e da própria maturidade do setor para que o Sudeste brasileiro consolide, com método e paciência, um lugar definitivo no mapa do vinho.
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