Bloomberg Línea — A Dengo decidiu manter suas receitas e preservar a qualidade dos produtos, mesmo diante da disparada do preço do cacau nos últimos anos.
Enquanto parte do mercado debate a polêmica em torno do “sabor chocolate”, a marca aposta em reforçar sua proposta premium e a origem do cacau brasileiro.
“Nós não vamos abrir mão de receita”, disse a CEO Cíntia Moreira em entrevista à Bloomberg Línea, ao descrever a decisão da empresa de manter a formulação dos produtos mesmo diante da volatilidade da commodity na ICE, a bolsa de Nova York.
Essa decisão resume bem a estratégia da companhia de buscar capturar maior valor a partir de decisões que aumentem a sua eficiência operacional em vez de reduzir o percentual de cacau presente no produto ou até, em última instância, diminuir o valor pago aos produtores.
O presidente Lula sancionou nesta semana uma lei que estabelece uma nova espécie de “régua” a ser seguida pelas empresas de chocolate: produtos que tenham menos de 35% de sólidos totais de cacau (ao menos 18% de manteiga de cacau e 14% isento de gordura) em sua composição precisam indicar que se tratam de um alimento “sabor chocolate”.
⟶ Assine as newsletters da Bloomberg Línea e receba as notícias do dia em primeira mão no e-mail.
A resolução ganhou espaço nas redes sociais e chamou a atenção dos consumidores, que têm ampliado a atenção para a composição - e substituições - que a indústria chocolateira tem utilizado para tentar mitigar os efeitos da alta histórica do cacau nos últimos anos.
No caso da Dengo, a resposta para a alta dos preços do cacau foi preservar a integridade (e a qualidade) do chocolate enquanto busca ajustar processos.
“Em nenhum momento nós pedimos para [a área de] inovação desenvolver produtos com mais recheio, ou com wafer, ou com biscoito”, afirmou. “Onde nós fomos buscar eficiência? Em operações, em processos”, conta a executiva.
A estratégia da companhia está ancorada em três pilares definidos desde a fundação da marca, conta a executiva: elevar o impacto positivo na cadeia do cacau, a sustentabilidade e focar no produto premium.
A marca foi criada em 2017 por Guilherme Leal, que também é cofundador da Natura, e Estevan Sartoreli, que já atuou como gerente de Marketing na Natura. Ambos seguem no conselho da Dengo.
Segundo a executiva, a Dengo nasceu da leitura de que o cacau é uma cadeia historicamente desigual, e que o valor pago pela amêndoa não era revertido aos produtores.
“O pequeno produtor não recebia valor adequado e vendia [o cacau] como commodity, sem incentivo para focar na qualidade”, disse a executiva.
A proposta da Dengo foi inverter essa lógica e focar na compra de amêndoas de maior qualidade, o que também se traduziu em um prêmio pago sobre o valor médio dessa amêndoa.
Nas principais regiões do Brasil é possível, inclusive, encontrar pequenos produtores que têm focado justamente na produção do cacau (e do chocolate) fino, enquanto reduzem a produção do tipo commodity. (Leia mais sobre esse movimento aqui).
A Dengo compra cerca de 490 toneladas de amêndoas por ano, principalmente do sul da Bahia e de regiões da Amazônia, incluindo Pará e Amazonas.
Segundo a executiva, a tentativa dos produtores de atender aos padrões exigidos pela empresa ficou conhecida como “critério Dengo”, já que a companhia tolera no máximo 2% de defeitos nas amêndoas de cacau.
Outro critério é que os produtores precisam ter acompanhamento técnico para elevar o padrão produtivo dos cacaueiros.
A empresa informa nas embalagens de seus produtos que paga acima do mercado o valor do cacau.
Questionada, a empresa disse que a variação sobre o prêmio pago muda conforme o ciclo da commodity na bolsa de Nova York.
Até 2023, o prêmio chegou a ficar entre 80% e 110% sobre o preço internacional; com a alta do cacau em 2024, esse diferencial recuou para cerca de 40%, segundo informações da empresa.
Além do preço, a Dengo tenta agilizar o pagamento aos produtores em até dois dias, segundo a executiva, em contraste com prazos mais longos de pagamento praticados no mercado.
A origem do cacau também é parte da estratégia da empresa, que disse que compra exclusivamente de sistemas agroflorestais — cabruca, no caso do sul da Bahia, e modelos equivalentes na Amazônia.
“Comprar de pequenos produtores, manter a floresta em pé e entregar um produto de qualidade para o consumidor”, explica a executiva, sobre o foco da empresa em atuar na cadeia.
Esse controle da matéria-prima se estende ao processo industrial. A empresa adota o modelo bean-to-bar, em que compra a amêndoa e conduz internamente etapas como a torra e a formulação das receitas.
A escolha permite maior controle sobre o sabor e a padronização dos produtos.
Segundo Renata Rabelo, executiva de Marketing e P&D da empresa, a torra mais baixa é usada para preservar as notas sensoriais do cacau, como nuances frutadas e florais, em oposição ao perfil mais uniforme de chocolates industrializados.
“Nós priorizamos as notas de cacau para um chocolate de verdade. Não precisamos colocar muito açúcar para esconder sabores de uma torra excessiva”, disse a executiva à Bloomberg Línea.
A formulação também segue uma linha bem definida: uso exclusivo de manteiga de cacau, sem substitutos, e ausência de aromatizantes ou aditivos.
O teor de cacau é outro elemento de diferenciação nos produtos da Dengo, que concentram no mínimo 38% da amêndoa e podem chegar a 50% a depender da categoria, segundo a empresa.
A Dengo opera atualmente 57 lojas, sendo 19 franquias. A empresa abriu cinco unidades no último ano. A expansão deve seguir com franquias, conta a CEO. Há duas lojas no Sul do país.
No exterior, a empresa mantém duas lojas próprias em Paris.
Em termos de desempenho, a companhia reporta crescimento de vendas em lojas comparáveis de 22% e avanço relevante em datas sazonais, como a Páscoa.
A categoria de cafeterias responde por cerca de 17% das vendas das lojas e é vista como um instrumento importante de fidelização, mais do que diversificação do core business.
A lógica é aumentar a frequência de consumo em um produto tipicamente associado a ocasiões especiais.
No portfólio, a expansão ocorre via novos formatos e sabores. A empresa tem apostado em produtos em versões menores para ampliar a penetração a diferentes públicos e trabalha com combinações com ingredientes brasileiros, como banana, cupuaçu e castanha de caju.
“Propósito sem resultado não se sustenta. Mas o resultado sem propósito não nos representa”, disse Moreira.
Antes de assumir como CEO na Dengo em junho de 2025, Moreira foi diretora comercial do grupo ADCOS e passou pela Lacoste e Estée Lauder.
A empresa afirma estar aberta à compra de cacau de novos produtores. Para a CEO, o próximo ciclo de crescimento pode depender menos da expansão física e mais de ganhos de produtividade sem alterar o modelo de negócios que sustenta a operação.
“Não somos uma filantropia. É um negócio que precisa ser rentável e sustentável”, disse. “O propósito faz parte do modelo de negócio, com um valor mais compartilhado ao longo da cadeia.”
Leia também
Chocolate renasce no sul da Bahia com nova geração de produtores de cacau fino